Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em 9 de fevereiro de 1909, numa pequena localidade chamada Obra Nova, na freguesia da Aliviada, no concelho de Marco de Canaveses, em Portugal. Foi batizada quatro dias depois na igreja de São Martinho da Aliviada e ganhou o apelido de Carmen no Brasil — presente do tio Amaro, apaixonado por óperas. Era a segunda filha de José Maria Pinto da Cunha, barbeiro, e de Maria Emília de Miranda. A família já havia planejado emigrar para o Brasil, mas a mãe preferiu aguardar o nascimento da filha. Em 1910, quando Carmen tinha menos de um ano de idade, ela e a irmã mais velha, Olinda, cruzaram o Atlântico para se juntar ao pai, que já estava estabelecido no Rio de Janeiro. No Brasil, nasceriam mais quatro irmãos: Amaro, Cecília, Aurora e Óscar.
A jovem Carmen cresceu carioca de alma, completamente integrada à vida e à cultura da cidade que a adotou. Antes de se tornar artista, trabalhou numa boutique aprendendo a fazer chapéus — habilidade que, anos mais tarde, se transformaria numa de suas marcas mais reconhecíveis no mundo inteiro. Em 1928, foi apresentada ao compositor Josué de Barros por um deputado baiano chamado Aníbal Duarte, e essa introdução abriu as portas da Rádio Sociedade Professor Roquete Pinto, onde começou a se apresentar ao vivo. Em 1929, gravou sua primeira música, o samba "Não Vá Sim'bora", dando início a uma carreira discográfica que se tornaria uma das mais prolíficas e celebradas da história da música brasileira.
A consagração nacional chegou com a gravação de "P'ra Você Gostar de Mim", composição de Joubert de Carvalho que se tornou um fenômeno de popularidade e a lançou como principal intérprete do samba nos anos 1930. Naquele período de efervescência do rádio no Brasil, Carmen Miranda tornou-se a primeira artista a assinar um contrato de trabalho com uma emissora de rádio no país — feito que evidenciava tanto sua relevância comercial quanto o poder que o rádio já exercia sobre o imaginário popular. Seu sucesso fonográfico garantiu ainda participações nos primeiros filmes sonoros brasileiros, incluindo musicais carnavalescos como "Alô, Alô, Brasil!" (1935) e "Alô, Alô, Carnaval!" (1936).
A personagem que a tornaria ícone internacional surgiu em 1939, quando apareceu pela primeira vez caracterizada de baiana no filme "Banana da Terra", dirigido por Ruy Costa. O figurino exuberante, os turbantes e as frutas, a dança sinuosa e a voz marcante chamaram a atenção do produtor da Broadway Lee Shubert, que a viu se apresentar no Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, naquele mesmo ano. Shubert lhe ofereceu um contrato de oito semanas para atuar em "The Streets of Paris", em Nova York — e Carmen Miranda atravessou o oceano carregando o Brasil no chapéu.
Nos Estados Unidos, sua carreira decolou com uma velocidade impressionante. Em 1940, fez sua estreia no cinema americano em "Down Argentine Way", ao lado de Don Ameche e Betty Grable, pela 20th Century Fox, estúdio com o qual manteria uma parceria longa e produtiva. Naquele ano, foi eleita a terceira personalidade mais popular nos Estados Unidos e foi convidada a se apresentar para o presidente Franklin D. Roosevelt na Casa Branca, junto com seu grupo, o Bando da Lua. Chegou a ser classificada pelo Departamento do Tesouro americano como a mulher mais bem paga dos Estados Unidos — resultado que misturava cachês de cinema, apresentações teatrais e contratos publicitários.
Entre as décadas de 1940 e 1950, Carmen Miranda participou de catorze filmes nos Estados Unidos, nove deles produzidos pela 20th Century Fox. Aclamada internacionalmente como artista talentosa e performer magnética, ela também carregava o peso de uma imagem que seus produtores insistiam em congelar no exotismo tropical. O chapéu com frutas, o rebolado, o sotaque carregado — tudo isso encantava o público americano, mas criava um enquadramento do qual Carmen nunca conseguiu escapar por completo. No Brasil, onde sua trajetória era acompanhada de perto, a recepção oscilava entre o orgulho e o desconforto: muitos sentiam que a imagem exportada era uma caricatura, uma versão simplificada e pitoresca do país real.
Sua importância histórica, no entanto, vai muito além de qualquer discussão sobre autenticidade ou estereótipo. Em 1941, Carmen Miranda foi a primeira artista latino-americana a ser convidada a imprimir suas mãos e pés no pátio do Grauman's Chinese Theatre, em Hollywood. Tornou-se também a primeira sul-americana a ser homenageada com uma estrela na Calçada da Fama. Suas apresentações fizeram avançar de forma significativa o conhecimento do mundo sobre a música e a cultura brasileira — e abriram portas para toda uma geração de artistas latino-americanos que viria depois. Em 279 gravações somente no Brasil e mais 34 nos Estados Unidos, sua voz ficou registrada em 313 canções que cobrem décadas de história musical.
Carmen Miranda faleceu em 5 de agosto de 1955, em Beverly Hills, com apenas 46 anos. Sua figura continuou viva na cultura brasileira décadas depois de sua morte, influenciando desde o movimento Tropicalista nos anos 1960 até o cinema e a moda contemporâneos. Em 1995, o documentário "Carmen Miranda: Bananas is my Business", dirigido por Helena Solberg, revisitou sua trajetória com profundidade e sensibilidade. Um museu em sua homenagem foi construído no Rio de Janeiro, e em 1998 uma interseção na Hollywood Boulevard foi oficialmente nomeada "Carmen Miranda Square". Até hoje, nenhum artista brasileiro alcançou uma projeção internacional sequer comparável à dela.

