biografias

Nelson Mandela

1.º presidente da África do Sul (1918–2013)

6 min de leitura01/01/2024
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No dia 18 de julho de 1918, numa pequena aldeia chamada Mvezo, no Transkei, região costeira do que hoje é a província sul-africana do Cabo Leste, nasceu Nelson Rolihlahla Mandela. Era filho de um conselheiro do rei xhosa do povo Thembu, membro do clã Madiba, linhagem que conferia prestígio mas não riqueza. O menino que recebeu o nome de Rolihlahla, que em xhosa significa literalmente "aquele que causa problemas" ou "agitador de galhos de árvore", cresceria para justificar com fidelidade impressionante o sentido de seu nome original.

A infância de Mandela transcorreu primeiro em Mvezo e depois em Qunu, aldeia onde guardaria memórias de uma vida simples, de campos abertos e da oralidade rica da tradição xhosa. Quando tinha cerca de nove anos, com a morte do pai, foi enviado para morar na corte do regente Jongintaba Dalindyebo, em Mqhekezweni, o "Grande Lugar", capital do reino Thembu. Ali recebeu uma educação que misturava a tradição africana com o currículo ocidental das escolas cristãs, tornando-se um jovem bilíngue e familiarizado com dois mundos distintos.

O destino traçado para Mandela seria o de ocupar, como assessor, um cargo na estrutura de chefia do povo Thembu. Ele tinha a educação, a linhagem e a confiança do regente. Mas aos vinte e dois anos, diante de um casamento arranjado que não desejava, fugiu para Joanesburgo em companhia de um amigo, recusando o roteiro que outros haviam escrito para ele. Na maior cidade da África do Sul, trabalhou como guarda-noturno em minas, fez contatos políticos e ingressou na Universidade de Wits para cursar direito, tornando-se um dos primeiros advogados negros sul-africanos.

O contexto histórico no qual Mandela cresceu era de opressão sistemática. A África do Sul havia sido construída sobre a exploração da mão de obra negra, primeiro pelos colonizadores boers e depois pelos britânicos. Em 1948, o Partido Nacional assumiu o poder com um programa abertamente racista chamado Apartheid, que significa "separação" em africâner. Sob o Apartheid, cada aspecto da vida era regulado pela cor da pele: onde morar, onde trabalhar, com quem se casar, em qual banco sentar, em qual banheiro entrar. A legislação sul-africana ultrapassou até mesmo as leis segregacionistas dos estados sulistas dos Estados Unidos na crueldade e no alcance.

Mandela ingressou no Congresso Nacional Africano, partido fundado em 1912 por ativistas negros para defender os direitos da maioria não branca. Dentro do CNA, tornou-se um dos líderes da Liga da Juventude, ala mais radical que pressionava pela adoção de táticas mais confrontadoras. Na década de 1950, organizou boicotes, greves e campanhas de desobediência civil, sendo preso e processado várias vezes. Sua postura pública e sua eloquência o tornaram uma das faces mais reconhecíveis da resistência ao Apartheid.

Após o Massacre de Sharpeville, em 1960, quando policiais abriram fogo contra manifestantes negros desarmados e mataram dezenas deles, o governo proibiu o CNA. Mandela concluiu que a resistência não violenta havia chegado ao seu limite e, em 1961, cofundou o Umkhonto we Sizwe, braço armado do CNA que se dedicou a sabotar instalações do governo, evitando deliberadamente vítimas humanas. Para coordenar essas operações, viveu clandestinamente como um fantasma, disfarçando-se de motorista e trabalhador para escapar das autoridades, o que rendeu a ele o apelido de "O Pimpernel Negro".

A liberdade durou pouco. Em agosto de 1962, com informações que décadas depois seriam atribuídas à CIA americana, Mandela foi preso. Em 1963, no chamado Julgamento de Rivonia, ele e outros líderes do CNA foram acusados de sabotagem e conspiração para derrubar o governo. Na ocasião, Mandela pronunciou um discurso histórico no banco dos réus, declarando lutar pelo ideal de uma sociedade democrática e livre, e disse que estava preparado para morrer por esse ideal, se necessário. A sentença foi prisão perpétua, não a morte, talvez pela pressão internacional que o julgamento atraiu.

Mandela passou os próximos 27 anos preso, primeiro na infame Robben Island, onde o trabalho forçado nas pedreiras causava danos permanentes à visão dos detentos, e depois nas prisões de Pollsmoor e Victor Verster. Durante todo esse tempo, seu nome foi proibido de ser citado publicamente na África do Sul, mas tornou-se símbolo internacional de resistência. Campanhas globais exigiam sua libertação. O slogan "Libertem Mandela" ecoava em shows de rock, manifestações estudantis e discursos em parlamentos de todo o mundo.

Em 11 de fevereiro de 1990, após negociações secretas entre o CNA e o governo do presidente F.W. de Klerk, Mandela saiu pela porta da prisão Victor Verster com o punho cerrado erguido, numa cena transmitida ao vivo para bilhões de pessoas. Tinha 71 anos. Em vez de amargura, suas primeiras palavras públicas enfatizaram a necessidade de reconciliação e negociação. Ele e De Klerk compartilharam o Prêmio Nobel da Paz em 1993 pelas negociações que levaram ao fim do Apartheid.

Em abril de 1994, as primeiras eleições democráticas da história sul-africana, nas quais todos os cidadãos, independentemente da cor, puderam votar, levaram Mandela à presidência com 62% dos votos. Governou de 1994 a 1999, optando por não concorrer à reeleição, gesto raro entre líderes africanos que reforçou o compromisso com princípios democráticos. Sua presidência foi marcada pela Comissão da Verdade e Reconciliação, mecanismo que permitia a autores de crimes do Apartheid revelarem publicamente seus atos em troca de anistia, priorizando a cura social sobre a vingança penal.

Mandela morreu em 5 de dezembro de 2013, em Joanesburgo, aos 95 anos, rodeado pela família. Sua morte provocou luto em todos os continentes. A Organização das Nações Unidas instituiu o Dia Internacional Nelson Mandela no dia 18 de julho, seu aniversário, como tributo a um homem que demonstrou que a resistência paciente e a disposição para o diálogo podem, ao longo de décadas, vencer até a mais institucionalizada das injustiças.

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