O início do ano de 2024 foi marcado por uma catástrofe natural de grande magnitude no Japão. No primeiro dia de janeiro, às 16h10 no horário local, um terremoto de força avassaladora sacudiu a Península de Noto, na prefeitura de Ishikawa, no centro-oeste do país. A Agência Meteorológica do Japão registrou a magnitude do evento em 7,6, tornando-o o maior terremoto a atingir a região de Ishikawa desde que registros sistemáticos foram iniciados em 1885 e o mais poderoso a golpear o Japão continental desde o catastrófico sismo e tsunami de Tōhoku em 2011, que havia deixado quase vinte mil mortos e desencadeado o acidente nuclear de Fukushima.
A Península de Noto é uma faixa de terra que avança para o Mar do Japão a partir da costa de Honshu, a principal ilha do arquipélago japonês. Do ponto de vista geológico, a região está inserida num contexto tectônico complexo. O Japão está posicionado sobre o encontro de quatro grandes placas tectônicas, e a costa oeste de Honshu, voltada para o Mar do Japão, é uma fronteira convergente entre as placas Amuriana e de Okhotsk. A área havia estado sob intensa atividade sísmica nos três anos anteriores ao grande terremoto, com um enxame de tremores que incluiu um evento de magnitude 6,3 em maio de 2023. O sismo de 2024 foi o maior evento desse enxame até o momento.
A ruptura da crosta terrestre estendeu-se por aproximadamente 200 quilômetros, desde o sudeste da Península de Noto até a Ilha de Sado, ao longo de uma falha voltada para sudeste. As zonas de maior deslizamento produziram deslocamentos impressionantes: a região mais afetada registrou um deslocamento de 3,67 metros abaixo da península. Partes do território japonês se moveram até 1,3 metros para o oeste, com o deslocamento máximo observado na cidade de Wajima. Em Anamizu, o terreno deslocou-se cerca de 1 metro para oeste. A Autoridade de Informação Geoespacial do Japão monitorou e divulgou esses dados, embora tenha ressalvado que parte do movimento poderia ser atribuída a deslizamentos locais do solo.
A intensidade do terremoto foi medida em 7 na escala Shindo da Agência Meteorológica do Japão, o nível mais alto possível nesse sistema de medição de intensidade sísmica. Era a primeira vez desde 2018 que um terremoto dessa intensidade era registrado no país. A cidade de Shika, no distrito de Hakui, e o bairro de Monzemachi, em Wajima, foram os locais que suportaram a intensidade máxima. Nanao, Suzu e Anamizu registraram intensidade 6+, enquanto áreas mais distantes como Nagaoka, na prefeitura de Niigata, sentiram intensidade 6–. O tremor foi percebido até em Tóquio, com intensidade de nível 3, e chegou ao extremo norte de Honshu, na prefeitura de Aomori, e ao sul, até Kyushu, demonstrando a enorme escala do fenômeno.
Um pré-tremor de magnitude 5,5 ocorreu apenas quatro minutos antes do choque principal, funcionando como um sinal ominoso que poucos conseguiram interpretar a tempo. Nove minutos depois do terremoto principal, um segundo tremor de magnitude 6,2 sacudiu novamente a região. Ao longo das horas e dias seguintes, mais de 1.200 tremores secundários foram registrados numa zona de cerca de 100 quilômetros, com pelo menos sete deles atingindo magnitude 5,0 ou superior.
O terremoto desencadeou imediatamente alertas de tsunami em grandes extensões da costa oeste do Japão, desde Hokkaido, ao norte, até as prefeituras de Nagasaki, ao sul. Era o primeiro grande alerta de tsunami emitido no país desde 2011. A emissora pública NHK alertou para ondas que poderiam chegar a 5 metros, mas as ondas reais que atingiram a costa se mostraram ainda maiores em determinados pontos. Ordens de evacuação foram emitidas para as prefeituras de Ishikawa, Niigata, Toyama e Yamagata, levando populações inteiras a deixar suas casas em busca de pontos altos. O caos nas estradas durante as evacuações se somou às dificuldades causadas pelos danos às infraestruturas viárias provocados pelo terremoto.
As cidades da Península de Noto sofreram destruição generalizada. Wajima, uma cidade conhecida pela produção de lacas tradicionais japonesas, teve bairros inteiros destruídos. O incêndio de um mercado histórico de lacas adicionou à devastação sísmica uma perda cultural irreparável. Edificações mais antigas, construídas antes dos modernos códigos sísmicos japoneses, desabaram em número alarmante. O isolamento geográfico da península complicou enormemente os esforços de resgate, com estradas bloqueadas por deslizamentos de terra e pontes danificadas impedindo o acesso por terra às áreas mais afetadas. Helicópteros militares e da Guarda Costeira tornaram-se o principal meio de transporte nos primeiros dias.
O Japão é o país com a legislação antissísmica mais rigorosa do mundo e suas estruturas modernas são projetadas para resistir a grandes terremotos. Ainda assim, o sismo de Noto revelou a vulnerabilidade das comunidades rurais e das construções mais antigas frente a eventos de tal magnitude. A resposta do governo japonês foi ágil, com a mobilização imediata de tropas de autodefesa, equipes de resgate e recursos de assistência humanitária. As dificuldades logísticas, porém, atrasaram a chegada de ajuda a algumas comunidades mais remotas da península por dias.
O sismo na Península de Noto de 2024 ficou registrado como uma das maiores tragédias naturais do Japão no século XXI. Além das vidas perdidas e das comunidades devastadas, o evento deixou reflexões importantes sobre a necessidade de atualizar estruturas antigas e de rever os planos de emergência para regiões de acesso difícil. Para o Japão, país que convive com a atividade sísmica como parte inescapável de sua geografia, o terremoto de Noto renovou a consciência coletiva sobre a força das forças naturais e a necessidade permanente de estar preparado para enfrentá-las.
