A Guerra Civil Síria começou de forma relativamente modesta, como parte de uma onda mais ampla de levantes populares que varreram o mundo árabe a partir de 2010 e que ficou conhecida como Primavera Árabe. Em 26 de janeiro de 2011, os primeiros protestos de grande porte eclodiram na Síria, e em 15 de março do mesmo ano o movimento havia evoluído para uma revolta armada de proporções crescentes. O que a maioria dos manifestantes desejava inicialmente era liberdade de imprensa, respeito aos direitos humanos e reformas políticas profundas num país que vivia sob estado de emergência ininterrupto desde 1962, ou seja, há quase meio século, com as garantias constitucionais dos cidadãos sistematicamente suspensas.
A Síria era governada desde 1963 pelo Partido Baath, que chegara ao poder por meio de um golpe de Estado. Dentro desse partido, Hafez al-Assad tomou o controle em 1970 e manteve a presidência com mão de ferro durante trinta anos, até sua morte em 2000, quando foi sucedido por seu filho, Bashar al-Assad. O jovem Bashar herdou um Estado policial sofisticado que reprimia qualquer forma de oposição. Revoltas de cunho islâmico haviam sido sufocadas com extrema brutalidade, como no infame massacre de Hama, onde civis morreram aos milhares. O governo justificava o estado de emergência alegando que a Síria se encontrava em estado de guerra com Israel.
As manifestações de 2011 começaram de forma pacífica, com concentrações em frente ao parlamento sírio e às embaixadas estrangeiras em Damasco. O governo de Bashar al-Assad respondeu enviando tropas às cidades em protesto, com ordem de encerrar a rebelião pela força. O resultado foi um banho de sangue: centenas de civis mortos nas primeiras semanas de confronto. A repressão, longe de sufocar o movimento, alimentou ainda mais a revolta. Ao fim de 2011, soldados desertores e civis armados criaram o Exército Livre Sírio para travar uma luta convencional contra o regime. Em 23 de agosto de 2011, os grupos de oposição se unificaram numa organização representativa chamada Conselho Nacional Sírio.
A violência foi escalando ao longo de 2012. Grandes combates irromperam por todo o território sírio, e em 15 de julho de 2012 a Cruz Vermelha Internacional classificou formalmente o conflito como guerra civil, abrindo caminho para a aplicação do Direito Humanitário Internacional e para investigações de crimes de guerra. O conflito deixou rapidamente de ser uma simples disputa pelo poder e passou a incorporar dimensões sectárias profundas, com a rivalidade histórica entre xiitas e sunitas sendo acirrada pelas escolhas das potências regionais e globais envolvidas.
A guerra não ficou contida dentro das fronteiras sírias. Ela se derramou pelo Líbano e pelo Iraque, inflamando tensões que já existiam. E foi nesse ambiente de caos que, a partir de 2013, uma organização chamada Estado Islâmico começou a reivindicar territórios no Iraque e na Síria. O grupo lutou inicialmente ao lado de facções da oposição síria, mas logo passou a atacar todas as partes do conflito indiscriminadamente, buscando estabelecer um califado. Em junho de 2014, seus militantes proclamaram esse califado com Abu Bakr al-Baghdadi como califa. A ascensão do Estado Islâmico aterrou potências ocidentais e países árabes, que iniciaram intervenções militares contra os extremistas.
Enquanto Estados Unidos, nações da OTAN e países árabes combatiam o Estado Islâmico, Rússia e Irã escolheram apoiar o regime de Assad. Analistas passaram a descrever a guerra síria como uma "guerra por procuração", onde grandes potências utilizavam o território sírio para disputar influência geopolítica sem confrontar-se diretamente. O sofrimento da população civil era o preço pago por todos esses jogos estratégicos. Massacres, uso de armas químicas, bombardeios indiscriminados de áreas residenciais e hospitais tornaram-se ocorrências regulares noticiadas por organizações de direitos humanos.
O saldo humano do conflito foi devastador. Mais de 500 mil pessoas morreram, sendo a maioria civis. Outras 130 mil foram detidas pelas forças de segurança do governo, muitas das quais submetidas a torturas e execuções extrajudiciais em prisões notórias como a de Saydnaya. Mais de cinco milhões de sírios buscaram refúgio no exterior, a maioria no vizinho Líbano, que foi completamente sobrecarregado por essa onda. A crise migratória síria gerou também uma pressão sem paralelo na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, com centenas de milhares de pessoas arriscando a vida para cruzar o Mediterrâneo em busca de segurança.
Durante anos, pareceu que Assad manteria o poder indefinidamente, apoiado pelo músculo militar russo e pelo financiamento iraniano. Mas em novembro de 2024, após um período de relativa calmaria, as forças rebeldes lançaram uma nova ofensiva simultânea a partir do norte, do sul e do leste do país. A velocidade do avanço pegou o regime de surpresa. Em 8 de dezembro de 2024, após treze anos de guerra, Bashar al-Assad fugiu de Damasco, encerrando de uma só vez o conflito e mais de cinquenta e três anos de domínio ininterrupto da família Assad sobre a Síria.
A queda de Assad foi recebida com euforia nas ruas das cidades sírias, mas a alegria foi temperada pela incerteza sobre o que viria a seguir. A Síria estava destruída: infraestrutura em ruínas, economia em colapso, sociedade profundamente fragmentada por mais de uma década de guerra. Os grupos rebeldes que tomaram o controle do país eram heterogêneos, com ideologias e interesses distintos, tornando a tarefa de construção de um novo Estado sírio tão monumental quanto urgente.
O legado da Guerra Civil Síria extrapola as fronteiras do país. Ela redefiniu o papel das grandes potências no Oriente Médio, demonstrou a capacidade destrutiva dos conflitos por procuração, alimentou o crescimento do terrorismo internacional e provocou a maior crise de refugiados do século XXI. O conflito expôs também os limites da comunidade internacional diante de atrocidades sistemáticas, com o Conselho de Segurança da ONU travado pelos vetos russos e chineses durante anos. A Síria pós-guerra enfrentará décadas de reconstrução, reconciliação e esforço de repatriação antes de se aproximar de algo parecido com a normalidade.


