misterios

Manuscrito Voynich

Códice do século XV em uma escrita desconhecida

5 min de leitura01/01/2024
Anúncio

No ano de 1912, o livreiro polonês-americano Wilfrid Michael Voynich adquiriu um lote de manuscritos raros do colégio jesuíta de Villa Mondragone, em Frascati, perto de Roma. Entre os volumes estava um pequeno livro encadernado que mudaria para sempre sua vida e se tornaria o documento mais misterioso da história da criptografia e da paleografia ocidental. O Manuscrito Voynich — também chamado de Código Voynich ou, mais dramaticamente, "o livro que ninguém consegue ler" — permanece até hoje sem uma tradução aceita por toda a comunidade científica, apesar de mais de um século de tentativas.

O manuscrito é um volume relativamente pequeno: 16 centímetros de largura, 22 de altura, 4 de espessura. Escrito em pergaminho de vitelo — couro de bezerro tratado — conta com 122 folhas, totalizando cerca de 240 páginas. Estudos sugerem que o original poderia ter tido 272 páginas, organizadas em 17 conjuntos de 16 folhas cada, indicando que algumas foram perdidas ou removidas ao longo dos séculos. A datação por Carbono 14, realizada pela Universidade do Arizona, indica que o pergaminho foi produzido no início do século XV, resultado confirmado pela análise das tintas pelo McCrone Research Institute de Chicago.

O texto propriamente dito é o que desconcerta os pesquisadores há gerações. Escrito da esquerda para a direita, sem pontuação, em uma escrita fluente que análises grafológicas indicam ter sido produzida por mãos experientes e seguras, o código Voynich utiliza um alfabeto de cerca de 20 a 30 caracteres recorrentes, com mais 12 símbolos que aparecem apenas uma ou duas vezes. No total, há aproximadamente 170 mil caracteres, formando cerca de 35 mil palavras. As análises estatísticas revelam que o texto segue a Lei de Zipf — uma propriedade matemática que caracteriza textos escritos em linguagens naturais, sejam elas modernas ou antigas. Isso sugere fortemente que o manuscrito não é um amontoado arbitrário de símbolos, mas um texto com estrutura linguística real.

O livro foi dividido pelos estudiosos em seções temáticas com base nas ilustrações que acompanham o texto. A seção botânica, que ocupa as primeiras 66 folhas, contém 113 desenhos de plantas que não correspondem a nenhuma espécie reconhecível da flora conhecida — uma característica que tanto fascina quanto intriga os botânicos. A seção astronômica ou astrológica apresenta 25 diagramas que parecem representar estrelas e constelações, com algumas figuras identificáveis do zodíaco. A seção biológica é dominada por figuras femininas imersas em estruturas tubulares preenchidas com um líquido escuro, de interpretação controversa. A seção farmacológica, com suas imagens de frascos e ampolas e pequenas plantas, sugere um compêndio de preparações medicinais ou herbais.

O manuscrito passou por mãos ilustres antes de chegar a Voynich. Entre os possíveis proprietários históricos está o imperador Rodolfo II do Sacro Império Romano, que teria adquirido o volume por 600 ducados de ouro no final do século XVI. Após sua morte, o manuscrito teria circulado entre alquimistas e eruditos antes de acabar nos arquivos jesuítas. Uma carta encontrada junto ao volume, escrita pelo erudito bohemio Georg Baresch no início do século XVII, revela que o texto já era considerado indecifrado naquela época, apesar de tentativas sérias de leitura.

Ao longo do século XX e do início do século XXI, as tentativas de decifração foram inúmeras. Criptógrafos profissionais que haviam quebrado códigos durante as duas guerras mundiais dedicaram tempo ao problema, sem sucesso. Computadores foram programados para buscar padrões; linguistas compararam a estrutura do texto com dezenas de idiomas; teorias sobre cifras medievais foram exploradas e descartadas uma a uma. Algumas propostas chegaram a atrair atenção temporária — a sugestão de que o texto fosse escrito em árabe encriptado, ou que fosse um idioma artificial criado por um filósofo renascentista — mas nenhuma resistiu ao escrutínio rigoroso dos especialistas.

Em 2019, o acadêmico Gerard Cheshire, da Universidade de Bristol, anunciou ter decifrado o manuscrito, afirmando que o texto está escrito em proto-romance — um ancestral das línguas neolatinas modernas como o português, o espanhol, o francês e o italiano, onipresente no Mediterrâneo medieval mas raramente registrado em documentos formais devido à predominância do latim. Segundo Cheshire, o texto teria sido compilado por freiras dominicanas como referência para Maria de Castela, rainha de Aragão. A descoberta confirmaria a época e o contexto geográfico sugeridos pela datação física do manuscrito. Entretanto, a comunidade acadêmica recebeu com ceticismo as afirmações de Cheshire, considerando que as provas apresentadas não são suficientes para validar independentemente a tradução proposta.

O Manuscrito Voynich ocupa atualmente a posição de item MS 408 na Beinecke Rare Book and Manuscript Library da Universidade de Yale, onde está disponível para consulta de pesquisadores. Uma edição fac-símile foi publicada em 2005, democratizando o acesso ao documento. Sua imagem completa está disponível online, alimentando uma comunidade global de entusiastas e pesquisadores amadores que continuam a propor novas hipóteses com regularidade.

O que torna o Manuscrito Voynich genuinamente singular na história dos documentos medievais é a combinação de características que resistem a qualquer explicação simples: a estrutura estatística de uma língua natural, as ilustrações elaboradas de assuntos específicos, a produção cuidadosa em materiais caros, a evidência de uso continuado ao longo de séculos e, acima de tudo, o silêncio absoluto de seu conteúdo diante de todos os que tentaram fazê-lo falar. Se é uma língua esquecida, uma cifra brilhante, um idioma inventado ou uma fraude de extraordinária sofisticação, o Código Voynich permanece como o grande enigma linguístico da Idade Média — e talvez de toda a história humana registrada.

Anúncio
Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium

Histórias Relacionadas