brasil

Brasília

Capital do Brasil

7 min de leitura01/01/2024
Anúncio

No coração do Brasil, onde o cerrado se estende em horizontes sem fim e o céu parece mais amplo do que em qualquer outro lugar, existe uma cidade que nasceu do papel e da teimosia. Brasília, inaugurada em 21 de abril de 1960 pelo presidente Juscelino Kubitschek, é a maior cidade do mundo construída no século XX e uma das mais singulares experiências urbanas da história humana. Mais do que uma capital administrativa, ela é um monumento vivo à crença de que o planejamento racional pode ordenar a existência coletiva e que uma nação pode se reinventar simplesmente decidindo construir seu centro em outro lugar.

A ideia de interiorizar a capital brasileira não surgiu com Juscelino. O padre italiano João Bosco, em um sonho relatado em 1883, descreveu uma terra de riquezas e prosperidade situada entre os paralelos 15 e 20 do hemisfério sul, próxima a um grande lago, visão que muitos brasileiros interpretaram como profecia sobre a futura capital. Mais concretamente, a Constituição republicana de 1891 já determinava que uma área de 14.400 quilômetros quadrados no Planalto Central seria reservada para a futura sede do governo federal. Em 1891, a Comissão Exploradora do Planalto Central, liderada pelo astrônomo Luís Cruls, realizou levantamentos topográficos, climáticos e geológicos da região, delimitando o que ficou conhecido como Quadrilátero Cruls. Em 1922, durante as comemorações do centenário da Independência, foi assentada a Pedra Fundamental da futura capital no Planalto Central.

O antecedente mais longínquo da ideia remonta ao século XVIII, quando o marquês de Pombal, então primeiro-ministro de Portugal, chegou a propor transferir a capital do império português para o interior do Brasil. Antes dele, o jornalista Hipólito José da Costa, em 1813, já escrevia sobre a necessidade de interiorizar a capital do país. Coube a José Bonifácio, o Patriarca da Independência, ser o primeiro a usar o nome "Brasília" para designar a futura capital, em 1823, quando o Brasil ainda eram as feridas abertas de uma independência recém-conquistada.

O sonho só se tornaria realidade sob a presidência de Juscelino Kubitschek. Em 1956, ele lançou o projeto como parte central de seu Programa de Metas, cujo slogan "50 anos em 5" prometia compactar décadas de desenvolvimento em um único mandato presidencial. O urbanista Lúcio Costa venceu o concurso público para o plano urbanístico da nova capital com um projeto que ele mesmo descreveu como nascido de uma intenção primária de ocupar um ponto no vasto planalto. O plano de Costa, que aproveitou o relevo local e incorporou o lago Paranoá, concebido em 1893 pela Missão Cruls, dividiu a cidade em setores funcionais: o Setor Hoteleiro, o Bancário, o de Embaixadas, as superquadras residenciais. Vista de cima, a cidade forma a silhueta de um avião, embora a intenção original de Costa fosse evocar o sinal da cruz, com um eixo arqueado para se adaptar ao terreno.

A arquitetura dos edifícios públicos foi confiada a Oscar Niemeyer, que criou obras de uma plasticidade sem precedentes na arquitetura mundial. O Congresso Nacional, com suas duas cúpulas — uma convexa e outra côncava — em contraste sobre um terraço horizontal; o Palácio da Alvorada, residência presidencial flutuando sobre pilotis parabólicos; a Catedral Metropolitana, com suas curvas de concreto erguendo-se em direção ao céu como mãos que se abrem; o Palácio do Planalto, com sua colunata de pilares inclinados. O engenheiro estrutural Joaquim Cardozo foi o responsável por tornar viáveis as audácias formais de Niemeyer, calculando estruturas que desafiavam as convenções da engenharia da época.

Para construir uma cidade inteira em menos de quatro anos no meio do cerrado, centenas de milhares de trabalhadores precisaram ser mobilizados, a maioria deles migrantes do Nordeste que se tornaram conhecidos como candangos. O termo, de origem quimbundo, significava originalmente algo próximo de "indigno" ou "ordinário", mas foi resignificado para designar os construtores anônimos que levantaram a nova capital com as próprias mãos, em condições de trabalho duríssimas, vivendo em barracões improvisados no que viria a ser a Cidade Livre, atual Núcleo Bandeirante. Sem os candangos, Brasília não existiria.

Inaugurada em 21 de abril de 1960 diante de uma multidão que testemunhou a transformação de um sonho em pedra e vidro, Brasília tornou-se formalmente a terceira capital do Brasil, sucedendo Salvador, capital do período colonial, e o Rio de Janeiro, capital desde 1763. A cerimônia marcou também a conclusão de uma das obras públicas mais audaciosas da história latino-americana: uma cidade planejada do zero, construída em tempo recorde, instalada em pleno sertão do Planalto Central.

Hoje, com uma população de 2.817.381 habitantes conforme o Censo do IBGE de 2022, Brasília é a terceira cidade mais populosa do Brasil. Seu produto interno bruto per capita é o mais alto entre todas as capitais brasileiras e representa 3,34% do PIB nacional. A cidade abriga as sedes dos três poderes da República — Executivo, Legislativo e Judiciário — além de 127 embaixadas estrangeiras, conferindo-lhe um papel diplomático sem equivalente no país.

Em 7 de dezembro de 1987, a UNESCO reconheceu Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade, tornando-a uma das mais jovens cidades do mundo a receber tal distinção. A área tombada, de 112,5 quilômetros quadrados, é a maior do mundo nessa categoria. Esse reconhecimento consagrou o que os arquitetos e urbanistas já sabiam: o Plano Piloto de Brasília é um dos conjuntos urbanísticos e arquitetônicos mais importantes do século XX, um experimento em escala real sobre como uma sociedade pode organizar seu espaço com base na razão e na forma.

Anúncio
Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium

Histórias Relacionadas