biografias

Anita Garibaldi

Revolucionária italo-brasileira

4 min de leitura20/06/2026
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Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu em 30 de agosto de 1821, na cidade litorânea de Laguna, então pertencente à capitania de Santa Catarina, no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves — apenas um ano antes de o Brasil proclamar sua independência. Filha de Bento Ribeiro da Silva, tropeiro que percorria as longas estradas do sul do país conduzindo gado, e de Maria Antônia de Jesus Antunes, descendente de açorianos da Ilha de São Miguel, Ana Maria foi a terceira de dez irmãos. A família habitava uma casa simples de pau-a-pique nos arredores de Laguna, numa região chamada Morrinhos, e levava uma vida modesta marcada pelo trabalho e pela proximidade da natureza bruta do litoral catarinense.

A infância de Ana Maria foi atravessada por perdas precoces. Com a morte do pai, ocorrida entre 1833 e 1835, a família perdeu sua principal fonte de sustento, e a mãe passou a trabalhar em residências no centro de Laguna para garantir o pão de cada dia. Nesse período difícil, o tio paterno Antônio da Silva Ribeiro visitava com frequência os sobrinhos durante suas viagens de tropeiro pela região. Republicano convicto, Antônio pregava a necessidade de uma revolução que transformasse a estrutura política do país — e suas ideias caíram em terreno fértil na jovem Ana Maria, que foi absorvendo aquelas convicções ao longo dos anos da adolescência.

Com apenas 14 anos, em 30 de agosto de 1835 — justamente no dia de seu aniversário —, Ana Maria foi levada ao casamento com o sapateiro Manuel Duarte de Aguiar, numa cerimônia na Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos da Laguna. O matrimônio, descrito pela própria Ana Maria como uma "farsa" em carta enviada ao tio, foi marcado desde o início pelo desinteresse mútuo e não gerou filhos. Poucos anos depois, entre 1837 e 1838, o marido, monarquista fervoroso, alistou-se no Exército Imperial e abandonou a jovem esposa — deixando-a livre, na prática, para o destino extraordinário que a aguardava.

Em 1835, a Revolução Farroupilha havia eclodido na província do Rio Grande do Sul, e os ventos republicanos varriam o sul do Brasil. Em Laguna, a população em sua maioria simpatizava com a causa dos farrapos, e o espírito de rebeldia crescia a cada ano. Em 22 de julho de 1839, o exército farroupilha tomou a cidade após derrotar os navios da Marinha Imperial que patrulhavam a baía. A operação foi comandada pelo revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi, exilado no Brasil desde 1835 depois de ser condenado à morte pelo rei Carlos Alberto da Sardenha. Garibaldi chegara com apenas o barco Seival e saíra vitorioso, e em 29 de julho a República Catarinense foi proclamada na câmara municipal da cidade.

O encontro entre Ana Maria e Giuseppe Garibaldi tornou-se uma das histórias de amor mais celebradas do século XIX. Ele, com 32 anos, avistou a jovem de 18 num grupo de moças que passeava perto da beira-mar, observando-a através de uma luneta a bordo da embarcação Itaparica. A imagem a conquistou imediatamente. Providenciou um barco, foi até a margem, mas não a encontrou naquele primeiro momento. O reencontro aconteceu logo depois, em casa de um habitante local que os convidou para jantar — e ali, segundo as memórias do próprio Garibaldi, ele olhou nos olhos da jovem e disse: "Tu deves ser minha." Ela não recusou.

A partir dali, Ana Maria — que passaria à história como Anita Garibaldi — tornou-se companheira inseparável do revolucionário italiano. Lutou ao lado dele nas batalhas da Revolução Farroupilha, participando de combates a cavalo, manejando armas de fogo e enfrentando perigos que seriam considerados extremos mesmo para soldados experientes. Numa das batalhas, chegou a ser capturada pelo exército imperial, mas conseguiu fugir. Sua coragem e determinação em campo de batalha, num tempo em que se esperava das mulheres apenas subserviência e reclusão doméstica, tornaram-na uma figura singular e admirada pelos próprios combatentes.

O casal se casou formalmente em 1842, após a morte confirmada do primeiro marido de Anita. Tiveram quatro filhos juntos. Quando a Revolução Farroupilha foi finalmente derrotada, em 1845, Anita e Giuseppe deixaram o Brasil e embarcaram para a Europa, levando os filhos consigo. Na Itália, a saga continuou: o casal mergulhou nas guerras de unificação que sacudiam a península, e Anita novamente pegou em armas e cavalou ao lado do marido pelas estradas da Itália revolucionária.

O fim chegou de forma cruel em 1849. Anita, que estava grávida do quinto filho, adoeceu gravemente durante a retirada das tropas garibaldinas após a queda da República Romana. Exausta, febril e enfraquecida, ela morreu em 4 de agosto de 1849, nos arredores de Ravena, no norte da Itália, com apenas 27 anos. Giuseppe Garibaldi, que a carregou nos braços até o fim, sobreviveu para concluir a unificação italiana — mas nunca esqueceu a mulher que havia cruzado oceanos e batalhas ao seu lado.

Anita Garibaldi é hoje lembrada como a "Heroína dos Dois Mundos", título que resume com precisão uma vida vivida com intensidade rara. Seu nome batiza bairros, ruas, praças e monumentos tanto no Brasil quanto na Itália. Uma questão sobre seu local de nascimento — Laguna ou Lages — foi levada à justiça e resolvida em 1998 com sentença que confirmou Laguna como sua cidade natal. Mais do que o berço, porém, o que ficou foi a memória de uma jovem do interior catarinense que escolheu a liberdade quando o mundo esperava dela apenas silêncio.

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