biografias

Joana d'Arc

Santa da Igreja Católica e heroína da França

8 min de leitura01/01/2024
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Numa pequena aldeia chamada Domrémy, no nordeste da França, por volta de 1412, nasceu uma menina que nunca aprenderia a ler nem a escrever, mas cujo nome atravessaria séculos. Joana era filha de Jacques d'Arc, camponês com cerca de vinte hectares de terra que também servia como cobrador de impostos e chefe da guarda local, e de Isabelle Romée, mulher de fé profunda. A infância de Joana foi moldada pelo trabalho doméstico — fiava lã, cuidava do gado, ajudava nos campos — e por um contexto político que transformava a França num campo de ruínas.

O país vivia o pior momento da Guerra dos Cem Anos, conflito iniciado em 1337 pela disputa entre ingleses e franceses pelo trono de Paris. Quando Joana era criança, a situação era catastrófica: o rei Carlos VI sofrIA crises de loucura que o tornavam incapaz de governar, e a nobreza francesa estava dilacerada entre dois partidos rivais, os Armagnacs e os Borguinhões. Os ingleses exploraram essa divisão para avançar militarmente, e o Tratado de Troyes de 1420 chegou a deserdarem o próprio príncipe herdeiro, o Delfim Carlos, excluindo-o da sucessão em favor do bebê inglês Henrique VI.

Nesse cenário de desintegração nacional, Joana afirmava ouvir vozes. Desde os treze anos, dizia receber instruções do arcanjo Miguel, de Santa Margarida e de Santa Catarina, que lhe ordenavam ajudar o Delfim Carlos a expulsar os ingleses e conduzir o príncipe à coroação em Reims. Para uma camponesa analfabeta sem qualquer influência, convencer autoridades militares e religiosas a levá-la a sério exigiu uma persistência extraordinária.

Em 1429, Joana conseguiu audiência com o capitão Robert de Baudricourt na cidade de Vaucouleurs e, após initial ceticismo, obteve uma escolta para chegar até o Delfim Carlos em Chinon. Conta-se que Carlos tentou enganá-la misturando-se à corte, mas ela o reconheceu imediatamente — episódio que muitos interpretaram como confirmação sobrenatural de sua missão. Carlos, desesperado e sem recursos, tinha pouco a perder: enviou Joana com um exército para tentar romper o cerco inglês a Orléans.

O Cerco de Orléans durava meses. Os ingleses haviam cercado a cidade de tal forma que sua queda parecia questão de tempo. A chegada de Joana, vestida com armadura branca e carregando um estandarte com a imagem de Cristo, transformou a moral dos defensores. Em apenas nove dias de operações militares intensas, entre 4 e 8 de maio de 1429, as forças francesas retomaram as fortalezas inglesas ao redor da cidade, forçando o inimigo a retirar o cerco. A vitória foi tão rápida e inesperada que o nome de Joana começou a circular pela França como o de uma enviada divina.

A série de vitórias que se seguiu foi igualmente impressionante. Nas semanas seguintes, Joana liderou campanhas militares que desalojaram os ingleses de cidades estratégicas no Loire, abrindo o caminho para Reims. Em julho de 1429, Carlos VII foi coroado na Catedral de Reims com Joana ao seu lado — um momento de enorme significado simbólico, pois reafirmava a legitimidade da monarquia francesa e desfazia o decreto de exclusão do Delfim. O fervor patriótico que tomou conta do povo francês foi imediato e poderoso.

A maré, porém, começou a virar após a fracassada tentativa de retomar Paris em setembro de 1429. A nobreza francesa, que nunca havia aceitado bem uma camponesa ocupando posição de destaque militar, passou a sabotá-la. Em maio de 1430, durante operações militares em Compiègne, Joana foi capturada pelos Borguinhões — os franceses aliados dos ingleses — e vendida ao governo inglês por dez mil libras tornesas.

O julgamento que se seguiu foi um processo político disfarçado de tribunal eclesiástico. O bispo Pierre Cauchon, comprometido com os interesses ingleses, presidiu um tribunal em Ruão que acumulou acusações contra Joana: heresia, feitiçaria, desobediência à Igreja. A acusação mais recorrente envolvia o uso de roupas masculinas — argumentavam que vestir armadura masculina violava as escrituras sagradas. Joana defendeu-se com inteligência impressionante para alguém sem educação formal, frequentemente confundindo os letrados inquisidores com a precisão de suas respostas.

Submetida a pressões extremas e ameaçada de tortura, Joana assinou uma retratação em maio de 1431. Dias depois, porém, retomou as roupas masculinas — ato interpretado como reincidência —, e Cauchon a sentenciou à morte por heresia. Em 30 de maio de 1431, Joana d'Arc foi queimada viva na praça do Mercado Velho de Ruão. Tinha por volta de dezenove anos. Seu coração, segundo relatos da época, não se consumiu pelas chamas e precisou ser jogado no rio Sena.

A execução não encerrou a história — pelo contrário, iniciou o processo de sua transformação em lenda. A morte de Joana gerou um fervor patriótico ainda mais intenso na França, e a Guerra dos Cem Anos penderia definitivamente para o lado francês nos anos seguintes, encerrando-se em 1453 com a expulsão dos ingleses do continente europeu. Em 1456, um tribunal inquisitorial autorizado pelo Papa Calisto III reviu o processo original e declarou Joana inocente de todas as acusações, proclamando-a mártir da Igreja.

No século XVI, ela foi adotada como símbolo pela Liga Católica, e em 1803, Napoleão Bonaparte a declarou oficialmente símbolo nacional da França. Beatificada em 1909 e canonizada em 1920 pelo Vaticano, Joana d'Arc tornou-se padroeira da França. Sua figura inspirou peças teatrais, romances, óperas, filmes e incontáveis obras de arte ao longo dos séculos, sendo relida por cada geração de acordo com seus próprios valores — como santa, como heroína nacional, como precursora do feminismo ou como símbolo da resistência contra a opressão. Poucos personagens históricos geraram tantas interpretações a partir de uma vida tão breve e tão extraordinária.

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