Elizabeth Cochran Seaman nasceu em 5 de maio de 1864 em Cochran's Mills, uma localidade que hoje integra a região de Pittsburgh, nos Estados Unidos. Filha de Michael Cochran, um imigrante irlandês do Condado de Derry que trabalhou em um moinho até se tornar proprietário de terras, ela cresceu em um ambiente marcado pelos valores do trabalho duro e da determinação. A família enfrentou dificuldades financeiras que impediram Elizabeth de concluir seus estudos em um internato, mas isso não diminuiu em nada a força com que ela iria marcar a história do jornalismo mundial.
O encontro de Elizabeth com a imprensa aconteceu de forma curiosa. Em 1880, já morando em Pittsburgh com a família, ela leu uma coluna intitulada "What Girls Are Good For", publicada no Pittsburgh Dispatch, repleta de visões misóginas e depreciativas sobre as mulheres. Indignada, ela enviou uma carta apaixonada ao editor, George Madden, assinando como "Solitária Garota Órfã". A qualidade da escrita impressionou tanto Madden que ele publicou um anúncio pedindo que a autora se identificasse. Quando a jovem apareceu pessoalmente na redação, saiu de lá com um emprego. O pseudônimo "Nellie Bly" surgiu de um erro de digitação do próprio editor, que escreveu "Nellie" ao invés de "Nelly", e o nome equivocado ficou para sempre.
Seu trabalho inicial no jornal focava nas condições das mulheres operárias nas fábricas de Pittsburgh, uma pauta que ela abraçou com convicção. Porém, as pressões da redação logo a empurraram para colunas sobre moda, jardinagem e vida social, temas considerados adequados para jornalistas mulheres da época. Insatisfeita com esse papel restrito, Nellie tomou uma iniciativa ousada: partiu sozinha para o México como correspondente internacional. Com apenas 21 anos, passou cerca de seis meses documentando a vida, a cultura e a política mexicanas. Em seus textos, ela criticou abertamente a ditadura de Porfirio Díaz e a perseguição a jornalistas locais. Quando as autoridades souberam de suas reportagens, ameaçaram prendê-la, obrigando-a a deixar o país. De volta aos Estados Unidos, ela denunciou Díaz publicamente como um tirano que sufocava a imprensa com censura severa. Suas experiências no México foram reunidas no livro "Six Months in Mexico", publicado em 1888.
Ao se demitir do Pittsburgh Dispatch em 1887, Nellie foi para Nova York sem dinheiro e sem emprego garantido. Por meses viveu com recursos escassos até conseguir entrar no escritório do New York World, jornal de Joseph Pulitzer, com uma proposta arrojada: ela se passaria por louca para investigar por dentro as denúncias de brutalidade e negligência no hospital psiquiátrico da Ilha Blackwell. O editor aceitou. Nellie passou uma noite inteira praticando expressões perturbadas diante de um espelho, registrou-se em uma pensão e logo convenceu os proprietários de que havia algo errado com ela. Chamada a polícia, levada ao tribunal e examinada por médicos, foi declarada "insana" e internada. Sua história de "bela moça louca" sem memória atraiu a atenção de toda a imprensa nova-iorquina, incluindo o New York Times.
O que Nellie encontrou dentro do hospital era perturbador. A comida era arroz, carne estragada, pão seco e água intragável. As pacientes eram obrigadas a ficar sentadas em bancos duros durante o dia inteiro, sem proteção contra o frio. Esgoto corria pelo refeitório e pela cozinha, ratos percorriam os corredores e os quartos. Os banhos eram tomados com água gelada despejada em baldes sobre as pacientes. As enfermeiras gritavam, humilhavam e batiam nas internadas. Ao conversar com algumas delas, Nellie ficou convicta de que muitas estavam ali contra a vontade, sem apresentar nenhum sinal real de doença mental. Após dez dias, ela recebeu alta. Sua reportagem, publicada posteriormente no livro "Dez Dias em Um Hospício", provocou um furor na opinião pública. O caso resultou em uma investigação formal, mudanças no tratamento das pacientes e um aumento de 850 mil dólares no orçamento do Departamento de Correções e Caridade.
Com sua reputação estabelecida como repórter investigativa de primeira linha, Nellie propôs em 1888 uma aventura sem precedentes: dar a volta ao mundo tentando superar o tempo de 80 dias que Júlio Verne havia imaginado para o personagem fictício Phileas Fogg. Em 14 de novembro de 1889, ela embarcou no navio a vapor Augusta Victoria com uma bagagem de mão minúscula: algumas roupas íntimas, um casaco de inverno, o vestido que usava e artigos de higiene, além de uma bolsa com duzentas libras, ouro e alguns dólares. A viagem, percorrendo cerca de 40 mil quilômetros, completou-se em apenas 72 dias, batendo amplamente o recorde ficcional que ela almejava superar.
Ao longo de sua vida, Nellie Bly acumulou ainda outras realizações notáveis. Tornou-se inventora e administradora de empresas, além de atuar como voluntária em obras de caridade. Ela faleceu em Nova York no dia 27 de janeiro de 1922, aos 57 anos, mas o legado que deixou para trás é de uma dimensão muito maior do que o tempo que viveu.
Nellie Bly é hoje reconhecida como uma das pioneiras do jornalismo investigativo moderno. Ao fingir insanidade para expor as condições desumanas de uma instituição psiquiátrica, ela inaugurou uma forma de fazer jornalismo que desafiava o poder e colocava o repórter no centro da história. Ao circunavegar o globo em tempo recorde, tornou-se um símbolo de determinação feminina em uma época em que poucas mulheres sequer podiam imaginar semelhante liberdade. Sua trajetória continua a inspirar gerações de jornalistas e de pessoas que acreditam que uma única voz corajosa pode mudar o curso das coisas.

