Em 9 de fevereiro de 1976, um Tupolev Tu-104A da Aeroflot iniciou sua decolagem do Aeroporto Internacional de Irkutsk com destino a São Petersburgo, então chamada de Leningrado, com escala em Novosibirsk. O que deveria ser mais um voo doméstico regular da aviação soviética transformou-se em tragédia segundos após a aeronave se separar da pista, matando vinte e quatro das cento e quatorze pessoas a bordo em um acidente cujas causas revelariam uma combinação grave de problemas operacionais e falhas de procedimento.
A aeronave envolvida era um Tu-104A que havia feito seu primeiro voo em 26 de novembro de 1956 e sido entregue à base de Irkutsk em dezembro de 1957, depois de ser usada em voos de teste. Originalmente configurada para 70 passageiros, fora posteriormente ampliada para 85 lugares. No dia do acidente, acumulava 22.069 horas de voo e 10.308 ciclos de pressurização, indicadores que refletiam uma aeronave com histórico extenso de operação. A tripulação era encabeçada pelo comandante Ivan Nikolaevich Svistunov, com Anatoly Fedorovich Grafenkov como primeiro oficial, e contava ainda com navegadores, engenheiro de voo, operador de rádio e comissários de bordo.
Os problemas começaram antes mesmo do voo. Noventa e nove passageiros embarcaram regularmente, mas cinco a mais foram autorizados a entrar na aeronave sem constar no manifesto oficial. Quatro tinham bilhetes, mas não havia assentos disponíveis para todos; um deles era o filho adulto do operador de rádio do voo, que embarcou sem bilhete. Dois dos passageiros excedentes foram acomodados nos banheiros, dois na parte frontal da aeronave e o filho do operador de rádio sentou-se na cabine de comando, onde a presença de estranhos representava um risco adicional para a operação. Nenhum dos cinco constava na documentação do voo, uma irregularidade grave que espelhava a frouxidão de controles que caracterizava parte das operações da aviação soviética da época.
O Voo 3739 iniciou a decolagem às 8h15 no horário local, seguindo o rumo 116°. Logo nos primeiros instantes após o rolar pela pista, a aeronave começou a inclinar para a direita. Os pilotos tentaram corrigir a trajetória aplicando força considerável sobre os controles, chegando a inclinar a aeronave 20° para o lado esquerdo na tentativa de nivelar o aparelho. A aeronave se separou da pista a 300 quilômetros por hora, e por um instante breve os pilotos conseguiram estabilizar o voo. Mas a inclinação para a direita retornou rapidamente, desta vez a apenas 30 metros de altitude. Perdendo altura em velocidade acelerada, o avião caiu oito segundos depois de se separar da pista, com uma inclinação de 70° para o lado direito, a apenas 180 metros além da extremidade sudeste da pista. No impacto, atingiu um Tupolev Tu-154 da companhia Chosonminhang, atual Air Koryo da Coreia do Norte, registrado como P-551, que sofreu danos.
A investigação inicial levantou a hipótese de que a asa direita pudesse ter sido modificada durante a manutenção de forma a criar um desequilíbrio aerodinâmico. Os destroços da asa foram enviados ao Instituto Central de Aerodinâmica e Hidrodinâmica para análise, mas os engenheiros concluíram que ela estava completamente funcional até o momento do impacto. Os investigadores então reproduziram a trajetória do voo em outro Tu-104, e os testes revelaram uma característica estrutural preocupante do modelo: o Tu-104 tinha tendência a se inclinar em caso de vento lateral. Em baixa altitude, a resposta convencional dos pilotos de ajustar apenas os ailerons era insuficiente para corrigir a inclinação; a ação adequada seria reduzir rapidamente a potência dos motores, uma resposta contraintuitiva que a tripulação não executou.
A comissão do Ministério da Indústria da Aviação da União Soviética identificou três causas principais para o acidente. A primeira e mais determinante foi o reabastecimento assimétrico da aeronave: o tanque de combustível da asa direita tinha entre 1.300 e 1.500 quilogramas a mais do que o da asa esquerda, gerando um desequilíbrio de peso que favoreceu a inclinação desde o início da decolagem. A segunda foi a resposta inadequada da tripulação à emergência: os pilotos ignoraram por oito segundos o alarme automático de ângulo de ataque e de sobrecarga vertical antes de reagirem, tempo precioso perdido numa situação que exigia decisões imediatas. A terceira foi a impossibilidade técnica de corrigir a inclinação apenas com o uso dos ailerons quando a aeronave já havia se separado da pista.
O acidente do Voo 3739 da Aeroflot ficou registrado como um dos vários incidentes graves que expuseram as vulnerabilidades operacionais da aviação soviética durante a Guerra Fria, um período em que a pressão por produtividade e a cultura burocrática muitas vezes prevaleciam sobre protocolos rigorosos de segurança. As lições extraídas desse e de outros acidentes semelhantes contribuíram para revisões nos procedimentos de manutenção e nas rotinas de verificação de peso e balanceamento de combustível antes de voos, medidas que, apesar de tardias para as vinte e quatro vítimas daquele fevereiro de 1976 em Irkutsk, ajudaram a tornar as operações aéreas subsequentes um pouco mais seguras.