Poucos inventores na história encarnaram de forma tão dramática a tensão entre genialidade e tragédia quanto Nikola Tesla. Nascido em 10 de julho de 1856, no vilarejo de Smiljan, no Império Austríaco, em território que hoje pertence à Croácia, Tesla veio ao mundo numa família sérvia religiosa: seu pai, Milutin, era padre ortodoxo sérvio, e sua mãe, Đuka, embora sem educação formal, possuía uma memória extraordinária e um talento natural para criar ferramentas e dispositivos mecânicos artesanais. Tesla sempre atribuiu à mãe boa parte de sua capacidade inventiva e de sua memória prodigiosa.
A infância de Tesla foi marcada por perdas e superações. Quando tinha cinco anos, seu irmão mais velho Dane morreu num acidente de cavalo, deixando uma cicatriz profunda na família. Em 1873, ao retornar da escola após concluir o ensino médio em apenas três anos em vez de quatro, Tesla contraiu cólera e ficou prostrado por nove meses, flertando repetidamente com a morte. O pai, que antes o pressionava para seguir a carreira clerical, prometeu ao filho doente que, se sobrevivesse, o enviaria para a melhor escola de engenharia disponível.
Tesla sobreviveu e honrou a promessa paterna frequentando o Politécnico Austríaco em Graz, na Áustria, a partir de 1875. Seu desempenho no primeiro ano foi extraordinário: obteve as notas mais altas possíveis, passou em quase o dobro do número de exames exigido e recebeu cartas de elogio ao pai. Mas a trajetória não seria linear: ao longo do curso perdeu a bolsa de estudos, tornou-se viciado em jogos de azar e nunca chegou a se formar. Seguindo para Praga e depois para Budapeste e Paris, foi adquirindo experiência prática em eletricidade e telefonia, trabalhando para empresas ligadas à nascente indústria elétrica.
Em 1884, Tesla embarcou para os Estados Unidos com praticamente nada nos bolsos além de uma carta de recomendação para Thomas Edison. Trabalhou por um breve e tumultuado período na Edison Machine Works em Nova York. Segundo o próprio Tesla, Edison prometeu-lhe um prêmio generoso caso ele melhorasse as máquinas de corrente contínua da empresa, mas, depois de Tesla cumprir a tarefa, Edison teria descartado a promessa como uma brincadeira. O episódio consolidou uma rivalidade histórica: Edison apostava tudo na corrente contínua para distribuição elétrica, enquanto Tesla via no sistema de corrente alternada a solução superior para o transporte de eletricidade a longas distâncias.
Com o apoio financeiro de George Westinghouse, Tesla licenciou em 1888 suas patentes sobre o motor de indução e o sistema polifásico de corrente alternada, tecnologias que se tornaram a pedra angular do fornecimento moderno de eletricidade. A chamada Guerra das Correntes entre os sistemas de Tesla e de Edison foi decidida de forma espetacular em 1893, quando o sistema de corrente alternada de Tesla iluminou a Exposição Universal de Chicago com uma eficiência que a corrente contínua jamais poderia alcançar. Dois anos depois, a usina de Niagara Falls, construída com base nas patentes de Tesla, começou a fornecer energia elétrica à cidade de Buffalo, comprovando definitivamente a viabilidade do sistema.
Tesla passou a década de 1890 em experiências de alta tensão e alta frequência que o tornaram uma celebridade científica internacional. Em seu laboratório em Nova York, produzia arcos elétricos espetaculares, estudava a transmissão sem fio de energia e, em 1893, pronunciou palavras proféticas sobre a possibilidade de comunicação sem fio entre pontos do globo. Construiu um dos primeiros barcos de controle remoto já exibidos publicamente. Seu projeto mais ambicioso desse período foi a Torre Wardenclyffe, iniciada em Long Island por volta de 1901, concebida como um transmissor intercontinental capaz de enviar mensagens e energia elétrica sem fios para qualquer ponto da Terra.
A Torre Wardenclyffe nunca foi concluída. O financiador principal, J.P. Morgan, retirou os recursos quando ficou claro que o projeto não teria um modelo de negócios capaz de controlar o acesso à energia transmitida, que seria essencialmente pública e irrestrita. Sem recursos, Tesla viu o projeto desmoronar e, com ele, boa parte de sua fortuna e reputação comercial. Os últimos trinta anos de sua vida foram marcados por inventos de sucesso variável, crescente isolamento social e uma pobreza progressiva que o levou a viver em hotéis nova-iorquinos com contas acumuladas sem pagamento.
Tesla morreu sozinho em 7 de janeiro de 1943, no quarto 3327 do Hotel New Yorker, em Manhattan. Tinha 86 anos. Logo após sua morte, agentes do governo americano confiscaram seus arquivos e anotações, em parte pelo temor de que contivessem segredos tecnológicos que não deveriam cair em mãos estrangeiras durante a Segunda Guerra Mundial.
Por décadas, o nome de Tesla ficou à sombra dos de Edison e Marconi. A reviravolta começou em 1960, quando a Conferência Geral de Pesos e Medidas decidiu nomear a unidade internacional de densidade de fluxo magnético como tesla em sua homenagem. A partir dos anos 1990, houve um ressurgimento massivo do interesse por sua figura, alimentado em parte pela internet e culminando na escolha de seu nome para a mais famosa fabricante de automóveis elétricos do mundo. Hoje, Tesla é visto como um visionário incompreendido em seu tempo, um gênio que pensou em transmissão sem fio de dados e de energia décadas antes de esses conceitos se tornarem realidade cotidiana.