misterios

Sudário de Turim

Pano com a suposta imagem de Jesus

7 min de leitura01/01/2024
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Entre as relíquias cristãs mais debatidas da história, nenhuma gerou tanta controvérsia, fascínio e investigação científica quanto o Sudário de Turim. Trata-se de um pedaço retangular de linho com aproximadamente 4,5 metros de comprimento e 1,1 metro de largura, que carrega impressa em sua superfície a imagem negativa de um homem adulto com cerca de 1,80 metro de altura, exibindo marcas que remetem a ferimentos por crucificação. Para milhões de cristãos ao redor do mundo, esse tecido é a mortalha com que o corpo de Jesus de Nazaré foi envolto após a morte na cruz. Para a ciência, permanece um objeto de enigma sem solução definitiva.

A história documentada do sudário começa formalmente no século XIV. Sua primeira menção registrada data de 1354, quando o tecido apareceu na posse da família De Charny, na cidade francesa de Lirey. Apenas três décadas depois, em 1389, o bispo de Troyes, Pierre d'Arcis, escreveu uma carta ao papa Clemente VII denunciando a peça como falsificação, alegando que um artista teria confessado ter pintado a imagem. O fato de a denúncia ter vindo de um representante eclesiástico de alta posição deu combustível a séculos de debate sobre a autenticidade do objeto.

Apesar da polêmica, o sudário percorreu um longo caminho até chegar à sua morada atual. Pertenceu à Casa de Saboia a partir de 1357, que o manteve sob proteção régia por mais de seis séculos. Em 1578, foi transferido para Turim, no norte da Itália, onde permanece até hoje guardado na Catedral dedicada a São João Batista. Em 1983, a família Saboia doou formalmente a relíquia ao Vaticano, que se tornou seu proprietário oficial. A peça é raramente exibida ao público; a última grande exposição, realizada em 2010, reuniu mais de dois milhões de fiéis e curiosos.

Antes do século XIV, os historiadores identificaram algumas referências anteriores que podem estar relacionadas ao sudário. Em 544, um tecido com a imagem de um rosto que se acreditava ser o de Jesus foi encontrado escondido sob uma ponte em Edessa, na atual Turquia. João Damasceno, teólogo do século VIII, descreveu esse artefato como uma longa faixa de tecido, embora com uma interpretação diferente sobre sua origem. Em 944, a peça de Edessa foi transferida para Constantinopla, e um sermão pregado na época por Gregorius Referendarius descrevia um artefato com imagem de corpo inteiro e manchas de sangue, características compatíveis com o sudário turinês.

O cruzado Roberto de Clari, em 1203, relatou ter visto em Constantinopla um sudário que era exibido toda quinta-feira mostrando a imagem do Senhor. Após o saque da cidade pelos cruzados em 1204, o rastro desse artefato se perde até reaparecer no século XIV na França. Alguns pesquisadores especulam que ele possa ter sido levado por cavaleiros cruzados, embora essa ligação não tenha sido provada de forma conclusiva.

O momento que transformou o sudário em fenômeno mundial ocorreu em 28 de maio de 1898, quando o fotógrafo amador italiano Secondo Pia obteve permissão para fotografar a peça durante uma exposição na Catedral de Turim. Ao revelar as chapas fotográficas, Pia percebeu algo extraordinário: o negativo da fotografia exibia uma imagem positiva clara e detalhada de um rosto humano com feições definidas. Isso demonstrou que a própria imagem no tecido funciona como um negativo fotográfico, fenômeno que gerou enorme espanto na época, pois a fotografia só havia sido inventada no século XIX.

Em 1988, três laboratórios independentes — situados em Oxford, Tucson e Zurique — realizaram datação por radiocarbono em amostras do tecido. Os resultados apontaram que o linho foi produzido entre os anos 1260 e 1390, com nível de confiança de 95%, situando a origem do material no período medieval. Esse resultado pareceu corroborar as suspeitas levantadas pelo bispo d'Arcis séculos antes. Contudo, defensores da autenticidade do sudário contestaram a metodologia, argumentando que as amostras poderiam ter sido coletadas de uma região reparada posteriormente, contaminando os resultados. Especialistas em datação por carbono respondem que essas teorias — incluindo a chamada teoria do reparo medieval, a da biocontaminação e a do monóxido de carbono — foram analisadas e refutadas com base em evidências presentes no próprio tecido.

A Igreja Católica nunca declarou oficialmente o sudário como relíquia autêntica, mas também não o rejeitou formalmente. A posição institucional é de cautela e abertura à investigação. Em 2013, o papa Francisco referiu-se ao objeto como um "ícone de um homem flagelado e crucificado", reconhecendo seu valor espiritual sem fazer afirmações sobre a autenticidade histórica.

Do ponto de vista científico, o maior mistério que envolve o sudário não é sua datação, mas sim a origem da imagem. Dezenas de pesquisadores e grupos ao longo das últimas décadas propuseram mecanismos distintos: radiação ultravioleta intensa, reações químicas entre substâncias corporais e o tecido, técnicas de pintura desconhecidas, vapor d'água ou simplesmente contato direto com um corpo. Nenhuma dessas hipóteses reproduziu com êxito uma imagem equivalente em laboratório, o que mantém o debate em aberto.

O estudo sistemático da peça ganhou até um nome próprio: sindonologia, derivado do grego sindón, o termo usado no Evangelho de Marcos para descrever o pano de linho comprado por José de Arimateia para servir como mortalha a Jesus. Pesquisadores de diversas áreas — química, física, biologia, história da arte, medicina forense — já se debruçaram sobre o objeto.

As marcas visíveis no tecido são consistentes com o relato bíblico da paixão de Cristo: ferimentos no pulso e nos pés compatíveis com pregos de crucificação, hematomas no rosto, perfurações no couro cabeludo que poderiam corresponder à coroa de espinhos e uma ferida no lado direito do tórax que poderia indicar a lançada descrita no Evangelho de João. Médicos legistas que analisaram o padrão dos hematomas e o posicionamento das lesões afirmam que dificilmente um artista medieval teria conhecimento anatômico e forense suficiente para forjá-las com tal precisão.

A última grande exposição pública do sudário em 2010 atraiu visitantes de todo o mundo, demonstrando que, independentemente das conclusões científicas, a peça mantém um poder de atração singular. Guardada em um relicário blindado a prova de incêndio dentro da Catedral de Turim, o sudário continua a ser o objeto mais fotografado, estudado e debatido da história do cristianismo, reunindo em torno de si fé, ciência, mistério e história numa combinação que raramente se encontra em qualquer outro artefato humano.

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