No coração da Planície de Salisbury, no condado de Wiltshire, no sul da Inglaterra, erguem-se em formação circular blocos de pedra que foram colocados ali por mãos humanas há mais de cinco mil anos. Stonehenge é o monumento megalítico mais famoso do mundo, um enigma de pedra que desafia gerações de arqueólogos, astrônomos e historiadores e que continua a gerar novas descobertas e teorias sobre o que motivou seus construtores a realizar uma das obras de engenharia mais ambiciosas da pré-história europeia.
A estrutura que existe hoje é o resultado de pelo menos três fases construtivas distintas, separadas por séculos de intervalo, o que indica que Stonehenge não foi um projeto único mas um espaço sagrado continuamente transformado por diferentes gerações. O chamado Período I, datado de aproximadamente 3100 antes de Cristo, era muito mais simples do que o monumento atual: consistia numa vala circular de cerca de 97 metros de diâmetro, com um banco interno de pedras e o que parece ter sido um santuário de madeira. Cinquenta e seis buracos escavados ao longo do perímetro externo continham restos humanos cremados, sugerindo uso funerário desde os primórdios. O círculo estava alinhado com o pôr do sol do último dia do inverno e com as fases da Lua.
Por volta de 2150 antes de Cristo, no chamado Período II, o sítio passou por uma transformação radical. Dois círculos de pedras azuis foram instalados — blocos de rocha vulcânica de tonalidade azulada, cada um pesando aproximadamente quatro toneladas. O dado mais impressionante sobre essas pedras é a distância percorrida: elas foram transportadas das montanhas de Preseli, no País de Gales, a cerca de 240 quilômetros ao norte. Como homens sem roda, sem animais de tração adequados e sem ferramentas de metal conseguiram realizar esse transporte permanece um objeto de debate, com propostas que incluem o uso de jangadas, trenós e sistemas de roletes de madeira.
O Período III, iniciado por volta de 2075 antes de Cristo, viu a colocação dos imensos blocos de arenito que dominam a imagem atual de Stonehenge. Essas pedras de sarsen, como são chamadas, medem em média 5,49 metros de altura e pesam cerca de 25 toneladas cada. Ao contrário das pedras azuis, elas foram transportadas de uma distância menor — cerca de 26 quilômetros ao norte — mas o trabalho de erguê-las e colocá-las com tanta precisão ainda assim representou um desafio técnico monumental. Estima-se que as três fases combinadas da construção exigiram mais de trinta milhões de horas de trabalho humano acumuladas ao longo de séculos.
A questão sobre quem construiu Stonehenge foi respondida de formas muito diferentes ao longo dos séculos. A associação com os druidas, popularizada no século XVIII pelo antiquário John Aubrey, dominou o imaginário popular durante muito tempo. A realidade arqueológica, porém, é que os druidas só surgiram na Grã-Bretanha após 300 antes de Cristo — mais de 1.500 anos depois que os últimos círculos de pedra foram erguidos. Os romanos, igualmente, só chegaram às Ilhas Britânicas após 43 da era cristã, quase dois milênios depois da construção do monumento. Somente com o desenvolvimento da datação por carbono-14, no século XX, foi possível estabelecer cronologias precisas e desvincular Stonehenge de suas diversas lendas medievais.
A função do monumento tem gerado tantas teorias quanto sua origem. O alinhamento de Stonehenge com o nascer do sol no solstício de verão — no dia 21 de junho, o sol surge em perfeita exatidão sob a pedra principal — levou nas décadas de 1950 e 1960 o professor Alexander Thom, da Universidade de Oxford, e o astrônomo Gerald Hawkins a desenvolverem a arqueoastronomia, campo dedicado ao estudo do conhecimento astronômico de civilizações antigas. Suas pesquisas demonstraram que Stonehenge era muito mais do que um amontoado de pedras: era um sofisticado instrumento de observação celeste, capaz de marcar solstícios, equinócios e até eclipses lunares. Os autores revelaram ainda que os construtores de Stonehenge dominavam conceitos matemáticos e geométricos notáveis — dois mil anos antes da formulação do Teorema de Pitágoras.
Descobertas arqueológicas mais recentes adicionaram novas dimensões à compreensão do sítio. Pesquisas coordenadas pelo arqueólogo Mike Parker Pearson revelaram a existência de um grande povoado neolítico em Durrington Walls, a poucos quilômetros de Stonehenge, habitado entre 2600 e 2500 antes de Cristo. Nesse local foi encontrada uma réplica do monumento em madeira, sugerindo que Stonehenge de pedra e o círculo de madeira de Durrington Walls funcionavam como espaços complementares — um associado à vida e ao mundo dos vivos, outro associado à morte e ao mundo dos ancestrais. Em 2013, pesquisadores da University College London propuseram que Stonehenge pode ter funcionado originalmente como cemitério para famílias de elite, por volta de 3000 antes de Cristo.
Uma teoria particularmente intrigante, desenvolvida com base nas escavações mais recentes, sugere que Stonehenge pode ter sido um centro de cura para onde peregrinos viajavam de locais distantes. A análise dos restos humanos encontrados no local revelou indivíduos que teriam vindo de regiões distantes da Grã-Bretanha e até do continente europeu, alguns com doenças ou lesões graves. As pedras azuis, especificamente, teriam sido atribuídas a poderes curativos, motivando sua extraordinária jornada desde o País de Gales até a Planície de Salisbury.
Stonehenge foi inscrito como Patrimônio Mundial pela UNESCO e continua sendo um dos sítios arqueológicos mais visitados e estudados do planeta. Cada nova geração de pesquisadores descobre nele algo diferente: um calendário, um templo, um cemitério, um hospital, um observatório, um símbolo de poder político. Talvez a grandeza de Stonehenge esteja precisamente nessa capacidade de acolher múltiplas interpretações sem se esgotar em nenhuma delas — uma estrutura que, quanto mais se estuda, mais perguntas levanta.

