Nas entranhas da Serra do Espinhaço, em Diamantina, uma das cidades históricas mais belas de Minas Gerais, nasceu em 12 de setembro de 1902 Juscelino Kubitschek de Oliveira, o homem que mais profundamente transformaria a face do Brasil no século XX. Filho de João César de Oliveira, caixeiro-viajante que morreria de tuberculose em 1905, deixando a família na penúria, Juscelino cresceu sob os cuidados da mãe, Júlia Kubitschek, professora primária de ascendência checa cujo sobrenome carregava a germanização do original tcheco Kubíček. A viuvez precoce não impediu Júlia de criar os filhos com dignidade, e o jovem Nonô, como era chamado, aprendeu desde cedo que o esforço e o estudo eram as únicas alavancas disponíveis para quem nascia sem fortuna.
A trajetória intelectual de Juscelino começou no Seminário de Diamantina, onde concluiu o curso de humanidades, e avançou para Belo Horizonte em 1920. Em 1927, obteve o diploma de medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais, e três anos depois foi a Paris aperfeiçoar-se em urologia. O contato com a Europa moderna, suas avenidas planejadas, suas obras públicas arrojadas e seu ritmo de transformação urbana deixaria marcas indeléveis no jovem médico mineiro. Em dezembro de 1931, casou-se com Sarah Lemos, com quem teria a filha Márcia, em 1943, e adotaria Maria Estela em 1947.
A entrada na política ocorreu de forma quase acidental. Em 1931, Juscelino ingressou na Polícia Militar como médico e, durante a Revolução Constitucionalista, aproximou-se do político Benedito Valadares. Quando Valadares foi nomeado interventor federal em Minas Gerais em 1933, levou Juscelino consigo como chefe de gabinete. Em 1934, o médico-político elegeu-se deputado federal, mas o golpe do Estado Novo de 1937 cassou seu mandato e o forçou a retornar à medicina. O retrocesso foi apenas temporário. Em 1940, Valadares o nomeou prefeito de Belo Horizonte, cargo que exerceu até outubro de 1945, deixando na capital mineira obras que modernizaram a cidade e consolidaram sua fama de administrador realizador.
Com a redemocratização de 1945, Juscelino elegeu-se deputado constituinte pelo Partido Social Democrático. Em 1950, venceu nas prévias do PSD a disputa com Bias Fortes pela candidatura ao governo de Minas Gerais, e nas eleições derrotou seu próprio concunhado Gabriel Passos, assumindo o governo em 31 de janeiro de 1951. À frente do estado, criou a Companhia Energética de Minas Gerais, investiu em estradas e priorizou a industrialização, desenhando um modelo de desenvolvimento que repetiria em escala nacional poucos anos depois.
Em outubro de 1954, Juscelino lançou sua candidatura à Presidência da República, consolidada em fevereiro de 1955. O slogan que escolheu para a campanha revelava toda a audácia de seu projeto: "50 anos em 5". Era a promessa de compactar meio século de progresso em um único mandato. Em aliança com seis partidos, tendo João Goulart como companheiro de chapa, Juscelino obteve 35,6% dos votos nas eleições de 3 de outubro de 1955, contra 30,2% do adversário Juarez Távora, candidato da União Democrática Nacional. A oposição contestou o resultado, alegando ausência de maioria absoluta, mas o general Henrique Lott deflagrou um contragolpe preventivo que garantiu a posse dos eleitos em 31 de janeiro de 1956.
A presidência de Juscelino foi marcada por uma ambição que beirava o irracional, e talvez por isso mesmo tenha produzido resultados extraordinários. Nenhuma realização foi mais simbólica e duradoura do que a construção de Brasília, a nova capital federal erguida no coração do Planalto Central, inaugurada em 21 de abril de 1960. A transferência da capital para o interior do Brasil não era ideia nova — a Constituição de 1891 já a previa —, mas coube a Juscelino transformar sonho em concreto armado. O projeto urbanístico de Lúcio Costa e a arquitetura revolucionária de Oscar Niemeyer produziram uma cidade que o mundo jamais havia visto, classificada décadas depois como Patrimônio Mundial pela UNESCO.
O projeto desenvolvimentista de JK não se limitou a Brasília. Seu Programa de Metas estabeleceu trinta e uma metas setoriais organizadas em torno de cinco grupos: energia, transporte, alimentação, indústrias de base e educação. A indústria automobilística instalou-se definitivamente no Brasil durante seu governo, com a chegada de montadoras estrangeiras e a criação de um parque industrial no ABC paulista que transformaria a estrutura econômica do país. A produção de aço, energia elétrica e cimento cresceu em ritmo acelerado. O Brasil de 1961 era materialmente diferente do Brasil de 1956.
Havia, contudo, o reverso da medalha. O ritmo frenético de obras e gastos públicos produziu um significativo aumento da dívida externa e interna, e o mandato encerrou-se com inflação em alta, sinais de concentração de renda e pressão sobre os salários dos trabalhadores mais pobres. A contradição entre o otimismo das obras e os desequilíbrios financeiros que elas geravam seria um tema recorrente nas análises posteriores sobre o governo JK. Em 31 de janeiro de 1961, Juscelino foi sucedido por Jânio Quadros, candidato apoiado pela UDN, partido que sempre o combateu.
O pós-presidência foi amargo. Em 1961, Juscelino elegeu-se senador por Goiás e trabalhou pela viabilização de sua candidatura presidencial para 1965. O golpe militar de 1964 interrompeu esses planos de forma brutal. Os militares o acusaram de corrupção e de ligações com comunistas, cassaram seu mandato e suspenderam seus direitos políticos. Obrigado a um exílio voluntário, Juscelino percorreu cidades dos Estados Unidos e da Europa por anos, distante da pátria que construiu.
Em março de 1967, retornou definitivamente ao Brasil e uniu forças com Carlos Lacerda e João Goulart na articulação da Frente Ampla, movimento que se opunha à ditadura militar. A resposta do regime foi a extinção da Frente em 1968 e a prisão temporária do ex-presidente. Os anos seguintes foram de silêncio político compulsório. Em outubro de 1975, candidatou-se, sem êxito, a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, embora ocupasse a cadeira número 34 da Academia Mineira de Letras.
A morte de Juscelino Kubitschek ocorreu em 22 de agosto de 1976, numa rodovia próxima a Resende, no Rio de Janeiro, vítima de um acidente automobilístico. Por décadas, o laudo oficial atribuiu a tragédia a causas naturais do trânsito, versão sempre contestada pela família, que chegou a solicitar a exumação do corpo. Novas perícias realizadas em 2026 confirmaram o que os familiares suspeitavam: Juscelino foi assassinado pela ditadura militar brasileira. O homem que construiu Brasília com otimismo contagiante e prometeu transformar o Brasil em décadas encontrou um fim que seu país levou cinquenta anos para admitir.
