Tutancâmon governou o Egito por apenas dez anos, morreu antes de completar vinte e deixou um nome quase completamente esquecido por mais de três mil anos — até que uma descoberta arqueológica no Vale dos Reis em 1922 o transformou no faraó mais famoso da história. Nascido por volta de 1341 a.C., era filho de Aquenáton, o faraó revolucionário que havia tentado transformar o politeísta Egito numa monarquia dedicada a um único deus, o disco solar Áton. Sua mãe era uma irmã do próprio Aquenáton, fruto de uma prática de casamentos entre parentes que era comum na realeza egípcia mas gerava consequências genéticas graves.
O menino que viria a ser faraó cresceu num período de turbulência religiosa e política sem precedentes. O reinado de Aquenáton havia demolido o poder do clero de Amom, transferido a capital para a nova cidade de Aquetatém e ordenado que os egípcios adorassem exclusivamente Áton — reformas que geraram uma ruptura violenta com séculos de tradição religiosa e alienaram a maioria do povo e da elite sacerdotal. Quando Aquenáton morreu, por volta de 1336 a.C., o trono passou por interinos breves antes de chegar a Tutancâmon, que subiu ao poder com apenas nove ou dez anos de idade e o nome de Tutancáton, "imagem viva de Áton".
Dada sua idade, o governo real estava nas mãos de dois conselheiros poderosos: o grão-vizir Aí, que sucederia Tutancâmon no trono, e o general Horemebe, que mais tarde tornaria-se faraó após Aí. Foi sob a influência desses homens que, no terceiro ano de reinado, Tutancâmon implementou uma das mais drásticas reversões políticas da história egípcia: abandonou o culto de Áton, restaurou Amom como divindade suprema, devolveu os bens confiscados ao clero, reabriu os templos, retransferiu a capital para Tebas e mudou o próprio nome para Tutancâmon, "imagem viva de Amom". A estela de restauração que registra essas reformas descreve um país cujos templos estavam "em ruínas" e cujos santuários eram percorridos por matagais.
Além da restauração religiosa, o jovem rei buscou reconstruir as relações diplomáticas deterioradas pelo isolamento do reinado do pai. Evidências encontradas em sua tumba sugerem que presentes chegaram de vários países, indicando um esforço de aproximação com reinos vizinhos. Os registros em seu templo mortuário em Tebas mencionam batalhas contra núbios e asiáticos, embora a maioria dos historiadores acredite que Tutancâmon, dados sua juventude e suas limitações físicas, não tenha participado pessoalmente dos combates.
As limitações físicas de Tutancâmon eram de fato consideráveis. Com aproximadamente 1,67 metro de altura e magro, ele sofria de diversas condições que os estudos modernos ajudaram a identificar: deformações no pé esquerdo causadas por necrose óssea que o forçavam a usar bengala, uma leve fissura palatina, possível escoliose leve e, o que é mais grave, infecções repetidas por malária — a análise de DNA identificou DNA do parasita Plasmodium falciparum em sua múmia, tornando-o a mais antiga prova genética conhecida da doença. Mais de uma cepa foi encontrada, indicando que o jovem sobreveiveu a múltiplas infecções.
Tutancâmon morreu por volta de 1323 a.C., com cerca de dezoito ou dezenove anos. As causas exatas de sua morte são debatidas há décadas: as primeiras análises nos anos 1960 sugeriram um golpe na cabeça, alimentando teorias de assassinato. Estudos posteriores mais sofisticados apontam para uma combinação de fatores: as múltiplas infecções de malária, a fratura de um osso da perna que pode ter ocorrido pouco antes da morte e possivelmente a debilidade imunológica gerada pela consanguinidade. A tumba que lhe foi designada, a KV62 no Vale dos Reis, era relativamente modesta — adequada talvez para um nobre, não para um faraó —, o que sugere uma morte inesperada sem tempo para preparar a sepultura majestosa que a tradição reservava aos reis.
Foi exatamente essa modéstia que o salvou do esquecimento definitivo. As tumbas reais maiores foram saqueadas na Antiguidade; a de Tutancâmon, pequena e parcialmente coberta pelos entulhos de construção da tumba de Ramsés VI, foi esquecida. Em 4 de novembro de 1922, o arqueólogo britânico Howard Carter, financiado pelo colecionador Lord Carnarvon, descobriu os degraus que levavam à câmara selada. Quando Carter fez um orifício na porta interior e olhou para dentro à luz de uma vela, Carnarvon perguntou o que ele via. "Coisas maravilhosas", respondeu Carter.
O que havia dentro era um tesouro sem igual na arqueologia: mais de cinco mil objetos preservados em estado extraordinário — móveis dourados, carruagens desmontadas, armas, roupas, estatuetas, joias, instrumentos musicais e, cobrindo o rosto da múmia, a máscara mortuária de ouro maciço incrustada de lápis-lazúli, quartzo e turquesa que se tornaria o símbolo mais reconhecível do antigo Egito. As exposições itinerantes desses artefatos, realizadas nas décadas seguintes, atraíram milhões de visitantes em todo o mundo e geraram uma fascinação duradoura pelo Egito antigo. Tutancâmon, o faraó menor que governou brevemente num período de crise, tornou-se, três milênios depois de sua morte, o mais célebre de todos os faraós.
