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Aláqueme II

Aláqueme II, Haquino II ou Haquim II (em árabe: الحكم الثاني ابن عبد الرحمن; romaniz.: al-

4 min de leitura01/01/2024
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Aláqueme II, cujo nome completo em árabe era al-Hakam II ibn Abd al-Rahman III, foi o segundo califa do Califado de Córdova, herdeiro de uma das mais sofisticadas civilizações que a Península Ibérica já conheceu. Filho e sucessor de Abderramão III, o grande fundador do califado, Aláqueme ascendeu ao trono em 961 e governaria até 976, um reinado de quinze anos que ficaria na história não pelas guerras, mas pela dedicação ao conhecimento e pela estabilidade que soube cultivar.

No momento em que assumiu o califado, Aláqueme herdou uma estrutura política madura, construída pelo pai ao longo de décadas de guerras, negociações e consolidação interna. Sua primeira prioridade foi garantir a paz com os reinos cristãos do norte da Ibéria — Navarra, Castela e Leão —, que haviam disputado espaço com o califado durante o período de Abderramão III. A paz negociada com esses reinos permitiu a Aláqueme dirigir a energia do Estado para o desenvolvimento interno, e ele aproveitou essa janela com uma visão de governante que ia além dos campos de batalha.

O desenvolvimento econômico foi estimulado de múltiplas formas. A agricultura recebeu investimentos em extensas obras de irrigação que ampliaram a área cultivável e aumentaram a produção de alimentos. As cidades cresceram: ruas foram alargadas, mercados construídos, e Córdova consolidou sua posição como a maior metrópole da Europa ocidental de seu tempo, com uma população que rivalizava com Constantinopla e Bagdá. Era uma civilização que produzia luxo e conhecimento ao mesmo tempo, e Aláqueme era simultaneamente seu governante e seu mais entusiasta patrono.

O aspecto pelo qual Aláqueme II é mais lembrado, porém, é sua biblioteca e seu mecenato intelectual. Versado em diversas ciências, o califa não se contentava com o que o al-Andalus produzia localmente: mandava agentes comprar livros em Damasco, Bagdá, Constantinopla, Cairo, Meca, Medina, Cufa e Baçorá. Obras que circulavam no coração do mundo islâmico, nos centros intelectuais dos califados rivais, chegavam às prateleiras de Córdova pela persistência desses compradores enviados aos quatro cantos do mundo conhecido.

Alguns relatos medievais falam em uma biblioteca pessoal de até seiscentos mil volumes — número que os historiadores modernos tratam com ceticismo, mas que mesmo deflacionado revela dimensões extraordinárias. O catálogo da biblioteca, por si só, ocupava quarenta e quatro volumes, apenas para listar o que havia nos depósitos. A fama de Aláqueme como patrono do conhecimento espalhou-se por todo o mundo islâmico, chegando ao ponto de haver livros publicados no Iraque — sob controle dos califas abássidas, rivais históricos de Córdova — dedicados ao califa andaluz. Era uma homenagem que cruzava fronteiras políticas e dinásticas, movida pelo reconhecimento do mecenato.

Durante seu reinado, esforços massivos de tradução foram organizados e financiados. Obras gregas e latinas — filosofia, medicina, matemática, astronomia, história — foram vertidas para o árabe, ampliando o repertório intelectual disponível em al-Andalus. Aláqueme formou comitês mistos, com muçulmanos árabes e cristãos moçárabes trabalhando juntos nessa tarefa coletiva, num exemplo de cooperação intelectual entre comunidades que a história frequentemente apaga. Dessa tradução emergiu conhecimento que, séculos depois, retornaria à Europa cristã e alimentaria o Renascimento.

Entre os sábios que frequentavam a corte de Aláqueme estava Abulcasis, o médico, cientista e cirurgião cujas obras sobre cirurgia seriam usadas nas universidades europeias por séculos. A corte era um centro de atração para os melhores espíritos do mundo árabe, e a presença de talentos como Abulcasis revela o ambiente intelectual que Aláqueme cultivou com investimento real.

No âmbito das construções, seu reinado deu continuidade a obras iniciadas pelo pai. A expansão da Mesquita de Córdova, um dos edifícios mais magníficos da arquitetura islâmica medieval, avançou durante seu califado. A residência real de Medina Azahara, iniciada por Abderramão III em 936, foi concluída em 976, já no ocaso do reinado de Aláqueme — um palácio-cidade que impressionava visitantes de todo o mundo pela grandiosidade dos mármores, fontes e jardins.

A vida pessoal de Aláqueme apresentou uma particularidade que seus biógrafos registraram com certa delicadeza. Em sua juventude, suas atrações foram predominantemente homossexuais, e ele mantinha um harém composto exclusivamente por rapazes. A exclusividade dessa preferência criava um problema dinástico concreto: sem herdeiros, o califado ficaria sem sucessão legítima. Uma solução foi encontrada quando tomou para si uma concubina chamada Subh, que se vestia com roupas masculinas e recebeu o nome de Jafar. Dessa união nasceu Hixame, que se tornaria seu sucessor.

Aláqueme II faleceu em 976 e foi sucedido por seu filho Hixame II Almoaide, que tinha apenas onze anos de idade. A criança ficou sob a regência do hájibe — o grão-vizir — Almançor, figura que dominaria de fato o califado nas décadas seguintes. Num gesto que revela o contraste de valores entre pai e filho adotivo, Almançor mandaria queimar todos os livros da biblioteca sobre "ciência antiga", destruindo parte daquilo que Aláqueme havia reunido com tanto esforço durante uma vida. Era o fim de um período de esplendor que a Península Ibérica não voltaria a conhecer com a mesma intensidade.

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