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Napoleão Bonaparte

Imperador da França (1804–1814, – 1815)

7 min de leitura01/01/2024
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Poucos nomes na história evocam tamanha mistura de admiração e controvérsia quanto o de Napoleão Bonaparte. Nascido em Ajaccio, na ilha da Córsega, em 15 de agosto de 1769, ele chegou ao mundo no mesmo ano em que aquela ilha passava formalmente para o domínio francês, após séculos sob o jugo genovês. Seus pais, Carlo Maria di Buonaparte e Maria Letizia Ramolino, pertenciam a uma família de nobreza menor de origem italiana, e o menino cresceu em uma casa marcada por disciplina, ambição e orgulho de linhagem. O próprio Napoleão afirmaria mais tarde ser "da raça que funda impérios" e se reconhecia mais toscano do que corso.

A infância na Córsega durou pouco. Aos nove anos, o garoto foi enviado para o continente francês, matriculando-se numa escola religiosa em Autun e logo transferindo-se para a Academia Militar de Brienne-le-Château com uma bolsa de estudos. O jovem corso, falando francês com sotaque carregado e sendo ridicularizado pelos colegas, compensou o isolamento social com uma dedicação feroz aos estudos, especialmente à matemática e à história militar. Formou-se na Escola Militar de Paris em 1785, sendo nomeado subtenente de artilharia com apenas dezesseis anos.

Quando a Revolução Francesa explodiu em 1789, Napoleão era um oficial de baixa patente sem perspectivas brilhantes num exército hierárquico. A Revolução varreu essa ordem antiga. O mérito passou a valer mais do que o berço, e o jovem artilheiro corso soube aproveitar cada oportunidade que surgiu. Em 1793, sua habilidade estratégica no cerco de Toulon — cidade que havia se rendido aos ingleses — chamou a atenção dos líderes revolucionários, e ele foi promovido a general de brigada aos vinte e quatro anos. Dois anos depois, ao dispersar um levante realista nas ruas de Paris com o famoso "sopro de metralha", solidificou sua posição junto ao governo do Diretório.

Em 1796, com vinte e seis anos, recebeu o comando do Exército da Itália. A campanha que se seguiu é um prodígio da arte da guerra: em menos de um ano, Napoleão derrotou sucessivamente forças austríacas e piemontesas muito superiores em número, conquistou a Península Italiana e estabeleceu repúblicas satélites com apoio local. Sua capacidade de mover exércitos com velocidade desconcertante, dividir forças inimigas e concentrar poder no ponto decisivo tornou-se sua marca registrada. Voltou à França como herói nacional, comparável aos antigos conquistadores romanos.

A expedição ao Egito, lançada em 1798, tinha objetivos mais políticos do que militares: afastar Napoleão de Paris e cortar as ligações britânicas com a Índia. Embora a frota francesa tenha sido destruída por Nelson na Batalha do Nilo e a campanha tenha naufragado militarmente, ela rendeu dividendos imensuráveis para a ciência — os sábios que acompanharam o exército fizeram descobertas que fundaram a egiptologia moderna, incluindo a Pedra de Roseta. Napoleão retornou à França em 1799 com o prestígio suficiente para orquestrar o golpe do 18 Brumário e tornar-se Primeiro Cônsul da República, concentrando o poder executivo em suas mãos.

O Consulado e o Império que se seguiu foram anos de reformas profundas. Napoleão reorganizou o sistema jurídico francês com o Código Civil de 1804 — o Código Napoleônico —, que aboliu privilégios feudais, garantiu igualdade perante a lei e proteção à propriedade privada, influenciando mais de setenta sistemas legais ao redor do mundo. Criou o Banco da França, reformou a educação pública, estabeleceu a Légion d'honneur para recompensar o mérito, e modernizou a burocracia do Estado. Em 2 de dezembro de 1804, numa cerimônia grandiosa em Notre-Dame de Paris, coroou-se Imperador dos Franceses diante do próprio papa Pio VII.

No campo de batalha, os anos que se seguiram foram de triunfos espetaculares. Em Austerlitz, em dezembro de 1805, destruiu os exércitos combinados da Áustria e da Rússia em que é considerada sua maior vitória tática. Em Iena e Auerstedt, no ano seguinte, aniquilou o poderoso exército prussiano em um único dia. Seu Grande Exército, disciplinado e motivado pela promessa de glória e promoção por mérito, parecia invencível. No auge do poder, em torno de 1810, o Império Francês controlava direta ou indiretamente grande parte da Europa continental, de Lisboa a Varsóvia, da Holanda à Toscana.

A ruína começou a se delinear com duas decisões estratégicas equivocadas. O Bloqueio Continental, destinado a estrangular economicamente a Inglaterra, acabou por prejudicar a própria França e seus aliados, gerando ressentimento generalizado. E a intervenção na Península Ibérica a partir de 1808 abriu uma ferida que nunca cicatrizou: a guerra de guerrilhas espanhola e portuguesa, apoiada pelo exército britânico sob Wellington, consumiu recursos imensos e semeou o descrédito do nome francês. O próprio Napoleão chamaria a campanha ibérica de sua "úlcera espanhola".

A catástrofe decisiva foi a Campanha da Rússia de 1812. Com cerca de seiscentos mil homens — o maior exército já reunido até então —, Napoleão cruzou o Rio Niêmen em junho esperando uma vitória rápida. Os russos recuaram sistematicamente, adotando a política de terra arrasada e recusando batalhas decisivas. A sangrenta batalha de Borodino, em setembro, foi inconclusiva, e Moscou, quando finalmente tomada, estava em chamas. O inverno precoce e a falta de suprimentos transformaram a retirada em catástrofe: dos mais de meio milhão de homens que entraram na Rússia, menos de cem mil retornaram em condições de combate.

A Sexta Coalizão aproveitou a fragilidade napoleônica. Em outubro de 1813, na chamada Batalha das Nações de Leipzig, as forças combinadas da Áustria, Prússia, Rússia e Suécia derrotaram Napoleão. Em 1814, os aliados invadiram a França, e Napoleão foi forçado a abdicar e exilado na ilha de Elba. Mas em fevereiro de 1815 escapou, desembarcou na costa francesa com um punhado de seguidores e, sem disparar um único tiro, reconquistou Paris em menos de três semanas — um feito que por si só revela o magnetismo extraordinário de sua liderança. O episódio ficou conhecido como os Cem Dias.

A Sétima Coalizão respondeu com rapidez. Em 18 de junho de 1815, na planície de Waterloo, na atual Bélgica, Napoleão enfrentou os exércitos britânico e prussiano. A batalha foi decidida pela chegada tardia dos reforços prussianos e por uma série de erros táticos que o Napoleão de outrora dificilmente cometera. Derrotado definitivamente, foi exilado na remota ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, onde viveu sob vigilância britânica até morrer em 5 de maio de 1821, aos cinquenta e um anos. A causa da morte permanece debatida até hoje, com hipóteses que vão do câncer gástrico ao envenenamento por arsênico.

O legado de Napoleão é vasto e paradoxal. Ele foi simultaneamente o filho dileto da Revolução Francesa — disseminando seus ideais de meritocracia, igualdade perante a lei e governo racional por onde passava — e um monarca autoritário que sufocou a liberdade de imprensa e sacrificou gerações em guerras de conquista. O Código Napoleônico continua vivo em dezenas de países, do Québec à Louisiana, do Chile ao Japão. Sua estatura de 1,68 metro, aliás, era ligeiramente acima da média de sua época — o mito do "pequeno cabo" foi uma invenção britânica de propaganda. O que não era mito era seu gênio, sua capacidade de trabalho sobre-humana e o fato de que, partindo de uma ilha obscura com um sobrenome italiano, ele remoldou o mapa da Europa e o destino da modernidade.

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