Caio Mário nasceu por volta de 157 antes de Cristo na cidade de Arpino, ao sul do Lácio, região que havia sido incorporada à República Romana décadas antes. Sua família pertencia à classe equestre, embora as fontes antigas — em especial Plutarco — tenham exagerado sua origem humilde para ressaltar o caráter excepcional de sua ascensão. Arpino só recebeu a cidadania romana plena em 188 antes de Cristo, o que fazia de Mário um cidadão de primeira geração em sentido pleno, desprovido da ancestralidade senatorial que abria as grandes magistraturas da República. Esse ponto de partida moldaria toda a sua personalidade política: ambicioso, combativo, desconfiado da nobreza estabelecida, e disposto a usar meios pouco convencionais para avançar.
Uma lenda de sua infância conta que ele encontrou, ainda adolescente, um ninho de águia com sete filhotes no interior. Como a águia era o animal sagrado de Júpiter, o episódio foi interpretado mais tarde como presságio de sua eleição ao consulado por sete vezes. A história pode ser fabricação posterior, mas ela revela como a cultura romana construía narrativas providenciais em torno de seus grandes homens. O fato é que, ao assumir seu primeiro consulado, Mário decretou que a águia se tornaria o símbolo do Senado e do Povo de Roma — a chamada águia romana que perdurou como emblema militar por séculos.
O início da carreira militar de Mário se deu nas Guerras Celtiberas, na Hispânia. Quando Cipião Emiliano chegou para assumir o comando, Mário já estava há algum tempo no teatro de operações e destacou-se pela disciplina e pelo valor em combate, recebendo condecorações e chamando a atenção do general. Teria sido o próprio Emiliano a encorajar Mário a tentar a carreira política, um conselho incomum considerando que Mário era um homem novo sem ancestrais consulares.
Apoiado pelos Cecílios Metelos, a família romana mais poderosa da época, Mário conseguiu ser eleito tribuno da plebe em 120 antes de Cristo. Sua entrada no Senado abriu as portas do cursus honorum. O mandato como tribuno revelou, porém, as contradições que marcariam sua carreira: ele se opôs à pressão coercitiva da oligarquia nas votações, o que desagradou à nobreza, mas também rejeitou uma proposta populista de ampliação da distribuição de trigo, desagradando ao povo. Em Roma, Mário nunca foi plenamente nem de um lado nem de outro, o que lhe garantia inimigos em todas as direções.
Após algumas derrotas eleitorais, em 116 antes de Cristo Mário foi eleito pretor em circunstâncias que levantaram suspeitas de suborno. Absolvido por margem estreita, seguiu para governar a Hispânia Ulterior como propretor, onde participou de operações militares de menor escala sem angariar nem triunfo nem riqueza significativa. Em 110 antes de Cristo, casou-se com Júlia Maior, tia paterna de Júlio César. O casamento com uma família patrícia — ainda que de influência modesta no século anterior — revelava a ambição de Mário de se integrar plenamente à aristocracia romana, mesmo que seu caminho para o topo dependesse de outro recurso: a guerra.
A oportunidade surgiu com a Guerra Jugurtina, na Numídia. Após a Segunda Guerra Púnica, o Reino da Numídia tornara-se um aliado valioso de Roma. Mas Jugurta, príncipe de origem ilegítima que havia eliminado rivais e consolidado o poder, desafiou a autoridade romana com descaso crescente, incluindo o assassinato de cidadãos itálicos em Cirta. As campanhas romanas contra ele avançavam vagarosamente, e a opinião pública na capital fervia de impaciência e suspeita de corrupção entre os generais aristocratas.
Mário, servindo como legado de Quinto Cecílio Metelo Numídico na África, aproveitou o momento. Convenceu os soldados e o povo romano de que era ele, e não os generais nobres, quem poderia encerrar o conflito com rapidez. Em 107 antes de Cristo, foi eleito cônsul pela primeira vez e assumiu o comando da guerra. Para preencher os efetivos, tomou uma decisão que transformaria para sempre a estrutura militar romana: permitiu o recrutamento de cidadãos sem propriedade, os chamados capite censi, que até então eram excluídos do serviço militar. Os novos soldados eram equipados pelo Estado e, ao término do serviço, passariam a depender do general que os recrutara para obter terras e sustento — uma mudança que vinculou profundamente as legiões à figura de seus comandantes, com consequências políticas que se fariam sentir por gerações.
Mário também reorganizou a estrutura das legiões, dividindo-as em coortes de aproximadamente quinhentos homens, unidades mais flexíveis e manobráveis do que as antigas formações. Essas reformas, conhecidas coletivamente como a Reforma Mariana, criaram o modelo de legião que perduraria até o fim do Império Romano. Com esse exército reformado, Mário capturou Jugurta em 105 antes de Cristo graças à traição do rei mauritano Bocco, que entregou o líder numida ao questor Lúcio Cornélio Sila — episódio que plantaria as sementes de uma rivalidade amarga entre Mário e Sila.
Antes de encerrar o Jugurtino, Mário já era cônsul eleito para o ano seguinte, pois uma nova ameaça aterrorizava Roma: cimbros e teutões, povos germânicos que desciam do norte e haviam derrotado exércitos romanos em série. Mário conduziu campanhas devastadoras contra os dois grupos, aniquilando os teutões em Aquae Sextiae em 102 antes de Cristo e os cimbros na Batalha de Vercelas em 101 antes de Cristo, salvando a Itália de uma invasão que parecia iminente. Era o ápice de sua glória, e o apelido de "terceiro fundador de Roma" — ao lado do mítico Rômulo e de Marco Fúrio Camilo — refletia o quanto os romanos lhe eram gratos.
A fase final da vida de Mário foi marcada pela turbulência da política interna, pela violência da Guerra Social entre Roma e seus aliados itálicos, e pela luta sanguinária com Sila pelo comando da guerra contra Mitridates VI do Pôntico. Mário chegou ao sétimo consulado em 86 antes de Cristo, já idoso e adoecido, após ter vivido o exílio, a perseguição e o retorno triunfal à frente de tropas que recapturaram Roma em nome da facção popular. Faleceu poucos dias depois de assumir o cargo, em Roma, sem completar o ano. Sua vida foi a da Roma republicana em seu ponto de inflexão — o momento em que o poder passou a pertencer não à hereditariedade, mas às legiões, e as legiões obedeciam a quem lhes prometesse futuro.