O conflito que rasgou o Mali em 2012 não surgiu do nada. Suas raízes mergulham fundo na história das populações tuaregues, povos nômades que habitam o vasto deserto do Saara há séculos e que, desde pelo menos 1916, protagonizaram sucessivas revoltas contra governos que consideravam indiferentes às suas demandas por autonomia e reconhecimento. A mais recente dessas insurreições tomou forma com a criação do Movimento Nacional de Libertação do Azauade, o MNLA, que reuniu veteranos de revoltas anteriores e um contingente expressivo de combatentes tuaregues experientes, muitos deles recém-saídos da Líbia após a queda de Muammar Gaddafi em 2011.
A Guerra Civil Líbia alterou de forma decisiva o equilíbrio de forças na região. Com o colapso do regime líbio, arsenais inteiros foram saqueados e um fluxo sem precedentes de armas pesadas chegou às mãos dos tuaregues que haviam combatido tanto pelo Conselho Nacional de Transição quanto pelo Exército Líbio. Essa nova capacidade bélica surpreendeu analistas e militares malianos, acostumados a confrontar rebeldes com armamento leve. O MNLA declarava representar não apenas os tuaregues, mas todos os grupos étnicos da região de Azauade, no norte do Mali, invocando o direito à autodeterminação dos povos saarianos.
Os primeiros ataques da revolta ocorreram em janeiro de 2012, quando combatentes do MNLA atacaram Menaka, pequena cidade no extremo leste do Mali, nos dias 16 e 17 daquele mês. Logo em seguida, Aguelhok e Tessalit também foram alvos. O governo maliense afirmou ter recuperado o controle das localidades no dia seguinte, mas a retomada foi efêmera. Em 24 de janeiro, os rebeldes retomaram Aguelhok depois que as tropas governamentais ficaram sem munição, evidenciando a fragilidade das Forças Armadas do Mali diante de um inimigo agora bem equipado.
A instabilidade no campo de batalha provocou turbulências profundas na capital, Bamako. Protestos eclodiam enquanto o governo do presidente Amadou Toumani Touré tentava reorganizar seus comandantes militares para fazer frente à insurgência. Em 22 de março de 2012, um grupo de militares insatisfeitos com a condução da guerra desfechou um golpe de Estado, depondo Touré apenas um mês antes das eleições presidenciais. Os golpistas, reunidos sob a bandeira do Comitê Nacional para a Restauração da Democracia e do Estado, suspenderam a Constituição do Mali, ainda que essa medida tenha sido revertida já no dia primeiro de abril, diante da pressão interna e internacional.
O vácuo de poder criado pelo golpe abriu caminho para os rebeldes avançarem de maneira acelerada. As três maiores cidades do norte do Mali, Quidal, Gao e Tombuctu, caíram nas mãos do MNLA em rápida sucessão. Em 5 de abril, após a captura de Douentza, o movimento declarou ter atingido seus objetivos militares e anunciou o encerramento de sua ofensiva. No dia seguinte, 6 de abril de 2012, foi proclamada a independência do Estado de Azauade, reconhecida por nenhum governo do mundo, mas que representava um momento histórico inédito para as populações tuaregues.
A aliança que havia tornado a conquista possível, porém, se revelou frágil desde o início. O MNLA recebera o apoio do grupo islâmico Ansar Dine, cujo nome significa "Defensores da Fé". Enquanto o MNLA perseguia objetivos laicos de independência e autodeterminação, o Ansar Dine, liderado por Iyad Ag Ghaly, queria algo completamente diferente: a imposição da sharia, a lei islâmica, sobre o território conquistado. Com os militares malianos expulsos de Azauade, a contradição entre os dois parceiros veio à tona e transformou aliados em rivais.
O Ansar Dine passou a impor a sharia com severidade nas cidades do norte, destruindo mausoléus históricos de santos islâmicos em Tombuctu, considerados patrimônio da humanidade pela UNESCO, e proibindo músicas, danças e outras manifestações culturais. O MNLA, que não buscava um Estado teocrático, começou a enfrentar militarmente tanto o Ansar Dine quanto o Movimento para a Unidade e Jihad na África Ocidental, o MUJOA, grupo dissidente da Al Qaeda no Magrebe Islâmico. Os combates entre antigas forças aliadas deterioraram rapidamente a posição do MNLA. Até 17 de julho de 2012, os islamistas haviam expulsado o movimento laico da maioria das cidades que antes controlava.
Diante do avanço islâmico em direção ao sul e da ameaça de que todo o Mali pudesse ser tomado por grupos extremistas, a França decidiu intervir. Em 11 de janeiro de 2013, o presidente François Hollande anunciou que as forças francesas prestariam apoio às autoridades malianas, a pedido do governo de Bamako. A operação francesa, batizada de Serval, empurrou os grupos jihadistas para o norte e permitiu que o governo maliense recuperasse o controle das cidades perdidas. A intervenção foi amplamente celebrada no Mali, onde multidões receberam os soldados franceses como libertadores.
O retorno relativo da estabilidade abriu espaço para negociações. Em 18 de junho de 2013, após mais de um ano e meio de conflito, o governo do Mali e os rebeldes tuaregues assinaram um acordo de paz. A euforia, porém, foi de curta duração. Em 26 de setembro do mesmo ano, os rebeldes anunciaram que não mais aceitariam o acordo, alegando que o governo não havia cumprido os entendimentos firmados. A luta continuava mesmo enquanto diplomatas buscavam uma saída negociada e as forças francesas sinalizavam intenção de se retirar gradualmente do país.
Um novo cessar-fogo entrou em vigor em 20 de fevereiro de 2015, embora combates esporádicos persistissem em diversas regiões. O conflito no Mali se tornara, com o tempo, parte de um problema maior que afligia toda a região do Sahel, onde grupos ligados à Al Qaeda, ao Estado Islâmico e outros movimentos jihadistas disputavam territórios e influência com governos cronicamente enfraquecidos. O país passou também por sucessivos golpes militares nos anos seguintes, aprofundando a crise institucional.
O legado da guerra civil maliense é de destruição multifacetada. Tombuctu, cidade de importância histórica e cultural imensurável para o islã africano, viu parte irreparável de seu patrimônio ser reduzida a escombros pelos extremistas. Centenas de milhares de pessoas foram deslocadas de suas casas. A economia do norte, já frágil, colapsou. A instabilidade atraiu grupos jihadistas de diversas partes do Sahel, transformando o Mali num ponto de convergência do terrorismo regional. O MNLA e o ideal de um Estado tuaregue independente jamais se materializaram, mas a questão da autodeterminação dos povos do norte permaneceu como ferida aberta na política maliense por anos a fio.

