Revolução de 1930 foi um golpe de Estado cívico-militar que depôs o presidente da República Washington Luís em 24 de outubro de 1930, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e encerrou o período conhecido como República Velha. O movimento armado teve início em 3 de outubro de 1930 e resultou na formação de um Governo Provisório chefiado por Getúlio Vargas em 3 de novembro do mesmo ano, inaugurando um novo ciclo político e institucional no país. Na historiografia, também é referido como Revolução Brasileira, Revolução de Outubro ou Golpe de 1930.
O processo revolucionário foi desencadeado por uma crise política e económica que atingiu o sistema oligárquico da Primeira República. A Grande Depressão, iniciada com a quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929, afetou a economia brasileira, fortemente dependente da exportação de café, ao mesmo tempo em que o rompimento do acordo político entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais — a chamada política do café com leite — desestabilizou os mecanismos de sucessão presidencial. A indicação do paulista Júlio Prestes como candidato governista levou à formação da Aliança Liberal, que reuniu as elites dissidentes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba em torno da candidatura de Getúlio Vargas.
Embora as eleições de 1.º de março de 1930 tenham confirmado a vitória de Júlio Prestes, a oposição recusou o resultado, denunciando fraudes e articulando um movimento armado que contou com o apoio de setores civis e militares, especialmente do tenentismo. A deposição de Washington Luís por uma junta militar em 24 de outubro impediu a posse do presidente eleito, que partiu para o exílio, tornando-se o único candidato eleito por voto direto na história republicana brasileira a não assumir o cargo.
A Revolução de 1930 é geralmente interpretada como um marco de transição entre o Estado oligárquico e um modelo de centralização política e de ampliação das funções do Estado nacional. O novo regime dissolveu os antigos mecanismos federativos da Primeira República, destituiu as oligarquias estaduais do poder, nomeou interventores para os estados e passou a governar por decretos, promovendo a reorganização institucional, a incorporação política de setores urbanos e a expansão da intervenção estatal na economia e nas relações de trabalho. Esse processo abriu caminho para as transformações associadas à chamada Era Vargas e, posteriormente, à instauração do Estado Novo. A natureza e o significado histórico do movimento são objeto de debate na historiografia, sendo interpretados tanto como uma revolução modernizadora quanto como uma forma de reconfiguração do poder das elites no contexto da crise do sistema oligárquico brasileiro.
A sucessão do Presidente Washington Luís
Na Primeira República (1889–1930), as eleições para presidente da República realizavam-se em 1.º de março, enquanto a posse ocorria em 15 de novembro do mesmo ano. A inexistência de partidos nacionais estruturados fazia com que o processo sucessório fosse conduzido pelo próprio presidente em exercício, mediante negociações com as oligarquias estaduais.
A sucessão de Washington Luís, eleito em 1926, deveria seguir a prática política conhecida como política do café com leite, baseada na alternância de candidatos apoiados por São Paulo e Minas Gerais. Nesse contexto, eram considerados possíveis candidatos o presidente mineiro Antônio Carlos, o vice-presidente Fernando de Melo Viana ou outro líder político de Minas Gerais.
Entretanto, ao longo de 1929, Washington Luís passou a apoiar a candidatura do presidente paulista Júlio Prestes, também ligado ao Partido Republicano Paulista. A preferência pelo nome de Prestes rompeu o padrão de alternância entre os dois estados e gerou forte reação nas elites políticas mineiras.
Em 20 de julho de 1929, Antônio Carlos enviou carta a Washington Luís propondo o nome de Getúlio Vargas como candidato de conciliação, à semelhança do que ocorrera em 1918 com Epitácio Pessoa. A proposta não foi aceita, e o presidente iniciou consultas formais aos governos estaduais, obtendo o apoio de dezessete deles à candidatura de Júlio Prestes. Apenas Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba recusaram-se a apoiá-la.
A posição paraibana ficou simbolizada no chamado “Telegrama do Nego”, enviado por João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque em 29 de julho de 1929, comunicando oficialmente a recusa em apoiar o candidato governista.
A indicação de Júlio Prestes aprofundou as divisões internas em Minas Gerais. Enquanto o grupo ligado a Antônio Carlos passou a apoiar a candidatura de Getúlio Vargas, setores da chamada Concentração Conservadora mantiveram o apoio ao governo federal.
A ruptura da alternância entre São Paulo e Minas Gerais representou o colapso do sistema político construído desde o governo de Campos Sales com a chamada Política dos Governadores. A crise foi agravada pela queda dos preços do café após a Crise de 1929, que reduziu a capacidade de conciliação do governo federal e intensificou os conflitos entre as oligarquias estaduais.
Nesse contexto, os estados dissidentes — Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba — iniciaram a articulação da Aliança Liberal, lançando a candidatura de Getúlio Vargas à presidência.
A Aliança Liberal constituiu a principal frente de oposição à candidatura governista de Júlio Prestes e foi formada em agosto de 1929 por Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, com o apoio de dissidências oligárquicas e de partidos de oposição de diversos estados, entre os quais o Partido Democrático de São Paulo.
O Partido Democrático surgira em 1926 como uma dissidência do Partido Republicano Paulista, expressando o descontentamento de setores da elite paulista com a hegemonia política do grupo ligado a Washington Luís. Em Minas Gerais, por sua vez, a divisão política entre o grupo de Antônio Carlos e a chamada Concentração Conservadora refletia a crise do sistema oligárquico.
A formalização da Aliança Liberal ocorreu na convenção realizada no Rio de Janeiro em 20 de setembro de 1929, que lançou as candidaturas de Getúlio Vargas à presidência e de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque à vice-presidência. Em resposta, os grupos governistas reuniram-se em outubro do mesmo ano e confirmaram a candidatura de Júlio Prestes, tendo Vital Soares como candidato a vice-presidente.