tragedias

Vagalhão

Onda transitória inesperadamente grande na superfície do oceano

7 min de leitura01/01/2024
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Por séculos, marinheiros relataram encontros aterrorizantes com ondas de proporções impossíveis no meio do oceano, ondas tão imensas que pareciam surgir do nada e engolir navios inteiros. Durante muito tempo, essas histórias foram descartadas como exageros ou mitos de homens do mar. A ciência do século XIX, com seus modelos matemáticos bem estabelecidos, afirmava com segurança que ondas de tal magnitude não poderiam existir. Chamados de vagalhões, esses fenômenos permaneceram por décadas na fronteira entre o folclore marítimo e a negação científica, até que as evidências começaram a se acumular de forma irrefutável.

Na oceanografia, um vagalhão é definido de maneira precisa como uma onda cuja altura excede o dobro da chamada altura significativa da onda, conceito que representa a média do maior terço das ondas numa determinada região marítima. Essa definição técnica é importante porque esclarece que os vagalhões não são necessariamente as maiores ondas absolutas que podem ocorrer no oceano, mas sim ondas extraordinariamente maiores do que o estado do mar ao redor justificaria. Um vagalhão pode surgir num mar relativamente calmo e ser absolutamente devastador justamente por ser tão inesperado e discrepante em relação às condições locais.

Por muito tempo, o modelo estatístico predominante na oceanografia foi a função gaussiana, também chamada de modelo linear padrão. Esse modelo pressupunha que as alturas das ondas em qualquer condição de mar se agrupavam em torno de um valor médio, com desvios para cima raros e previsíveis. Segundo esse modelo, num estado de mar com ondas significativas de 12 metros, dificilmente se encontraria uma onda superior a 15 metros, e uma onda de 30 metros seria um evento estatisticamente possível apenas uma vez a cada dez mil anos. Engenheiros navais baseavam seus projetos nesses parâmetros, dimensionando cascos e estruturas para resistir a ondas dentro de faixas consideradas razoáveis.

Os primeiros relatos científicos sérios sobre ondas gigantescas datam do século XIX. Em 1826, o capitão Jules Dumont d'Urville, oficial da Marinha Francesa e cientista renomado, relatou ter observado ondas de até 33 metros no Oceano Índico, com três colegas como testemunhas. A reação do meio científico foi de incredulidade e até de ridículo público por parte do colega François Arago. Àquela época, era amplamente aceito que nenhuma onda poderia exceder 9 metros. O problema, como notou a escritora Susan Casey em sua investigação sobre o tema, era que havia muito poucas pessoas que sobreviviam ao encontro com vagalhões de tal magnitude para contar a história.

A primeira evidência científica instrumental da existência de vagalhões veio em 1984, quando a plataforma petrolífera Gorm, no Mar do Norte, registrou uma onda isolada de 11 metros num estado de mar relativamente baixo. Era anômala, mas ainda não suficiente para convencer os céticos. O momento verdadeiramente decisivo para a ciência ocorreu em 1º de janeiro de 1995, na plataforma de Draupner, também no Mar do Norte. Naquela data, um sensor a laser apontado para o mar registrou uma onda de altura máxima de 25,6 metros, com elevação de pico de 18,5 metros, no meio de um estado de mar muito menor. A onda ficou conhecida como a "onda Draupner" e causou pequenos danos físicos na estrutura da plataforma, localizada muito acima do nível do mar, o que confirmou de forma concreta que a leitura do sensor havia sido real e não um erro de equipamento.

A partir da medição da onda Draupner, a questão deixou de ser se os vagalhões existiam e passou a ser compreender como e por que eles se formam. A explicação definitiva ainda não existe, mas pesquisas indicam que os vagalhões ocorrem onde condições físicas específicas convergem: ventos fortes, correntes oceânicas poderosas e a geometria das ondas ao redor permitem que múltiplas ondas se fundam momentaneamente numa única onda de altura excepcional. Regiões como o Cabo das Agulhas, na extremidade sul da África, onde correntes quentes e frias se encontram e ventos de tempestade são comuns, são consideradas particularmente propícias à formação desses fenômenos.

Em fevereiro de 2000, o navio britânico de pesquisa oceanográfica RRS Discovery, navegando na Bacia Rockall, a oeste da Escócia, registrou as maiores ondas já medidas por instrumentos científicos em oceano aberto, com altura significativa de 18,5 metros e ondas individuais chegando a 29,1 metros. Quatro anos depois, em 2004, cientistas da Agência Espacial Europeia utilizando três semanas de imagens de radar de satélites identificaram dez vagalhões diferentes, cada um com mais de 25 metros de altura, demonstrando que esses eventos eram muito mais comuns do que os modelos tradicionais permitiam supor.

As implicações para a segurança marítima foram significativas. Exemplos bem documentados incluem a perda do cargueiro MS München em 1978, cujo desaparecimento em condições de mar severas foi associado a um vagalhão. O Ocean Ranger, uma plataforma de perfuração offshore semissubmersível, afundou em águas canadenses em 15 de fevereiro de 1982 em circunstâncias que também levantaram a hipótese de uma onda anômala. Em 2007, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos compilou um catálogo com mais de 50 incidentes históricos provavelmente associados a ondas violentas de caráter excepcional.

O fenômeno dos vagalhões é radicalmente diferente dos tsunamis, com os quais frequentemente é confundido pelo público leigo. Os tsunamis são gerados pelo deslocamento repentino de grandes volumes de água, geralmente causado por terremotos, deslizamentos de terra submarinos ou erupções vulcânicas. Em águas profundas, um tsunami pode ser quase imperceptível, com ondas de apenas alguns centímetros de altura mas comprimento de onda de centenas de quilômetros, tornando-se perigoso somente quando se aproxima de costas rasas. Os vagalhões, ao contrário, são fenômenos puramente oceânicos, transitórios e localizados, representando uma ameaça direta à navegação em alto mar. Também diferem dos megatsunamis, causados por impactos súbitos como meteoritos ou grandes deslizamentos em corpos d'água fechados.

O interesse científico pelos vagalhões extrapolou a oceanografia. Pesquisadores descobriram que fenômenos matematicamente análogos ocorrem em outros contextos físicos: no hélio líquido, na óptica não linear, na mecânica quântica, em cavidades de micro-ondas, na condensação de Bose-Einstein e até em modelos financeiros. Essa universalidade matemática sugere que os vagalhões não são uma curiosidade restrita aos oceanos, mas uma manifestação de princípios físicos profundos que atravessam diferentes escalas e domínios da natureza. Para o marinheiro que enfrenta uma onda de 30 metros surgida do nada no oceano aberto, porém, toda essa elegância teórica é irrelevante: o que importa é que o fenômeno existe, é real e pode ser fatal.

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