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Revolução de 1930

Insurreição armada que encerrou a Primeira República Brasileira

6 min de leitura01/01/2024
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Na manhã de 3 de outubro de 1930, tropas militares iniciaram movimentos armados em diversas partes do Brasil. O que se chamaria de Revolução de 1930 havia começado. Três semanas depois, em 24 de outubro, uma junta militar depôs o presidente Washington Luís, impediu a posse do candidato eleito Júlio Prestes e encerrou de um golpe o período que a história chamaria de República Velha. Em 3 de novembro do mesmo ano, Getúlio Vargas assumia o poder como chefe do Governo Provisório. O Brasil nunca mais seria o mesmo.

Para entender o que aconteceu em 1930, é preciso recuar alguns anos e compreender a mecânica política da Primeira República. Desde o governo de Campos Sales, no início do século XX, a lógica que governava o Brasil era a chamada Política dos Governadores: o presidente da República e as oligarquias estaduais se apoiavam mutuamente, garantindo eleições controladas, verbas federais e manutenção do poder local. No topo desse sistema estava o revezamento informal entre São Paulo e Minas Gerais — a política do café com leite, chamada assim porque São Paulo dominava a produção de café e Minas Gerais, a pecuária leiteira.

Quando Washington Luís, eleito em 1926, decidiu apoiar o candidato paulista Júlio Prestes para sua sucessão, rompeu essa lógica de alternância. Minas Gerais, que esperava indicar o próximo presidente, reagiu com indignação. Em 20 de julho de 1929, o presidente mineiro Antônio Carlos enviou carta a Washington Luís propondo Getúlio Vargas como candidato de conciliação. A proposta foi ignorada. Washington Luís obteve o apoio de dezessete estados para Júlio Prestes; apenas Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba se recusaram.

A recusa paraibana ficou marcada no chamado "Telegrama do Nego", enviado por João Pessoa em 29 de julho de 1929, comunicando oficialmente a rejeição ao candidato governista. Em agosto de 1929, os três estados dissidentes formalizaram a Aliança Liberal, lançando Getúlio Vargas para presidente e João Pessoa para vice. Em setembro, numa convenção no Rio de Janeiro, as candidaturas foram oficializadas. Os grupos governistas responderam em outubro confirmando Júlio Prestes, com Vital Soares na vice.

Tudo isso acontecia sob o peso crescente da Grande Depressão. A quebra da Bolsa de Nova York em outubro de 1929 afundou os preços do café no mercado internacional. O Brasil, que dependia das exportações do grão como principal fonte de divisas, viu sua economia estremecer. O governo Washington Luís, comprometido politicamente com São Paulo e com os cafeicultores, perdeu ainda mais capacidade de articulação nacional num momento em que o crédito secava e a crise social se aprofundava.

As eleições de 1º de março de 1930 confirmaram a vitória de Júlio Prestes. A oposição, porém, recusou o resultado, alegando fraudes — prática que ninguém poderia negar num sistema em que as urnas eram controladas pelos coronéis locais e o voto secreto era ficção. A Aliança Liberal passou a articular um levante armado. O tenentismo, movimento de oficiais jovens que desde os anos 1920 tentava subverter a ordem oligárquica, integrou-se naturalmente ao projeto. Figuras como Juarez Távora no Nordeste e outros militares em diferentes regiões compunham a rede de apoio.

O assassinato de João Pessoa em julho de 1930, baleado em Recife num crime de motivação pessoal mas que ganhou conotação política imediata, acelerou os preparativos do golpe. A revolta eclodiu em 3 de outubro. Em menos de três semanas, a resistência do governo federal desmoronou. Em 24 de outubro, uma junta militar formada por generais depôs Washington Luís sem derramamento significativo de sangue. Júlio Prestes, que nunca chegou a tomar posse, seguiu para o exílio — tornando-se o único presidente eleito por voto direto em toda a história republicana brasileira a ser impedido de assumir o cargo.

Em 3 de novembro, Getúlio Vargas chegou ao Palácio do Catete às três da tarde, vestindo farda militar pela última e única vez em seu governo. Recebia o poder das mãos da junta. Naquela mesma tarde, soldados gaúchos que integravam as tropas revolucionárias cumpriram uma promessa simbólica: amarraram seus cavalos no obelisco da Avenida Central do Rio de Janeiro, gesto que virou canção de carnaval e símbolo do triunfo sulista sobre a velha ordem. O novo chefe do Governo Provisório anunciou 17 metas a serem cumpridas. A era de governo por decretos havia começado.

A Revolução de 1930 dissolveu os mecanismos federativos da República Velha. O Congresso foi fechado. As oligarquias estaduais foram destituídas e substituídas por interventores federais nomeados pelo governo central. A Constituição de 1891, que havia estruturado o regime oligárquico por quatro décadas, foi revogada. O Brasil entrava numa fase de intensa reorganização institucional, expansão da intervenção estatal na economia e incorporação política de setores urbanos que as elites agrárias sempre mantiveram à margem.

A natureza exata do movimento de 1930 é debatida pela historiografia até hoje. Alguns a interpretam como uma revolução modernizadora que rompeu com o arcaísmo oligárquico e abriu caminho para a industrialização e os direitos trabalhistas. Outros a veem como uma reconfiguração interna das elites — em que as oligarquias gaúcha e mineira simplesmente substituíram as paulistas no comando do Estado, sem alterar a estrutura de poder subjacente. Ambas as leituras capturam aspectos reais. O que ninguém nega é que outubro de 1930 fechou um ciclo e abriu outro, e que as décadas seguintes da história brasileira só se explicam a partir daquele outono turbulento.

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