A história de Wendell Silva Lira é uma das mais emocionantes que o futebol brasileiro já produziu. Nascido em Goiânia em 7 de janeiro de 1989, Wendell começou sua trajetória esportiva em 1999, quando ainda criança ingressou na escolinha da Ovel e começou a se destacar nas categorias de base do Araguaína Futebol Clube. Em 2002, chegou às divisões de base do Goiás, clube pelo qual se profissionalizou em fevereiro de 2006, consolidando um caminho que parecia apontar direto para as grandes vitrines do futebol nacional.
O ano de 2006 foi uma amostra poderosa do potencial de Wendell. No segundo semestre, foi convocado para a Seleção Brasileira Sub-20 que disputou a Copa Sendai, realizada no Japão, competindo ao lado de jogadores como Alexandre Pato, Ernando e Leyrielton. A equipe sagrou-se campeã da competição, e Wendell marcou um dos gols da campanha. De volta ao Goiás, fez um Campeonato Brasileiro Sub-20 de alto nível: foi eleito a revelação do torneio e terminou como artilheiro com sete gols. O desempenho foi tão impactante que o Milan, um dos maiores clubes do mundo, apresentou uma proposta de 6 milhões de reais ao Goiás. O clube recusou a oferta.
Então vieram as lesões, e com elas, o destino mais cruel que um atleta jovem pode enfrentar. Na temporada seguinte, Wendell rompeu os ligamentos do joelho pela primeira vez e ficou dez meses afastado dos gramados. O retorno foi árduo: lesões musculares repetidas o impediram de encontrar o ritmo de jogo. Em 2010, quando estava emprestado ao Fortaleza, sofreu novo rompimento dos ligamentos do joelho, perdendo praticamente a temporada inteira. O sonho do futebol de elite parecia cada vez mais distante.
Durante os anos seguintes, Wendell rodou por clubes de pouca expressão no cenário nacional, sobrevivendo às margens do profissionalismo, convivendo com a incerteza financeira e com o peso psicológico de não conseguir transformar em carreira o talento que todos haviam reconhecido quando ele tinha dezesseis anos. Em determinado momento, chegou a trabalhar na lanchonete de sua mãe, uma imagem que condensa toda a crueza da realidade enfrentada por atletas que as lesões tiram do caminho.
Em 2015, atuando pelo pequeno Goianésia, Wendell foi a protagonista de um dos momentos mais extraordinários que o futebol brasileiro presenciou naquela geração. Em 11 de março de 2015, em uma partida válida pelo Campeonato Goiano contra o Atlético Goianiense, com placar de 2 a 1 para o Goianésia, ele marcou um gol que desafiava os limites do que parecia fisicamente possível. A jogada começou com o atacante Nonato evitando a saída de bola e passando para Da Matta. O meia ajeitou com categoria e lançou Wendell por cima da defesa adversária. Posicionado à frente da linha da bola, Wendell girou o corpo no ar, executou uma bicicleta rotatória completa e mandou a bola para o fundo da rede do Serra Dourada. O próprio Wendell admitiu que, no calor do lance, não conseguiu ver a finalização acontecer.
O gol percorreu o mundo. As imagens se espalharam pela internet com uma velocidade que ainda surpreendia naquele período, e o que parecia um feito isolado de um campeonato estadual ganhou proporções globais. A FIFA selecionou o tento entre os dez gols mais bonitos do ano, e em 11 de janeiro de 2016, em Zurique, na Suíça, a premiação foi anunciada: Wendell Lira venceu o Prêmio Puskás de 2015-16, considerado o reconhecimento máximo para o gol mais bonito do ano no futebol mundial. Aos 27 anos, tornou-se o segundo brasileiro a conquistar o prêmio, sendo Neymar, em 2011, o primeiro.
A viagem à Suíça e a conquista do Puskás representaram uma virada de vida simbólica para Wendell, mas o futebol não seria mais seu campo de batalha por muito tempo. Em 2016, o atacante tomou uma decisão que surpreendeu o mundo esportivo: aposentou-se profissionalmente e abraçou uma nova carreira como gamer. Criou um canal no YouTube chamado WLPSKS — Wendell Lira, dedicado ao jogo FIFA, onde passou a compartilhar gameplays e análises do universo dos esportes eletrônicos. Pela Netshoes Miners, ingressou de vez no universo do eSports, trocando os gramados pelos servidores digitais.
O legado de Wendell Lira é, acima de tudo, uma história de resistência humana. Ele sobreviveu a lesões devastadoras, ao esquecimento e ao trabalho fora dos gramados, e conseguiu, num único instante de genialidade em um estádio interiorano, colocar seu nome ao lado dos maiores momentos individuais da história do futebol. O Prêmio Puskás não representou o ápice de uma carreira de títulos, mas a coroação de uma trajetória de superação que vai muito além dos 90 minutos de qualquer jogo.
