No início do século XX, os transatlânticos que cruzavam o Oceano Atlântico eram os maiores, mais velozes e mais luxuosos navios já construídos, representando ao mesmo tempo o auge da engenharia industrial e o sonho de uma comunicação mais rápida entre os dois lados do Atlântico. O RMS Lusitania foi um dos ícones máximos dessa era dourada dos grandes paquetes, e seu fim trágico em maio de 1915, torpedeado por um submarino alemão durante a Primeira Guerra Mundial, marcou um dos episódios mais controversos e politicamente decisivos do conflito.
O Lusitania nasceu de uma batalha comercial acirrada pelo lucrativo mercado de transporte de passageiros no Atlântico Norte. No final do século XIX, as companhias de navegação alemãs Norddeutscher Lloyd e Hamburg-Amerika Linie haviam conquistado a supremacia no setor, lançando navios maiores, mais modernos e mais rápidos do que a concorrência britânica. Em 1897, o Kaiser Wilhelm der Grosse tomou da Cunard a Flâmula Azul — o prêmio simbólico concedido ao navio civil mais rápido do Atlântico. A Cunard via sua participação de mercado declinar diante dos chamados "transatlânticos da Classe Kaiser", e precisava reagir.
O presidente da Cunard, Lord Inverclyde, buscou apoio governamental para financiar a resposta britânica. O governo do Reino Unido tinha razões estratégicas para concordar: a perspectiva de ver a frota mercante britânica sucumbir à concorrência alemã representava não apenas uma perda comercial, mas também uma vulnerabilidade militar. Em um acordo assinado em junho de 1903, a Cunard recebeu um empréstimo de 2,6 milhões de libras esterlinas para financiar a construção de dois grandes navios, com taxa de juros favorável de 2,75%, além de subsídios operacionais anuais. Em contrapartida, os navios seriam construídos segundo especificações do Almirantado britânico e poderiam ser requisitados como cruzadores auxiliares em caso de guerra.
A construção do Lusitania começou em 16 de junho de 1904 nos estaleiros da John Brown and Company em Clydebank, Escócia. O navio foi lançado ao mar em 7 de junho de 1906, com a viúva de Lord Inverclyde — falecido oito meses antes de ver seu projeto concluído — realizando a cerimônia de batismo diante de 600 convidados e milhares de espectadores. O Lusitania e seu navio irmão, o Mauretania, construído na Inglaterra, foram equipados com motores de turbina revolucionários que lhes permitiam manter uma velocidade de cruzeiro de 25 nós, muito acima de qualquer concorrente da época. Os navios contavam ainda com elevadores, telégrafo sem fio, iluminação elétrica e cabines de primeira classe notáveis pelo mobiliário suntuoso, oferecendo 50% mais espaço para passageiros do que qualquer outro navio então em operação.
Os testes do Lusitania em julho de 1907 revelaram um problema técnico: vibrações intensas na popa em altas velocidades tornavam os alojamentos de segunda classe praticamente inabitáveis. O defeito foi atribuído às hélices e exigiu modificações que demandaram remover e reconstruir as cabines de segunda classe da popa. Após as correções, o navio atingiu velocidades médias de 25,4 nós durante os testes, superando confortavelmente os 24 nós exigidos pelo contrato com o Almirantado. Em suas primeiras viagens comerciais, o Lusitania reconquistou a Flâmula Azul para a Cunard, estabelecendo recordes de travessia que consolidaram sua reputação como o navio mais rápido do Atlântico.
Ao longo dos anos seguintes, o Lusitania realizou 202 travessias transatlânticas, transportando passageiros de todas as classes sociais entre Southampton, Liverpool, Queenstown (atual Cobh, na Irlanda) e Nova York. Em agosto de 1914, quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, o navio continuava em operação regular, mas o contexto havia mudado radicalmente. A Marinha Real britânica havia bloqueado a Alemanha, e a resposta alemã foi declarar uma zona de guerra submarina em torno das Ilhas Britânicas: qualquer navio navegando nessa zona estava sujeito a ser atacado sem aviso prévio.
Em 1 de maio de 1915, o Lusitania partiu de Nova York com destino a Liverpool. A embaixada alemã nos Estados Unidos havia publicado anúncios de jornal advertindo passageiros sobre os perigos de viajar em navios que navegavam em zona de guerra. Muitos ignoraram o aviso; o Lusitania era considerado rápido demais para ser alcançado por um submarino. Mas as cirscunstâncias naquela tarde de 7 de maio conspiraram contra ele: o navio havia reduzido sua velocidade devido à neblina e estava navegando a apenas 18 quilômetros da costa sul da Irlanda quando o submarino alemão U-20, comandado pelo capitão-tenente Walther Schwieger, o avistou e lançou um único torpedo.
O torpedo atingiu o casco do Lusitania às 14h10, desencadeando uma segunda explosão interna muito mais poderosa — cuja natureza exata continua sendo debatida até hoje. O navio afundou em apenas 18 minutos, tempo insuficiente para lançar a maioria dos botes salva-vidas. De 1.959 passageiros e tripulantes a bordo, 1.198 morreram, incluindo 128 cidadãos americanos. O naufrágio chocou o mundo: crianças, mulheres grávidas, idosos — centenas de corpos foram recuperados nas semanas seguintes nas praias da Irlanda.
A justificativa alemã para o ataque — de que o Lusitania transportava centenas de toneladas de munições de guerra destinadas aos Aliados, tornando-o alvo militar legítimo — foi veementemente negada pelos governos britânico e americano nas décadas seguintes. Apenas em 1982 um alto funcionário britânico admitiu que havia "grande quantidade de munição" nos destroços, confirmando que a controvérsia tinha fundamento. Pesquisas posteriores dos destroços confirmaram a presença de cartuchos de rifle e outras munições no porão do navio.
O impacto político do naufrágio foi imenso, especialmente nos Estados Unidos, que ainda tentavam manter a neutralidade no conflito europeu. A morte de 128 cidadãos americanos desencadeou protestos furiosos e mudou significativamente a opinião pública americana em relação à Alemanha. Embora os Estados Unidos só tenham entrado na guerra em abril de 1917, quase dois anos depois do afundamento do Lusitania, o episódio foi um dos fatores que gradualmente erodiu a neutralidade americana. A guerra submarina irrestrita que a Alemanha declarou no início de 1917, semelhante à que havia afundado o Lusitania, foi o gatilho final para a declaração de guerra americana.
O Lusitania permanece no fundo do mar a cerca de 90 metros de profundidade, ao largo da costa de Kinsale, na Irlanda, e continua sendo local de mergulho — embora tecnicamente uma tumba de guerra. Ao longo das décadas, o naufrágio foi objeto de expedições, disputas legais sobre a propriedade dos destroços e investigações sobre a segunda explosão que continua sem explicação definitiva. O destino do Lusitania sintetiza as ambiguidades da guerra moderna: um navio de passageiros que era também instrumento de política estratégica, carregando civis inocentes para dentro de um conflito que apagava as distintas fronteiras entre combatentes e não-combatentes.
