Paul Karl Feyerabend (Viena, 13 de janeiro de 1924 — Genolier, 11 de fevereiro de 1994) foi um filósofo da ciência austríaco que viveu em diversos países como Reino Unido, Estados Unidos, Nova Zelândia, Itália e Suíça. Seus maiores trabalhos são Against Method (publicado em 1975), Science in a Free Society (publicado em 1978) e Farewell to Reason (uma coleção de artigos publicados em 1987). Feyerabend tornou-se famoso pela sua visão científica anarquista da ciência e por sua suposta rejeição da existência de regras metodológicas universais. É uma figura influente na filosofia da ciência, e também na sociologia do conhecimento científico.
Quando graduou-se no nível médio em abril de 1942, passou a servir às unidades de serviço alemãs. Após um treinamento inicial em Pirmasens, Alemanha, foi designado a uma unidade em Quelerne en Bas, França. Feyerabend descreve o trabalho que tinha de fazer durante este período como monótono: "nós nos movimentamos por áreas rurais, escavamos valas e as tapamos novamente". Após um curto período de licença, juntou-se às forças armadas como voluntário para a escola de oficiais. Em sua autobiografia, escreveu desejar que a guerra tivesse acabado quando se tornou um oficial. Não foi o que aconteceu. Em dezembro de 1943, ele serviu como oficial na parte norte da frente oriental. Foi condecorado com a cruz de ferro e promovido a tenente. Depois que as forças armadas alemãs iniciaram sua retirada frente ao avanço do exército vermelho, Feyerabend foi atingido por três disparos enquanto direcionava as tropas. Uma das balas havia acertado sua espinha. Como consequência deste evento precisou utilizar uma bengala para o resto de sua vida e frequentemente experimentava fortes dores. Ele passou o resto da guerra recuperando-se dos ferimentos.
Quando a guerra acabou, Feyerabend trabalhou temporariamente em Apolda onde escreveu algumas peças de teatro. Estudou na Academia de Weimar e retornou a Viena para estudar História e Sociologia. Insatisfeito, entretanto, em breve passou a estudar Física onde conheceu Felix Ehrenhaft, um físico cujas experiências influenciaram a sua visão sobre a natureza da ciência. Feyerabend mudou o foco de seus estudos para Filosofia e submeteu sua tese final em sentenças de observação. Em sua autobiografia, descreveu suas posições filosóficas durante este período como staunchly empiricist, algo como fortemente empirista. Em 1948 foi ao primeiro encontro do seminário internacional de verão da Austrian College Society em Alpbach. Esse foi o local onde Feyerabend teve seu primeiro contato com Karl Popper, que teve uma influência muito grande em seus trabalhos posteriores. Em 1951, Feyerabend conseguiu uma bolsa para estudar sob a orientação de Wittgenstein. No entanto, Wittgenstein morreu antes de Feyerabend mudar-se para a Inglaterra. Feyerabend então escolheu Popper como seu orientador e passou a estudar na London School of Economics em 1952. Em sua autobiografia, Feyerabend explica que durante este tempo foi influenciado por Popper. "Eu estava seduzido pelas suas idéias". Depois disso, Feyerabend retornou para Viena onde envolveu-se em vários projetos. Foi pago para traduzir Open Society and its Enemies, um relatório de Popper sobre as ciências humanas na Áustria, e muitos outros artigos para uma enciclopédia.
Em 1955, Feyerabend recebeu sua primeira indicação acadêmica para a Universidade de Bristol, Inglaterra, onde ocupou-se de leituras sobre Filosofia da ciência. Mais tarde trabalhou como professor em Berkeley, Auckland, Sussex, Yale, Londres e Berlim. Durante este período desenvolveu uma visão crítica da ciência, a qual mais tarde descreveria como "anarquista" ou "dadaísta" para ilustrar sua rejeição ao uso dogmático das regras. Sua posição era incompatível com a cultura racionalista contemporânea na filosofia da ciência. Na London School of Economics, Feyerabend conhece, Imre Lakatos. Eles então decidiram escrever um diálogo intitulado "For and Against method". A morte repentina de Lakatos em 1974 pôs fim ao plano da publicação em conjunto. Against method torna-se uma famosa crítica às visões filosóficas da ciência e provoca muitas reações. Há paixão e energia em seus escritos inigualados por outros filósofos da ciência. Em sua autobiografia, Feyerabend revela que isto custou caro a si mesmo.
"A depressão esteve comigo durante um ano; como um animal, distintamente, uma coisa que se podia encontrar no espaço. Eu poderia levantar, abrir meus olhos, escutar -- Ela está aqui ou não? Nem sinal. Talvez esteja dormindo. Talvez ela me deixe em paz hoje. Cuidadosamente, muito cuidadosamente, eu saio da cama. Tudo está em silêncio. Eu vou até a cozinha, começo a preparar o café. Nenhum barulho. TV -Bom dia América-, David Qual-é-seu-nome. Eu como e vejo os convidados. Lentamente a comida preenche meu estômago e me dá força. Agora uma rápida ida ao banheiro e saio para minha caminhada matinal - e lá está ela, minha fiel companheira, a depressão: "Achou que poderia sair sem mim?".
Ele mudou-se para Berkeley na Califórnia em 1958 e tornou-se um cidadão norte-americano. Ministrou aulas como professor convidado em Londres, Berlim e Yale. Ensinou na Universidade de Auckland, Nova Zelândia em 1972 e 1974, sempre retornando à Califórnia. Feyerabend passa a alternar suas funções entre a ETH, Zurique e Berkeley durante os anos 1980, mas deixa Berkeley em 1989, indo inicialmente para Itália e finalmente para Zurique. Após sua aposentadoria em 1991, Feyerabend continuou a publicar vários artigos e passou a trabalhar em sua autobiografia. Ele faleceu em 1994 em sua casa em Zurique, vítima de um tumor cerebral.
Trabalhos sobre a natureza do método científico
Em seu livro Against method e Science in a free society, Feyerabend defende a ideia de que não há regras metodológicas que devam sempre ser usadas pelos cientistas. Afirma que a fundamentação prescritiva do método científico limita as atividades dos cientistas e dessa maneira restringe o progresso científico. Desta forma, a ciência se beneficiaria mais com uma "dose" do que chamou de anarquismo teórico. Ele também sugere que o anarquismo teórico é desejável também por ser mais humanitário do que outros sistemas de organização, pois não impõe regras rígidas aos cientistas.
Será que a ciência como a conhecemos hoje, uma "busca pela verdade" no estilo da filosofia tradicional, criará um monstro? Não será possível que uma abordagem objetiva que desaprova contatos pessoais entre entidades irá prejudicar as pessoas, torná-las miseráveis, hostis, criando mecanismos moralistas desprovidos de charme e humor? "Não será possível" pergunta-se Kierkegaard "que minha atividade como um objetivo [ou crítico-racional] observador da natureza enfraqueça meu potencial como ser humano?" Eu suspeito de que a resposta para muitas dessas questões seja afirmativa e eu acredito que a reforma das ciências para torná-las mais anárquicas e mais subjetivas (em um sentido Kierkegaardiano) é urgentemente necessária. (Against method, p. 154).


