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Getúlio Vargas

14.º e 17.º presidente do Brasil (1930–1945; 1951–1954)

7 min de leitura01/01/2024
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Getúlio Dornelles Vargas nasceu em 19 de abril de 1882 no município de São Borja, no extremo oeste do Rio Grande do Sul, na fronteira com a Argentina. Era filho de Manuel do Nascimento Vargas e de Cândida Francisca Dornelles Vargas, família de estancieiros da zona rural fronteiriça. Os antepassados de Getúlio eram em sua maioria colonos portugueses dos Açores que haviam emigrado para o Rio Grande do Sul em meados do século XVIII. Descendia também dos primeiros colonizadores de São Paulo e, de forma mais remota, de indígenas do século XVI, incluindo o cacique Piquerobi, líder tupiniquim. Quando pesquisadores tentaram construir sua genealogia, Vargas respondeu com ironia: "Nesta matéria de genealogia é melhor não aprofundar muito, porque às vezes pode-se ter a surpresa de acabar no mato ou na cozinha."

A juventude de Vargas foi marcada por uma curiosa manipulação documental: para se adequar à idade mínima exigida pelo Exército, alterou documentos e fez constar seu nascimento em 1883. O estratagema funcionou por décadas e só foi desfeito nas comemorações do centenário, quando registros de batismo da paróquia de São Francisco de Borja revelaram a data correta. Era um gesto revelador do pragmatismo calculado que acompanharia Vargas por toda a vida política.

Sua trajetória militar começou cedo. Em 1900, matriculou-se na Escola Preparatória de Rio Pardo. Em 1902, solidarizou-se com colegas expulsos por incidente disciplinar e deixou a escola, transferindo-se para Porto Alegre, onde concluiu o serviço militar e conheceu dois cadetes que anos depois seriam figuras centrais de sua era: Eurico Gaspar Dutra e Pedro Aurélio de Góis Monteiro. Em 1903, chegou a ser mobilizado para uma possível guerra com a Bolívia pelo território do Acre, mas a disputa foi resolvida pela diplomacia do barão do Rio Branco sem que Vargas chegasse ao combate.

Em dezembro de 1903, deixou o Exército e ingressou como ouvinte na Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre. Matriculou-se regularmente em 1904 e revelou-se discípulo do castilhismo — doutrina política gaúcha que combinava positivismo, autoritarismo esclarecido e intervencionismo estatal. A formação jurídica e a imersão na política do Rio Grande do Sul moldaram suas concepções sobre o papel do Estado e a relação entre governo e sociedade.

A carreira política de Vargas ascendeu rapidamente nas estruturas do estado gaúcho. Tornou-se deputado estadual, liderança parlamentar, secretário de Finanças e, em 1928, governador do Rio Grande do Sul. Era um político hábil, de discurso moderado e capacidade negociadora acima da média. Quando a ruptura entre São Paulo e Minas Gerais abriu uma crise na sucessão presidencial de 1930, Vargas foi o nome de consenso dos estados dissidentes. Candidatou-se pela Aliança Liberal e, embora tenha sido derrotado nas urnas em março de 1930, chegou ao poder pela força das armas em outubro do mesmo ano.

Como chefe do Governo Provisório a partir de novembro de 1930, Vargas governou por quase quinze anos sem interrupção, atravessando três regimes distintos. Primeiro o Governo Provisório, de 1930 a 1934, em que concentrou poderes e reorganizou o Estado. Depois o Governo Constitucional, de 1934 a 1937, quando foi eleito pela Assembleia Constituinte. E por fim o Estado Novo, de 1937 a 1945, ditadura instaurada por golpe que ele mesmo arquitetou. Em todo esse período, enfrentou a Revolução Constitucionalista de 1932, a Intentona Comunista de 1935 e as pressões internacionais da Segunda Guerra Mundial, navegando entre essas forças com pragmatismo e ambiguidade.

As realizações sociais do seu governo marcaram gerações. A CLT, a Consolidação das Leis do Trabalho de 1943, reuniu num código único os direitos trabalhistas que os trabalhadores urbanos nunca haviam tido: jornada limitada, férias, salário mínimo, previdência. Foi por isso que seus simpatizantes o chamavam de "pai dos pobres". Criou também empresas que estruturaram a industrialização brasileira: a CSN, a Petrobras — fundada em 1953, no segundo governo — e apoiou a criação da Vale do Rio Doce. Seu projeto nacional era de um Brasil industrializado, com Estado forte regulando a economia e integrando os trabalhadores como base de sustentação política.

Em 1945, deposto pelos militares num contexto de abertura democrática pós-guerra, Vargas deixou o poder. Mas não saiu de cena. Candidatou-se ao Senado pelo Rio Grande do Sul e foi eleito. Em 1950, lançou nova candidatura presidencial com um slogan de volta ao povo — e venceu por voto direto, tornando-se o único presidente da história brasileira a chegar ao poder tanto pela via indireta quanto pela direta. Retornou à presidência em 31 de janeiro de 1951, num governo marcado por turbulências: conflitos com a imprensa, especialmente com Carlos Lacerda, crise cambial, escândalo político envolvendo seu círculo próximo, e pressão crescente dos militares para que renunciasse.

Na madrugada de 24 de agosto de 1954, em seu quarto no Palácio do Catete no Rio de Janeiro, Getúlio Vargas disparou um tiro de revólver calibre 32 no próprio coração. A carta que deixou para o povo brasileiro — a carta-testamento — era um documento de acusação política ao que chamava de forças que queriam destruir o Brasil. "Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história", escrevia. O impacto da morte foi devastador. Multidões tomaram as ruas em várias cidades. A comoção popular impediu, por algum tempo, avanços mais rápidos das forças oposicionistas.

O legado de Vargas é imenso e ainda disputado. Seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria em 2010. As instituições que criou — a CLT, a Petrobras, o sistema previdenciário, o modelo de industrialização nacional — continuam a existir e a influenciar o debate brasileiro. Há quem veja em Vargas o fundador do Brasil moderno, o homem que arrancou o país do atraso agrário e o projetou para o século XX. Há quem enfatize o autoritarismo, a censura, a repressão às oposições e o populismo manipulador. Provavelmente, Vargas foi tudo isso ao mesmo tempo — e é por isso que sua sombra ainda paira sobre a política brasileira, décadas após a morte dramática naquele quarto do Catete.

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