biografias

Cândido Rondon

Militar e explorador brasileiro

4 min de leitura20/06/2026
Anúncio

Há figuras que parecem moldadas pelo próprio território que exploraram. Cândido Mariano da Silva Rondon é uma dessas. Nascido em 5 de maio de 1865 no atual distrito de Mimoso, no município de Santo Antônio de Leverger, no Mato Grosso, carregou desde a infância uma história de perdas e resiliência que se tornaria o substrato de sua personalidade. Seu pai morreu de varíola em 1864, antes mesmo de seu nascimento. Sua mãe faleceu em 1867, quando ele ainda tinha dois anos. A criação ficou a cargo do avô, e depois de um tio paterno, Manuel Rodrigues da Silva Rondon, que havia acrescentado o sobrenome materno ao próprio nome para se distinguir de um homônimo de má reputação. Em homenagem a esse tio que o criou até os dezesseis anos, Cândido adotaria o mesmo sobrenome, passando a assinar Rondon.

Suas origens eram marcadas por uma mistura étnica profunda. Do lado paterno, descendia de portugueses e espanhóis miscigenados com indígenas guanás. Do lado materno, a herança vinha de índios terenas e bororos. Essa ascendência pluriétnica não foi apenas biográfica: ela modelou a forma como Rondon enxergaria e trataria os povos originários ao longo de toda a vida.

Aos dezesseis anos, em 1881, incorporou-se ao 3º Regimento de Artilharia a Cavalo. Logo depois ingressou na Escola Militar do Rio de Janeiro, onde obteve o bacharelado em Ciências Físicas e Naturais. Em 1888, foi promovido a segundo-tenente. Naquele mesmo período, influenciado por Benjamin Constant, participou ativamente das articulações do movimento que depôs o imperador Dom Pedro II e proclamou a República, em 1889. Era republicano e abolicionista por convicção.

O novo governo republicano tinha urgência em integrar as regiões isoladas do oeste e das fronteiras brasileiras. Em 1890, Rondon foi nomeado ajudante da Comissão de Construção das Linhas Telegráficas de Cuiabá ao Registro do Araguaia, a primeira linha telegráfica do Mato Grosso. A obra seria concluída em 1895. A partir daí, sua vida se confundiria com o avanço das comunicações pelo interior mais remoto do Brasil: construiu estradas, instalou linhas telegráficas e abriu caminhos por onde nenhum representante do Estado havia chegado antes.

Entre 1900 e 1906, ficou encarregado de instalar a linha telegráfica que conectaria o Brasil à Bolívia e ao Peru. Durante esse período, entrou em contato com os índios bororos e conseguiu trabalhar ao lado deles na construção da linha, estabelecendo uma relação de confiança que se tornaria sua marca registrada. Em 1906, o presidente Afonso Pena o incumbiu de ligar Cuiabá ao recém-incorporado território do Acre. A chamada Comissão Rondon, ativa de 1907 a 1915, seria o maior empreendimento de sua carreira: implantou mais de cinco mil quilômetros de linhas telegráficas nas florestas brasileiras, descobriu rios, montanhas, vales e lagos, e travou encontros decisivos com povos indígenas até então desconhecidos dos não indígenas.

Um desses encontros foi com os Nambiquara, grupo que havia matado todos os não índios com quem havia tido contato anteriormente. Rondon os abordou segundo seu princípio inabalável: avançar sempre com a paz, nunca com as armas. Em setembro de 1913, uma flecha envenenada dos nhambiquaras atingiu-o durante uma expedição. Ele foi salvo apenas pela bandoleira de couro da espingarda. Mesmo assim, ordenou que seus homens não reagissem e recuassem em paz. Sua frase tornou-se famosa: "Morrer, se preciso for. Matar, nunca."

Em maio de 1909, Rondon partiu em sua expedição mais longa e arriscada. Saiu de Tapirapuã rumo ao noroeste em direção ao rio Madeira. Em agosto, os suprimentos da equipe estavam esgotados, e o grupo precisou sobreviver caçando e coletando na floresta. Durante o trajeto, descobriu um grande rio entre o Juruena e o Ji-Paraná, que batizou de rio da Dúvida. Construíram canoas e, com grande dificuldade, alcançaram o rio Madeira no Natal daquele ano. Ao retornar ao Rio de Janeiro, foi recebido como herói: todos o julgavam morto na selva.

Ao longo de sua trajetória, Rondon também trabalhou ao lado do ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt, em 1914, numa expedição ao rio da Dúvida, que depois seria rebatizado de rio Roosevelt. Sua postura diante dos povos indígenas lhe rendeu a direção do recém-criado Serviço de Proteção ao Índio, o SPI, fundado pelo governo Nilo Peçanha após a expedição de 1909. Estimulou também a criação do Parque Nacional do Xingu, iniciativa fundamental para a preservação das populações originárias. O estado de Rondônia foi batizado em sua homenagem.

Rondon viveu até os 92 anos, falecendo no Rio de Janeiro em 19 de janeiro de 1958. É patrono da arma de Comunicações do Exército Brasileiro. Sua história é a de um homem que fez do sertão sua sala de trabalho e dos povos indígenas seus aliados — numa época em que o mais comum era o extermínio. O Marechal Rondon legou ao Brasil não apenas quilômetros de fio telegráfico, mas um conceito inédito de como o Estado deveria se relacionar com quem já habitava estas terras muito antes de qualquer república.

Anúncio
Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium

Histórias Relacionadas