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Paul Feyerabend

Filósofo austríaco

6 min de leitura01/01/2024
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Paul Karl Feyerabend nasceu em Viena, na Áustria, em 13 de janeiro de 1924, numa época em que a Europa acumulava tensões que logo explodiram em guerra. Sua trajetória pessoal foi marcada por essa violência histórica de maneira permanente e dolorosa. Ao se graduar no ensino médio em abril de 1942, foi incorporado às unidades de serviço alemãs, passando por um treinamento inicial em Pirmasens antes de ser designado para a França. O trabalho era monótono — valas que eram abertas e fechadas sem propósito aparente —, mas a guerra real ainda estava por vir.

Depois de um período de licença, Feyerabend voltou ao front como voluntário na escola de oficiais, confiando que a guerra terminaria antes de ele precisar combater de verdade. Não foi o que aconteceu. Em dezembro de 1943, ele servia como tenente na frente oriental, no front norte, onde as batalhas entre alemães e soviéticos eram de uma brutalidade extrema. Foi condecorado com a Cruz de Ferro, mas pagou um preço alto pela experiência. Durante a retirada das forças alemãs diante do avanço do Exército Vermelho, Feyerabend foi atingido por três disparos enquanto guiava suas tropas. Um dos projéteis acertou sua espinha. Ele passou o resto da guerra se recuperando dos ferimentos, e aquela lesão o acompanharia para sempre: precisou usar uma bengala pelo resto da vida e convivia com dores severas e recorrentes.

No pós-guerra, Feyerabend buscou reconstruir sua vida intelectual. Trabalhou brevemente em Apolda, onde escreveu peças de teatro. Estudou na Academia de Weimar, depois retornou a Viena para cursar História e Sociologia. Insatisfeito, migrou para a Física, onde o contato com Felix Ehrenhaft — físico cujas experiências heterodoxas intrigavam o meio acadêmico — começou a moldar sua visão crítica sobre como a ciência funciona de verdade. Eventualmente, foi a Filosofia que o capturou.

Em 1948, Feyerabend participou de um seminário internacional de verão em Alpbach, promovido pela Austrian College Society. Foi ali que conheceu Karl Popper, cujas ideias sobre falsificabilidade e método científico exerceram sobre ele uma influência imensa. "Eu estava seduzido pelas suas ideias", escreveu mais tarde em sua autobiografia. Em 1951, conseguiu uma bolsa para estudar com Ludwig Wittgenstein, mas o filósofo morreu antes que Feyerabend pudesse se mudar para a Inglaterra. Sem outra opção, ele escolheu Popper como orientador e foi para a London School of Economics em 1952.

Foi na LSE que Feyerabend conheceu Imre Lakatos, matemático e filósofo húngaro com quem planejou escrever um diálogo filosófico intitulado For and Against Method. A morte repentina de Lakatos em 1974 encerrou o projeto conjunto, mas Feyerabend publicou sozinho a parte que tinha elaborado. Against Method, lançado em 1975, tornou-se uma das obras mais controversas e provocativas da filosofia da ciência do século XX.

A tese central do livro era simples e explosiva: não existem regras metodológicas universais que os cientistas devam sempre seguir. Feyerabend argumentava que a história da ciência mostra que os maiores avanços frequentemente ocorreram quando cientistas violaram as regras estabelecidas. Impor uma metodologia rígida, defendia ele, limitaria as atividades dos pesquisadores e restringiria o progresso científico. Sua posição era a de que a ciência se beneficiaria de um "anarquismo teórico" — não caos, mas liberdade real de explorar ideias fora dos paradigmas dominantes. Completou sua trilogia filosófica com Science in a Free Society, de 1978, e Farewell to Reason, uma coletânea de artigos publicada em 1987.

Feyerabend foi professor em Berkeley, Auckland, Sussex, Yale, Londres e Berlim, transitando entre universidades como quem percorre um mapa da inquietação intelectual. Tornou-se cidadão americano após se mudar para Berkeley em 1958. Nos anos 1980, alternava suas funções entre a ETH de Zurique e a Universidade da Califórnia. Em 1989, deixou Berkeley em definitivo, passando por Itália antes de se estabelecer em Zurique.

Mas o preço de sua ousadia intelectual foi alto também no plano pessoal. Em sua autobiografia, Feyerabend descreve a depressão que o perseguia como um animal físico, uma presença que estava lá ao acordar, que esperava pacientemente enquanto ele tomava café, que o seguia nas caminhadas matinais. O texto é perturbador justamente por sua precisão: ele não dramatiza a depressão, apenas a descreve com a mesma frieza analítica que usava para desmontar teorias científicas.

Aposentado em 1991, continuou a publicar e trabalhou em sua autobiografia até seus últimos dias. Morreu em 11 de fevereiro de 1994, em Genolier, na Suíça, vítima de um tumor cerebral. Paul Feyerabend deixou um legado incômodo e necessário: o lembrete de que toda certeza metodológica é uma convenção histórica, e que o espírito inquieto que questiona as regras pode ser o motor mais poderoso do conhecimento humano.

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