guerras

Susan Sontag

Professora, realizadora e escritora estado-unidense

5 min de leitura01/01/2024
Anúncio

Poucos intelectuais do século XX foram tão capazes de penetrar nos nervos vivos de seu tempo quanto Susan Sontag. Nascida em Nova York em 16 de janeiro de 1933, ela se tornou uma das vozes mais influentes e controversas da cultura americana, produzindo ensaios, romances e reflexões que moldaram a maneira como gerações pensaram sobre fotografia, guerra, doença, estética e política. Sua morte em 28 de dezembro de 2004, aos 71 anos, encerrou uma trajetória intelectual de rara intensidade.

A infância de Susan foi marcada por perdas e deslocamentos. Nascida Susan Rosenblatt, ela era filha de Jack e Mildred Rosenblatt, ambos judeus de ascendência lituana e polonesa. O pai, que administrava um negócio na China, morreu de tuberculose em 1939, quando Susan tinha apenas cinco anos. Anos depois, a mãe casou-se com o capitão Nathan Sontag, cujo sobrenome Susan e sua irmã Judith adotaram. Essa experiência de se identificar com um nome que veio de fora, de um padrasto que não as adotou formalmente, talvez tenha alimentado nela uma sensibilidade especial para questões de identidade, pertencimento e representação que marcariam sua obra.

A precocidade intelectual foi uma característica definidora de Susan desde cedo. Formou-se na North Hollywood High School aos 15 anos e iniciou seus estudos universitários na Universidade da Califórnia em Berkeley antes de se transferir para a Universidade de Chicago, onde se mergulhou em filosofia, história antiga e literatura. Recebeu o diploma de bacharel em Artes aos 18 anos, foi eleita para Phi Beta Kappa e fez amizade com o então colega Mike Nichols, que se tornaria um dos maiores diretores do teatro e do cinema americanos. Aos 17 anos, casou-se em Chicago com Philip Rieff, após um namoro de apenas dez dias, casamento que duraria oito anos e do qual nasceu seu filho David.

A formação acadêmica continuou em Harvard, onde Sontag estudou literatura com Perry Miller e Harry Levin antes de mergulhar na filosofia e teologia com Paul Tillich, Jacob Taubes e outros nomes de peso do pensamento ocidental. Uma bolsa de estudos a levou ao St Anne's College, na Universidade de Oxford, onde teve aulas com Iris Murdoch, A. J. Ayer e assistiu às palestras de Isaiah Berlin. Apesar dessa imersão no mundo intelectual britânico, ela acabou se transferindo para Paris, onde conviveu com artistas e acadêmicos expatriados. Quando voltou aos Estados Unidos, instalou-se em Nova York, cidade que seria seu centro de gravidade pelo resto da vida.

O ensaio foi o gênero em que Sontag revelou sua voz mais poderosa. Notes on Camp, de 1964, estabeleceu de imediato sua reputação como crítica cultural capaz de levar a sério o que os acadêmicos costumavam ignorar. Contra a Interpretação, de 1966, desafiou a tendência dominante na crítica literária e artística de buscar sempre um significado escondido atrás da obra, defendendo que a arte devia ser experimentada em sua superfície sensorial. A Vontade Radical, de 1968, aprofundou essa reflexão sobre estética e modernidade. Seu ensaio Sobre a Fotografia, de 1977, tornou-se um clássico imediato ao examinar como a reprodução fotográfica transforma nossa relação com a realidade, a memória e a morte.

A doença como metáfora, de 1978, foi escrito em parte a partir da própria experiência de Sontag com o câncer de mama, diagnosticado em 1975. O livro desmontou as narrativas culturais que cercavam o câncer e a tuberculose, analisando como as sociedades projetam em certas doenças significados morais e psicológicos que na verdade revelam mais sobre os preconceitos sociais do que sobre a biologia da enfermidade. A obra contribuiu decisivamente para mudar a forma como se fala publicamente sobre doenças graves.

Além dos ensaios, Sontag escreveu ficção que obteve reconhecimento significativo. In America, romance publicado em 1999, recebeu o National Book Award em 2000, um dos prêmios literários mais importantes dos Estados Unidos. Como cineasta, dirigiu filmes que circularam em festivais internacionais, demonstrando que seu interesse pelas artes não era apenas teórico. Sua participação ativa em zonas de conflito, incluindo a guerra do Vietnã e o Cerco de Sarajevo, onde levou ao palco em pleno bombardeio a peça Esperando Godot de Beckett, traduz uma recusa categórica de qualquer postura de observadora distante.

Em um de seus últimos artigos importantes, publicado no New York Times em maio de 2004, Sontag escreveu sobre as fotografias e vídeos das torturas de Abu Ghraib, afirmando que a história recordaria a guerra do Iraque por essas imagens. Era um comentário que sintetizava décadas de reflexão sobre poder, representação e a capacidade das imagens de revelar ou encobrir a verdade. Susan Sontag morreu em dezembro de 2004 de síndrome mielodisplásica seguida de leucemia mieloide aguda, deixando um corpus de pensamento que continua a ser debatido, contestado e admirado em universidades, redações e salas de aula ao redor do mundo.

Anúncio
Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium

Histórias Relacionadas