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Rodrigues Alves

5.º presidente do Brasil (1902–1906)

8 min de leitura01/01/2024
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No coração do Vale do Paraíba paulista, numa fazenda chamada Pinheiro Velho, no bairro do Machadinho em Guaratinguetá, nasceu em 7 de julho de 1848 aquele que se tornaria um dos políticos mais influentes da Primeira República brasileira. Francisco de Paula Rodrigues Alves era o terceiro filho de Isabel Perpétua de Marins e de Domingos Rodrigues Alves, um imigrante português que chegara ao Brasil em 1832 a bordo do brigue Rio Lima, trazendo apenas doze vinténs em prata no bolso e uma tenacidade que lhe permitiu construir família, comércio e lavoura no interior paulista.

A infância de Francisco transcorreu no sobrado familiar no Largo do Rosário, atual Praça Conselheiro Rodrigues Alves, numa Guaratinguetá que ainda respirava o ar tranquilo das cidades provinciais do Império. Aos onze anos, porém, o caminho para o poder começou a ser traçado: o menino foi enviado ao Rio de Janeiro para estudar no Colégio Dom Pedro II, onde concluiu os estudos secundários em 1865. No ano seguinte, ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo — berço de grande parte das lideranças políticas brasileiras do século XIX. A formação jurídica não seria apenas credencial: moldaria o modo como Rodrigues Alves entendia o Estado, as leis e o exercício do poder.

De volta a Guaratinguetá após a formatura, exerceu as funções de promotor interino e depois efetivo, tornando-se juiz municipal e substituto do juiz de direito da comarca. A vida forense coexistia com a vida política, e Rodrigues Alves iniciou sua trajetória como deputado provincial pela Província de São Paulo ainda nesse período. Em 11 de setembro de 1875, casou-se com Ana Guilhermina de Oliveira Borges, instalando-se numa casa mandada construir pelo pai da noiva — imóvel que hoje abriga o Museu Histórico e Pedagógico Conselheiro Rodrigues Alves. O casamento integraria definitivamente o jovem advogado às redes de poder econômico da região: os Oliveira Borges eram figuras centrais na vida cafeeira do Vale do Paraíba.

Nos anos seguintes, além da advocacia e da política, Rodrigues Alves participou de duas empresas familiares que administravam propriedades cafeeiras. A Viúva Borges e Genros cuidava da fazenda Três Barras; a Rodrigues Alves e Irmão gerenciava propriedades em Jaú e São Manuel. Essas terras seriam posteriormente incorporadas à Companhia Agrícola Rodrigues Alves — conexão permanente com a economia cafeeira que faria dele não apenas um político, mas um representante direto dos interesses agrários paulistas.

Sua carreira pública foi notável pela amplitude e pela longevidade. Governou São Paulo por três vezes: como presidente da província entre 1887 e 1888, como quinto presidente do estado de 1900 a 1902 e como nono presidente do estado de 1912 a 1916. Antes do terceiro governo estadual, havia servido como ministro da Fazenda no governo federal — e fora eleito quinto presidente do Brasil, mandato cumprido integralmente entre 1902 e 1906. Essa gestão ficou marcada por uma das maiores transformações urbanas da história brasileira: a modernização do porto e da cidade do Rio de Janeiro.

Entre 1902 e 1906, o Rio de Janeiro passou por uma reforma que redefiniu a capital federal. O engenheiro Francisco Pereira Passos, nomeado prefeito por Rodrigues Alves, liderou uma ampla renovação urbana que incluiu a abertura da Avenida Central — hoje Avenida Rio Branco —, o alargamento de vias, a demolição de cortiços no centro da cidade e obras no porto que o tornaram um dos mais modernos do hemisfério sul. Simultaneamente, a campanha de vacinação obrigatória contra a varíola conduzida pelo médico Oswaldo Cruz, que contou com o apoio firme do presidente, resultou na chamada Revolta da Vacina em 1904 — episódio que revelava as tensões entre modernização forçada e autonomia popular, mas que a longo prazo contribuiu para o controle de epidemias que assolavam a cidade há décadas. A dupla Rodrigues Alves-Pereira Passos ficaria para a história como responsável pela remodelação de uma capital que vivia sob a sombra das doenças tropicais e da infraestrutura colonial.

Após o governo estadual de 1912 a 1916, Rodrigues Alves voltou às apostas dos grandes eleitores paulistas e foi eleito pela segunda vez presidente da República, para o mandato que deveria se estender de 1918 a 1922. Era um gesto de confiança numa trajetória de décadas — e talvez também um sinal da escassez de alternativas numa república que concentrava poder em poucas famílias. O problema foi que a gripe espanhola, pandemia que varreu o mundo entre 1918 e 1919 e matou dezenas de milhões de pessoas, chegou ao Brasil com devastadora intensidade, e o presidente eleito contraiu a doença.

Fragilizado pela influenza num momento em que a medicina dispunha de recursos limitados para combatê-la, Rodrigues Alves não chegou a tomar posse. Morreu em 16 de janeiro de 1919, no Rio de Janeiro, antes de iniciar o segundo mandato. Tinha 70 anos. Seu pai, Domingos, havia morrido em 5 de maio de 1912 — exatamente quando o filho assumia o governo do estado de São Paulo pela terceira vez, numa coincidência que parecia marcar os Rodrigues Alves com um sentido especial de destino.

Sua morte encerrou a trajetória de um homem que transitou entre o poder local de Guaratinguetá e os centros de decisão do país com rara coerência de caráter. Defensor do federalismo, do liberalismo econômico e da modernização da infraestrutura brasileira, Rodrigues Alves deixou na história do Brasil a marca de um governo que apostou na transformação física como fundamento do progresso — e pagou o preço político de decisões controversas, sem jamais recuar dos projetos que considerava necessários.

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