O estreito de Sunda, localizado entre as ilhas indonésias de Java e Sumatra, guarda um dos vulcões mais famosos e temidos da história humana: o Krakatoa. Conhecido em indonésio como Krakatau, esse conjunto de ilhas vulcânicas é o que restou de uma formação muito maior, destruída por uma catástrofe geológica de proporções inimagináveis. Muito antes de sua erupção mais notória, o arquipélago já figurava em mapas europeus do século XVII, com o cartógrafo holandês Lucas Janszoon Waghenaer registrando em 1611 o nome "Pulo Carcata", utilizando a palavra sundanesa para ilha.
Durante séculos, a montanha existiu em estado de aparente dormência, intimidando os marinheiros que navegavam pelo estreito mas sem demonstrar sua capacidade real de destruição. A primeira menção documentada com a ortografia próxima ao nome atual foi feita por Wouter Schouten, que descreveu em outubro de 1658 ter passado pela "ilha coberta de árvores de Krakatau". Essa imagem tranquila de uma ilha arborizada contrasta de forma dramática com o que aconteceria duzentos e vinte e cinco anos depois.
Na madrugada de 26 de agosto de 1883, o vulcão no monte Perboewatan, que os moradores locais consideravam extinto, acordou com violência inaudita. O que se seguiu nas próximas vinte e duas horas foi uma sucessão de erupções e explosões que deixou o mundo em estado de choque. Pedras incandescentes foram arremessadas a aproximadamente 27 quilômetros de altitude, e a grande explosão final produziu um som que viajou através dos oceanos até ser ouvido na ilha de Rodrigues, a mais de cinco mil quilômetros de distância. Os habitantes daquela ilha remota ficaram atônitos com o estrondo, chegando a supor que se tratava de um combate naval ao longe. O rugido chegou também à Austrália, às Filipinas e à Índia, marcando sua presença em quase todo o globo.
A destruição imediata foi absoluta: dois terços da ilha original foram simplesmente varridos da superfície do oceano. A erupção é considerada a segunda mais fatal da história vulcânica registrada e a sexta maior em magnitude no mundo inteiro. Mais de 36 mil vítimas fatais foram contabilizadas, mas a maioria delas não morreu em decorrência direta das cinzas ou da lava. A grande matadora foi a água. Os tsunamis gerados pela erupção varreram as costas de Java e Sumatra com ondas que chegaram a carregar blocos de coral de até 600 toneladas terra adentro. Essas ondas foram observadas em todo o Oceano Índico, atravessaram o Pacífico, alcançaram a costa oeste dos Estados Unidos, a América do Sul e chegaram até o Canal da Mancha. Em Liverpool, na Inglaterra, em territórios africanos e em partes do Canadá, o impacto das ondas ainda foi registrado pelos instrumentos da época.
As consequências para o planeta não ficaram limitadas ao oceano. A quantidade colossal de gases e partículas lançada na atmosfera provocou uma queda de 1 grau Celsius na temperatura global, alterando os padrões climáticos por meses. O céu de diversas regiões do mundo exibiu pores do sol de cores extraordinárias, com tonalidades de vermelho e laranja nunca vistas antes. Alguns historiadores acreditam que esse fenômeno inspirou pintores da época e ficou registrado na memória coletiva da humanidade como um sinal sobrenatural. A própria luz do sol ficou difusa por conta da névoa de partículas vulcânicas suspensas na estratosfera.
Após a catástrofe, onde havia sido a ilha do Krakatoa restou apenas uma caldeira submersa de vastas dimensões, estendendo-se até 50 quilômetros abaixo da superfície do oceano. Esse reservatório magmático imenso esperaria em silêncio por quase meio século. Em 1927, algo extraordinário emergiu das águas: uma nova ilha, batizada de Anak Krakatau, que em indonésio significa "Filho do Krakatoa". Formada pelas pressões que continuavam atuando na caldeira original, essa nova formação vulcânica cresceu a um ritmo notável, chegando em alguns momentos a ganhar cerca de 5 metros de altura por ano.
No auge de seu desenvolvimento, o Anak Krakatau ultrapassou os 324 metros de altitude, tornando-se um vulcão ativo e monitorado permanentemente pelas autoridades indonésias. Quase sempre mantido em nível de alerta 2, o vulcão demonstra atividade regular com emissões de gases, pequenas explosões e fluxos de lava. Os cientistas que o estudam há décadas são unânimes em afirmar que uma erupção de grande escala é apenas uma questão de tempo, e que, caso aconteça com a intensidade da de 1883, poderia causar impacto em escala global.
Em 22 de dezembro de 2018, o Anak Krakatau protagonizou um evento assustador: o colapso de aproximadamente dois terços de sua estrutura em direção ao mar desencadeou um tsunami no estreito de Sunda que não foi precedido por nenhum terremoto, pegando completamente de surpresa os sistemas de alerta da região. O resultado foi devastador: 429 pessoas morreram, 128 desapareceram e mais de 1.400 ficaram feridas. Com o colapso, o pico do vulcão, que antes media mais de 300 metros, foi reduzido a apenas 110 metros de altura.
A atividade do vulcão continuou nos anos seguintes. Em abril de 2020, o Anak Krakatau entrou em erupção novamente, lançando uma coluna de cinzas e fumaça a até 15 quilômetros de altitude, visível a centenas de quilômetros de distância. O estrondo foi ouvido até em Jacarta, a mais de 150 quilômetros de distância. A erupção durou várias horas e expeliu material vulcânico em quantidades impressionantes, embora não tenha causado danos humanos generalizados.
O legado do Krakatoa é múltiplo e duradouro. Do ponto de vista científico, a erupção de 1883 foi o primeiro desastre natural da era moderna a ter seus efeitos globais devidamente documentados e estudados de forma sistemática, lançando as bases da vulcanologia contemporânea. O evento demonstrou pela primeira vez que um fenômeno geológico poderia alterar o clima do planeta inteiro. Do ponto de vista humano, a memória da catástrofe permanece viva nas comunidades costeiras de Java e Sumatra, transmitida de geração em geração como aviso sobre o poder indomável da natureza. O Anak Krakatau, crescendo silenciosamente no meio do estreito de Sunda, é o lembrete diário de que a história ainda não terminou.
