tragedias

Sismo de Lisboa de 1755

Sismo catastrófico que afetou principalmente Lisboa, Portugal

7 min de leitura01/01/2024
Anúncio

Na manhã do dia 1 de novembro de 1755, enquanto as igrejas de Lisboa estavam cheias de fiéis celebrando o Dia de Todos-os-Santos, a terra começou a tremer. O que se seguiu foi uma das maiores catástrofes da história europeia: um terremoto de magnitude estimada entre 8,5 e 9,0 na escala de Richter destruiu a maior parte de uma das maiores cidades do mundo ocidental, seguido por um tsunami devastador e por incêndios que duraram dias. Lisboa, uma das capitais mais prósperas do século XVIII, foi reduzida a escombros em poucas horas.

Os relatos da época descrevem os abalos sísmicos como tendo durado, em diferentes locais da cidade, entre três e seis minutos na sequência inicial, com novas sacudidas que se prolongaram por horas e continuaram sendo sentidas, em graus variados, por dias a fio. Os sismólogos estimam a intensidade do terremoto em Lisboa e no Cabo de São Vicente entre X e XI na escala de Mercalli — o equivalente a destruição quase total das construções. O epicentro não está precisamente determinado, mas a maioria dos estudos o situa no oceano Atlântico, entre 150 e 500 quilômetros a sudoeste da costa portuguesa, possivelmente no Banco de Gorringe. O padre Manuel Portal, que viveu os acontecimentos em primeira pessoa, deixou a descrição mais detalhada e completa dos efeitos imediatos do sismo e da vida em Lisboa nos meses que se seguiram.

A data escolhida pela catástrofe foi particularmente cruel. O Dia de Todos-os-Santos, um feriado católico de grande significado, era celebrado com missas especiais nas centenas de igrejas da capital. Largas velas acendidas nas altares, fogueiras e lareiras domésticas ligadas — tudo isso forneceu o combustível para os incêndios que se seguiriam ao terremoto. As ruas e igrejas estavam cheias de pessoas que, ao tentarem escapar dos edifícios em colapso, encontraram a morte tanto no exterior quanto nos interiores. A ironia não passou despercebida aos filósofos iluministas da época: como poderia um Deus benevolente destruir em dia santo os templos que lhe eram dedicados?

Logo após os abalos, os sobreviventes que buscaram refúgio na zona portuária testemunharam um fenômeno aterrorizante: as águas do Tejo recuaram subitamente, expondo o fundo do estuário coberto de destroços de navios e cargas perdidas ao longo dos séculos. Esse recuo, que é um sinal clássico da aproximação de um tsunami, deu às pessoas poucos minutos para perceber o perigo. Em seguida, ondas gigantescas invadiram o porto e avançaram pelo centro da cidade, penetrando cerca de 250 metros para o interior. As estimativas sobre a altura das ondas variam: os registros históricos falam em ondas de mais de 10 metros, enquanto estudos modernos calculam alturas mínimas de seis metros em Lisboa — com registros de até 30 metros no Algarve.

Lisboa não foi a única região atingida. O sul de Portugal, especialmente o Algarve, sofreu devastação ainda mais completa, com fortalezas e habitações costeiras varridas pelas ondas. As vibrações sísmicas foram sentidas por toda a Europa e norte da África: as cidades marroquinas de Fez e Meknès sofreram danos consideráveis e registraram perdas humanas significativas. O tsunami percorreu o Atlântico em todas as direções, causando estragos em Marrocos — cidades como Agadir e Safim foram gravemente afetadas —, atingindo as ilhas dos Açores e da Madeira, e chegando até às Caraíbas, afetando lugares tão distantes como Antígua, Martinica e Barbados. No Mediterrâneo, ondas inundaram Gibraltar, subiram pelo rio Guadalquivir até Sevilha, e atingiram Cádiz e Ceuta. Através de seichas — oscilações de superfície de lagos e mares fechados provocadas por ondas sísmicas —, os efeitos chegaram até à Finlândia.

O impacto humano em Lisboa foi catastrófico. De uma população estimada em 300 mil habitantes, acredita-se que cerca de 90 mil morreram — um terço da cidade. Aproximadamente 85% das construções foram destruídas, incluindo palácios reais, conventos, hospitais, igrejas e a famosa biblioteca real do rei, que abrigava manuscritos e originais da Antiguidade de valor inestimável. O Novo Atlas para Uso da Mocidade Portuguesa de 1782 corrigiu a afirmação de um autor francês de que Lisboa havia sido "inteiramente arrasada", esclarecendo que mais de dois terços da cidade ficou de pé estruturalmente, mas que os incêndios subsequentes consumiram o que o terremoto havia poupado — deixando apenas as paredes de pé.

O fogo foi talvez o mais cruel dos três elementos destrutivos. Lareiras, fornos, velas e os próprios saqueadores que percorreram os escombros nas horas seguintes ao terremoto atearam dezenas de incêndios separados. Com as ruas bloqueadas por entulho e os serviços de emergência inexistentes naquele tempo, os incêndios se alimentaram livremente por dias, destruindo o que o terremoto e o tsunami haviam poupado. Ao contrário de outras catástrofes em que uma única causa domina, Lisboa sofreu um triple golpe — terra, água e fogo — que tornou impossível qualquer resposta adequada.

A resposta política ao desastre tornou-se ela própria um marco histórico. O primeiro-ministro do rei José I, Sebastião José de Carvalho e Melo — que seria posteriormente elevado à condição de Marquês de Pombal e cujo nome ficaria para sempre associado à reconstrução de Lisboa — agiu com uma energia e pragmatismo que contrastavam com a paralisia e o terror que dominavam a nobreza e o clero. Quando questionado sobre o que fazer, sua resposta teria sido: "Enterrar os mortos e cuidar dos vivos". Pombal supervisionou um esforço de reconstrução que se tornou um dos primeiros exemplos modernos de planejamento urbano sistemático após uma catástrofe. A "Baixa Pombalina", o centro reconstruído de Lisboa com suas ruas largas, quadriculadas e seus prédios antisísmicos de arquitetura uniformizada, ainda define a fisionomia do centro histórico da cidade.

O impacto intelectual do terremoto de 1755 foi tão profundo quanto o físico. Os filósofos iluministas europeus se debruçaram sobre o evento com uma intensidade que revelava o quanto ele abalara as certezas filosóficas e teológicas da época. Voltaire usou o terremoto como tema central de seu poema "Sobre o Desastre de Lisboa" e voltou ao assunto em seu conto filosófico Cândido, publicado em 1759, onde satirizava o otimismo filosófico de Leibniz — a ideia de que vivemos no "melhor dos mundos possíveis" — diante da brutalidade aleatória do sofrimento natural. O debate que se seguiu sobre a teodiceia — a questão de como reconciliar a existência de um Deus bom com a presença do mal e do sofrimento no mundo — foi um dos grandes catalisadores intelectuais do Iluminismo tardio.

Cientificamente, o terremoto de 1755 é considerado o evento fundador da sismologia moderna. Pela primeira vez na história, um governo organizou uma coleta sistemática de dados sobre os efeitos de um terremoto em uma área geográfica extensa. O marquês de Pombal enviou um questionário detalhado a todos os párocos do país, perguntando sobre o comportamento dos animais antes do sismo, sobre a duração e direção dos abalos, sobre as ondas marinhas e sobre os danos causados. As respostas coletadas constituem o primeiro banco de dados sismológico da história e ainda são citadas em estudos científicos contemporâneos. O terremoto de Lisboa demonstrou, antes que a ciência tivesse instrumentos para explicar, que a terra não era uma plataforma estável e confiável para a civilização humana — lição que continuaria sendo aprendida a duras custas nos séculos seguintes.

Anúncio
Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium

Histórias Relacionadas