biografias

Abraham Lincoln

16.° presidente dos Estados Unidos

7 min de leitura01/01/2024
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A cabana onde Abraham Lincoln nasceu, em 12 de fevereiro de 1809, na Fazenda Sinking Spring, no Condado de Hardin, no estado do Kentucky, era uma construção modesta de troncos, como eram quase todas as habitações da fronteira americana da época. O segundo filho de Thomas e Nancy Lincoln, ele descendia de Samuel Lincoln, imigrante inglês chegado ao Massachusetts no século XVII, e cuja família havia migrado para o sul ao longo das gerações até se instalar na fronteira do Kentucky. O avô paterno de Abraham, que carregava o mesmo nome, havia sido morto num ataque indígena em 1786, evento traumático que marcou profundamente seu pai Thomas.

A infância de Lincoln foi de privação. A família perdeu suas terras no Kentucky por problemas de titularidade legal em 1816, quando Abraham tinha sete anos, e mudou-se para Indiana, estado onde a escravidão era proibida. Ali, a mãe Nancy morreu em 1818, quando Lincoln tinha nove anos, vítima de uma doença conhecida como "milk sickness", causada pela ingestão de leite de vacas que haviam comido uma planta venenosa. A perda deixou os dois filhos sobreviventes praticamente sem cuidados até que o pai se casou novamente, com Sarah Bush Johnston, mulher que Abraham estimaria pelo resto da vida e que reconheceria como influência positiva em sua formação.

Lincoln foi praticamente autodidata. As poucas semanas de aula que frequentou na infância somavam menos de um ano de educação formal. Compensou essa lacuna lendo com voracidade todo livro que conseguia encontrar, de preferência sob a luz da lareira depois de um dia de trabalho físico nas roças e nas madeireiras. Leu a Bíblia, a Constituição americana, as biografias de Benjamin Franklin e George Washington, e os livros de leis que pôde tomar emprestados. Essa educação irregular produziu um dos melhores prosadores da história americana, um homem que escolhia cada palavra com precisão cirúrgica.

Aos vinte e cinco anos, Lincoln foi eleito para a legislatura estadual do Illinois, iniciando uma carreira política que o levaria, em 1846, à Câmara dos Representantes federal por um mandato. Mas foi como advogado em Springfield, Illinois, que construiu as bases de sua reputação: percorria circuitos judiciais por meses seguidos, argumentando casos em tribunais de cidades menores, adquirindo uma agilidade de raciocínio e um senso prático de justiça que distinguiriam seu estilo político.

A questão da escravidão dominou cada vez mais a vida pública americana na década de 1850. Lincoln, filho de uma família batista que se opunha à escravidão desde a infância, via na expansão do trabalho escravo para novos territórios uma ameaça à alma do experimento democrático americano. Em 1858, disputou uma cadeira no Senado contra Stephen Douglas, rival de longa data, numa série de sete debates públicos que repercutiram em todo o país. Embora Lincoln tenha perdido o assento no Senado, os debates o revelaram como um adversário de calibre nacional, capaz de articular a posição antiescravidão com uma força e uma clareza que nenhum outro político igualava.

Em 1860, Lincoln foi indicado pelo Partido Republicano para concorrer à presidência. Com quase nenhum apoio nos estados do sul, percorreu o norte e ganhou a eleição. A reação sulista foi imediata: antes mesmo de sua posse, sete estados escravistas declararam secessão da União e formaram os Estados Confederados da América. Em 12 de abril de 1861, forças confederadas atacaram o Forte Sumter, na Carolina do Sul, e a Guerra Civil Americana teve início.

Lincoln conduziu a guerra com uma mistura de determinação estratégica e flexibilidade tática. Suspendeu o habeas corpus para permitir a detenção de simpatizantes da secessão, gesto que lhe valeu acusações de autoritarismo mas que seus defensores justificavam pela necessidade de preservar a união. Exerceu influência direta sobre os esforços militares, substituindo generais que não performavam adequadamente até encontrar em Ulysses S. Grant o comandante capaz de derrotar os exércitos confederados de Robert E. Lee.

A abolição da escravidão foi o ato mais duradouro de seu governo. Em 1º de janeiro de 1863, Lincoln assinou a Proclamação de Emancipação, libertando juridicamente os escravizados nos estados em rebelião. A medida tinha tanto um propósito moral quanto estratégico: enfraquecia a Confederação ao privar-la de sua força de trabalho e permitia que homens negros se alistassem no Exército da União. O passo definitivo veio com a Décima Terceira Emenda à Constituição, aprovada em janeiro de 1865, que aboliu a escravidão em todo o território americano.

O Discurso de Gettysburg, pronunciado em novembro de 1863 durante a dedicação do cemitério onde jaziam os mortos da batalha mais sangrenta da guerra, ficou gravado na memória americana. Com apenas 272 palavras, Lincoln redefiniu o propósito da guerra: não era apenas uma questão de preservar a União territorial, mas de provar que uma nação fundada sobre princípios de igualdade e autogovernança poderia sobreviver. A frase "governo do povo, pelo povo, para o povo" tornou-se um dos enunciados políticos mais repetidos da história moderna.

Lincoln foi reeleito em novembro de 1864 e viu a guerra chegar ao fim com a rendição de Lee em 9 de abril de 1865. Seis dias depois, em 14 de abril, durante uma apresentação no Ford's Theatre em Washington, foi baleado na cabeça pelo ator John Wilkes Booth, simpatizante da Confederação. Morreu na manhã seguinte, 15 de abril de 1865, tornando-se o primeiro presidente americano assassinado. Tinha 56 anos. O país entrou em luto profundo: o caixão percorreu milhares de quilômetros de trem até Springfield, Illinois, onde foi sepultado, e multidões se acotovelavam nas estações para prestar uma última homenagem.

Historiadores e estudiosos americanos classificam consistentemente Lincoln entre os três maiores presidentes dos Estados Unidos, ao lado de George Washington e Franklin Roosevelt. Sua grandeza reside não apenas nas realizações concretas, como preservar a união e abolir a escravidão, mas também na qualidade moral que demonstrou ao fazê-lo: sem ódio, sem sede de vingança, com a firmeza necessária e a generosidade possível. Seu segundo discurso de posse, com o chamado à "caridade para todos e malícia para nenhum", permanece um modelo de como líderes podem falar sobre feridas nacionais sem abri-las ainda mais.

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