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Frei Caneca

Joaquim da Silva Rabelo, depois Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, popularmente conhecido

7 min01/01/2024
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Joaquim da Silva Rabelo nasceu em Recife, em 20 de agosto de 1779, filho primogênito de Domingos da Silva Rabelo, um tanoeiro português, e de Francisca Maria Alexandrina de Siqueira. A família vivia no povoado de Fora-de-Portas, área de vocação artesanal próxima ao porto do Recife, um ambiente que misturava a herança portuguesa com a vida pulsante de uma cidade colonial em plena efervescência. A origem humilde não impediu que o jovem Joaquim demonstrasse desde cedo uma inteligência extraordinária e uma força moral que impressionavam todos ao seu redor.

A influência de um primo carmelita de sua mãe provavelmente contribuiu para que Joaquim enveredasse pelo caminho religioso. Em 1796, ele tomou o hábito no Convento de Nossa Senhora do Carmo, em Recife, professando no ano seguinte. A vida conventual, longe de sufocá-lo, abriu portas para uma formação intelectual ampla e rigorosa. O jovem frade frequentava a biblioteca do Seminário de Olinda e a dos Oratorianos, em Recife, construindo uma erudição que se tornaria uma das mais notáveis de toda a Pernambuco colonial. Ordenou-se sacerdote em 1801, com dispensa apostólica de idade por ter apenas 22 anos, e passou a ser chamado de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca — o último nome, curiosamente, era uma homenagem ao pai, fabricante de vasilhames.

A vida intelectual de Frei Caneca não se limitava às paredes do convento. Em 1803, foi nomeado professor de Retórica e Geometria em sua comunidade religiosa, lecionando depois Filosofia racional e moral. Seu interesse pelos assuntos públicos crescia à medida que as ideias iluministas circulavam pelo Brasil colonial, trazidas nos livros que chegavam nos porões dos navios e nas conversas de viajantes. Frei Caneca foi iniciado na Maçonaria, filiando-se às lojas Academia de Suassuna e Academia do Paraíso, centros de reunião daqueles que, influenciados pela Revolução Francesa e pela independência americana, questionavam a dominação portuguesa.

A Revolução Pernambucana de 1817 foi o momento em que Frei Caneca mergulhou definitivamente na política. O movimento proclamou uma república e organizou o primeiro governo independente da região, num gesto de ousadia sem precedentes no Brasil colonial. Frei Caneca participou das últimas semanas do regime republicano, acompanhando o exército que marchava ao sul da província. Com a derrota do movimento pelas forças coloniais, foi preso e enviado para Salvador, na Bahia, onde ficou detido por quatro anos. No cárcere, dedicou-se à redação de uma gramática da língua portuguesa, transformando o tempo de confinamento em oportunidade de produção intelectual.

Solto em 1821, no contexto do movimento constitucionalista em Portugal, Frei Caneca retornou a Pernambuco e retomou as atividades políticas com renovado vigor. Apoiou a formação da primeira Junta Governativa de Pernambuco, presidida por Gervásio Pires Ferreira, que o nomeou para a cadeira pública de geometria. Em 1822, redigiu a "Dissertação sobre o que se deve entender por pátria do cidadão e deveres deste para com a mesma pátria", obra em que argumentava que os portugueses estabelecidos na terra deveriam ser considerados tão pernambucanos quanto os nascidos ali, tentando articular uma identidade política inclusiva num momento de enorme tensão entre diferentes grupos.

O periódico Typhis Pernambucano, que Frei Caneca fundou e dirigiu, tornou-se sua principal tribuna. Ali, o frade defendia com clareza e coragem posições que desafiavam o poder imperial de Dom Pedro I. Quando o imperador outorgou uma constituição centralizadora em 1824, dissolvendo a Assembleia Constituinte eleita, Frei Caneca foi um dos vozes mais veementes na rejeição ao texto. Esse posicionamento o levou à liderança da Confederação do Equador, movimento que eclodiu em 1824 em Pernambuco e que buscava a separação do Nordeste do Brasil imperial, inspirado nos ideais republicanos que o frade vinha defendendo há anos.

A Confederação do Equador foi esmagada pelas forças imperiais após alguns meses de resistência. Frei Caneca foi capturado e levado a julgamento. Condenado à morte por fuzilamento, a execução encontrou um obstáculo inesperado: os soldados recusaram-se a atirar num padre. O verdugo então levou adiante a sentença de outra forma, e Frei Caneca foi enforcado e esquartejado em 13 de janeiro de 1825, no Recife. Tinha 45 anos. O episódio de sua execução revelava as contradições de uma sociedade que condenava à morte um clérigo por defender ideais de liberdade que, décadas depois, parte do próprio Brasil viria a abraçar. Frei Caneca é hoje reconhecido como mártir da liberdade pernambucana e um dos primeiros grandes intelectuais políticos do Brasil independente.

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