Ela governou um dos reinos mais ricos do mundo antigo, seduziu dois dos homens mais poderosos de Roma e morreu com menos de quarenta anos, escolhendo o suicídio a ser exibida como troféu numa procissão triunfal. Cleópatra VII Filopátor, nascida em Alexandria por volta de 69 antes de Cristo, foi a última governante ativa do Egito ptolemaico e uma das figuras mais extraordinárias — e mais distorcidas pela memória histórica — de toda a Antiguidade.
Os ptolemaicos eram, na origem, macedônios: descendentes de Ptolomeu I Sóter, general de Alexandre, o Grande, que havia se apoderado do Egito após a morte do conquistador em 323 antes de Cristo. Durante quase três séculos, essa dinastia helênica governou o país do Nilo como monarcas estrangeiros, falando grego, construindo em estilo grego e recusando-se sistematicamente a aprender a língua dos governados. Cleópatra foi a exceção notável: era a primeira — e única — governante de sua linhagem a dominar o egípcio, além de vários outros idiomas, incluindo o etíope, o árabe, o hebraico, o aramaico e o latim. Plutarco registrou que sua voz era como um instrumento de muitas cordas, capaz de assumir qualquer tonalidade linguística necessária.
Sua ascensão ao poder foi marcada por violência familiar desde o início. Quando seu pai, Ptolomeu XII, foi forçado ao exílio por uma revolta popular em 58 antes de Cristo, sua filha mais velha, Berenice IV, assumiu o trono. Quando o pai retornou com apoio militar romano em 55 antes de Cristo, Berenice foi executada. Com a morte de Ptolomeu XII em 51 antes de Cristo, Cleópatra, então com cerca de dezoito anos, passou a governar junto com seu irmão mais novo, Ptolomeu XIII, com apenas dez anos de idade. O casamento entre irmãos era tradição ptolemaica, parte de uma política de manter o poder dentro da dinastia, mas o arranjo rapidamente degenerou em conflito aberto.
Os conselheiros de Ptolomeu XIII — notadamente o eunuco Potino — manobrou para expulsar Cleópatra do poder por volta de 49 antes de Cristo. Ela refugiou-se na fronteira com a Síria e começou a reunir um exército. O destino interveio na forma de Júlio César, que chegou a Alexandria em perseguição a Pompeu Magno, derrotado recentemente na guerra civil romana. Pompeu havia fugido para o Egito esperando proteção, mas Ptolomeu XIII mandou assassiná-lo, esperando ganhar as boas graças do vencedor. A cabeça do ex-aliado entregue como presente chocou e horrorizou César.
A lenda conta que Cleópatra, precisando se encontrar com César sem ser detectada pelos agentes de seu irmão, fez-se enrolar num tapete — ou numa sacola de roupas, segundo outras fontes — que foi carregado até os aposentos do romano. O encontro entre os dois foi o início de uma aliança política e pessoal que mudaria o curso da história. César tinha cinquenta e dois anos; Cleópatra, vinte e um. O romano apoiou a rainha na guerra civil contra seu irmão: Ptolomeu XIII morreu afogado no Nilo após a batalha decisiva de 47 antes de Cristo. Uma irmã mais nova de Cleópatra, Arsínoe IV, que havia assumido o comando das forças inimigas, foi poupada mas exilada em Éfeso.
Do relacionamento com César nasceu um filho, Cesarião, cujo nome combinava os sobrenomes de ambos os pais. Cleópatra viajou para Roma em 46 e 44 antes de Cristo, hospedando-se numa vila de César nos arredores da cidade, o que gerou enorme escândalo numa sociedade que não aprovava as relações entre cidadãos romanos e monarcas estrangeiras. Com o assassinato de César nos Idos de Março de 44 antes de Cristo, Cleópatra perdeu seu protetor mais poderoso. Ela mandou matar o irmão com quem coreinava, Ptolomeu XIV, para garantir que o filho Cesarião fosse seu único cogovernante, mas os herdeiros políticos de César em Roma ignoraram completamente as pretensões do menino.
Na guerra civil que se seguiu ao assassinato de César, Cleópatra observou com cautela antes de tomar partido. Finalmente alinhou-se ao Segundo Triunvirato — Otaviano, Marco Antônio e Lépido. Em 41 antes de Cristo, convocada por Marco Antônio a Tarso para explicar seu comportamento durante a guerra, Cleópatra chegou num barco dourado com velas de púrpura, remada por escravas vestidas como ninfas, ela mesma adornada como Afrodite: um espetáculo de poder e sedução calculados com precisão. O impacto foi imediato e duradouro. Marco Antônio e Cleópatra tornaram-se amantes e aliados políticos, relacionamento que produziria três filhos: Alexandre Hélio, Cleópatra Selene II e Ptolomeu Filadelfo.
A aliança com Antônio deu a Cleópatra recursos que usou para reconstituir algo do antigo poder ptolemaico no Mediterrâneo Oriental. As Doações de Alexandria, em 34 antes de Cristo, distribuíram territórios — Chipre, a Cirenaica, partes da Ásia Menor e da Síria — entre Cleópatra e seus filhos, numa cerimônia pública que Otaviano explorou habilmente como propaganda anti-romana: Antônio estaria entregando terras romanas a uma rainha oriental. O divórcio de Antônio da irmã de Otaviano, Otávia, forneceu o pretexto formal para a guerra.
Em setembro de 31 antes de Cristo, na Batalha de Áccio, ao largo da costa grega, a frota combinada de Antônio e Cleópatra foi derrotada pela esquadra de Otaviano sob o comando de Agripa. A derrota naval foi decisiva: Antônio e Cleópatra fugiram para o Egito, onde as tropas de Otaviano os seguiram em 30 antes de Cristo. Antônio, enganado pela notícia falsa da morte de Cleópatra, se suicidou. A própria Cleópatra, ao perceber que Otaviano planejava levá-la encadeada até Roma para desfilar em seu triunfo, escolheu a morte. A versão popular afirma que se deixou morder por uma áspide escondida numa cesta de figos; os historiadores modernos apontam que possivelmente se envenenou com uma mistura de substâncias.
Com sua morte, o Egito tornou-se província romana, e o mundo helenístico que Alexandre havia inaugurado trezentos anos antes chegou ao fim. Cleópatra sobreviveu na memória cultural como símbolo de sedução e poder feminino, retratada por Shakespeare em "Antônio e Cleópatra", por Händel na ópera "Giulio Cesare in Egitto" e por incontáveis pintores, escultores e cineastas. A distorção da historiografia romana e latina — escrita por seus inimigos — obscureceu durante séculos o que ela realmente foi: uma governante de inteligência excepcional, múltiplas capacidades linguísticas e habilidade política notável, que lutou com todos os meios disponíveis para preservar a independência do último grande reino helenístico.