Na madrugada de 22 de abril de 1500, segundo o calendário juliano então em uso — o que equivale a 3 de maio pelo calendário gregoriano adotado posteriormente —, uma frota de treze embarcações avistou uma montanha alongada na linha do horizonte. Era o Monte Pascoal, no litoral do que hoje é o sul da Bahia. O homem que comandava aquela armada, Pedro Álvares Cabral, não sabia ainda que o que seus vigias divisavam era parte de um continente até então desconhecido pelos europeus naquela latitude. Aquele momento daria início a um processo que mudaria radicalmente a história de milhões de pessoas e do planeta.
A viagem de Cabral não era uma aventura exploratória qualquer. Ela se inseria no projeto estratégico da Coroa portuguesa de consolidar a rota marítima para as Índias, aberta por Vasco da Gama em 1498. A armada de Cabral, maior e melhor equipada que a de Gama, tinha como objetivo principal estabelecer relações comerciais permanentes na Índia e afirmar a presença de Portugal no oceano Índico. Para navegar ao largo das costas africanas e aproveitar os ventos favoráveis — a técnica conhecida como "volta do mar" —, a frota fez um grande arco pelo Atlântico Sul que a conduziu às costas americanas. Se esse desvio foi acidental, resultado das condições de navegação, ou se Cabral tinha conhecimento prévio da existência de terras a oeste, é uma questão que a historiografia ainda debate.
A chegada se inseria num contexto mais amplo de transformações que reformatavam o mundo. Desde a conquista portuguesa de Ceuta, em 1415, Portugal vinha empurrando progressivamente as fronteiras do conhecido, financiado por uma nobreza mercantil e por uma monarquia com ambições atlânticas. Bartolomeu Dias havia dobrado o Cabo da Boa Esperança em 1488, e Vasco da Gama havia chegado à Índia uma década depois. O Tratado de Tordesilhas, assinado com Castela em 1494, havia dividido as terras a descobrir ao longo de um meridiano, conferindo a Portugal os direitos sobre territórios a leste daquela linha — incluindo, por coincidência ou cálculo, as novas terras americanas que Cabral encontraria.
Antes da armada de Cabral, outras embarcações europeias já haviam tocado o litoral da América do Sul. O espanhol Vicente Yáñez Pinzón chegou à região do atual Pernambuco em janeiro de 1500, constituindo o primeiro desembarque europeu documentado em solo brasileiro, embora sem consequências políticas devido ao Tratado de Tordesilhas. A passagem de Américo Vespúcio pela costa setentrional do continente em 1499 é citada em relatos, mas baseada exclusivamente nas suas próprias narrativas, de credibilidade contestada. O que distinguiu Cabral e sua armada foi a consequência política: o ato formal de posse em nome da Coroa portuguesa e o início da comunicação sistemática com Lisboa.
Os primeiros dias de contato com as populações indígenas — principalmente grupos de língua tupi que habitavam o litoral — foram descritos com riqueza de detalhes na Carta de Pero Vaz de Caminha, escrivão da armada que redigiu ao rei D. Manuel I um relato minucioso do que viu. Caminha descreveu os indígenas com curiosidade e admiração, registrando seus corpos pintados, seus arcos e flechas, sua aparente ausência de hierarquia e sua indiferença a objetos de metal. Os primeiros contatos caracterizaram-se por trocas simbólicas e por uma observação mútua carregada de perplexidade. No dia 26 de abril, foi celebrada a Primeira Missa no Brasil, no local que ficou conhecido como Porto Seguro.
A nova terra recebeu inicialmente o nome de Ilha de Vera Cruz, logo modificado para Terra de Santa Cruz. O nome Brasil só se consolidaria anos mais tarde, derivado da árvore pau-brasil, cujo corante vermelho logo atraiu a atenção dos comerciantes europeus. A notícia da nova terra se difundiu rapidamente pela Europa, aparecendo na cartografia já em 1502, no Planisfério de Cantino, um dos mapas mais antigos que registram o contorno do litoral brasileiro.
A chegada de 1500 não provocou colonização imediata. Cabral partiu em seguida rumo à Índia, seu destino original, e por quase três décadas o Brasil foi explorado de forma esporádica, principalmente para extração do pau-brasil por meio de feitorias e de acordos com grupos indígenas. A colonização sistemática só começou em 1530, com a implantação das capitanias hereditárias, seguida da criação do governo-geral em 1549 e do início do tráfico negreiro em escala crescente.
A historiografia contemporânea questiona a designação tradicional de "descobrimento", um termo que invisibiliza as centenas de povos indígenas que habitavam o continente há milênios antes da chegada europeia. Estimativas sugerem que entre 2 e 5 milhões de pessoas viviam no território que viria a ser o Brasil em 1500, organizadas em centenas de nações com línguas, culturas e modos de vida distintos. Para esses povos, não houve descobrimento, mas sim uma catástrofe demográfica e cultural de proporções devastadoras, causada por epidemias, guerras e escravidão. No século XIX, o episódio foi alçado a marco fundador da nação brasileira, processo que a historiografia mais recente tem revisitado com olhar mais crítico e plural.
