Mary Anning nasceu em 21 de maio de 1799, na cidade costeira de Lyme Regis, no condado de Dorset, no sudoeste da Inglaterra. Filha do carpinteiro Richard Anning e de sua esposa Molly, ela cresceu em uma família humilde que vivia tão próxima ao mar que as mesmas tempestades capazes de revelar fósseis nas falésias às vezes inundavam a própria casa da família, forçando os Anning a subir as escadas para escapar das águas. Richard complementava a renda familiar escavando fósseis nos recifes da região e vendendo-os aos turistas que afluíam à cidade — um hábito que seria transmitido à filha e acabaria transformando a história da paleontologia.
A família Anning foi marcada por uma mortalidade infantil devastadora, comum na Inglaterra do século XIX. Richard e Molly tiveram dez filhos, dos quais apenas Mary e seu irmão Joseph sobreviveram à infância. A própria Mary que hoje conhecemos era, na verdade, a segunda filha a receber esse nome: a primeira Mary morreu aos quatro anos após suas roupas pegarem fogo enquanto adicionava lenha à lareira. Quando uma nova filha nasceu meses depois, os pais escolheram o mesmo nome em homenagem à irmã falecida. A vida de Mary também esteve em perigo logo no começo: aos quinze meses, ela foi atingida indiretamente por um raio que matou três mulheres que a seguravam embaixo de uma árvore durante um show equestre. O bebê sobreviveu, e os membros da comunidade local atribuíram por anos sua inteligência e personalidade marcante a esse episódio extraordinário.
A educação formal de Mary foi extremamente limitada. Ela frequentou a escola dominical da congregação dissidente da qual a família fazia parte, onde aprendeu o básico de leitura e escrita. Mas foi nas falésias de Blue Lias, com seus estratos geológicos ricos em fósseis do período jurássico, que Mary Anning recebeu a mais importante das suas formações. Richard morreu quando ela tinha apenas onze anos, deixando a família em dificuldades financeiras ainda maiores. Mary e seu irmão Joseph continuaram a busca por fósseis como forma de sustento — uma atividade que ela elevaria a um nível de sofisticação científica sem precedentes para alguém de sua origem e condição.
Aos doze anos, Mary Anning fez uma descoberta que sacudiria o mundo científico: o primeiro esqueleto de ictiossauro encontrado em um penhasco íngreme de cerca de cinco metros de altura na costa de Dorset. Era uma criatura pré-histórica desconhecida até então, e o achado colocou imediatamente o nome de Mary Anning em circulação entre geólogos e naturalistas da Inglaterra, da Europa e dos Estados Unidos. Aquilo não foi um acaso isolado: ao longo das décadas seguintes, ela descobriu também o primeiro dos dois esqueletos completos de plesiossauro, o primeiro esqueleto de pterossauro encontrado fora da Alemanha, além de importantes espécimes de peixes fósseis.
Mary buscava fósseis preferencialmente durante o inverno, quando os deslizamentos de terra desenterravam novos espécimes nas falésias, criando uma janela estreita antes que o mar os erodisse e os destruísse. Essa rotina tinha seus perigos. Em 1833, ela quase morreu em um desses deslizamentos; seu cachorro, companheiro fiel de tantas expedições, não sobreviveu. O risco físico fazia parte de um trabalho que ela realizava com método, persistência e crescente domínio técnico.
Suas contribuições foram além dos grandes esqueletos. Mary Anning identificou que os objetos então chamados de "pedras de bezoar" eram na verdade fezes fossilizadas — o que os cientistas passaram a chamar de coprólitos. Ela também descobriu que os fósseis de belemnites, moluscos extintos, continham sacos de tinta fossilizados semelhantes aos de cefalópodes modernos como o polvo e a lula. Essas observações, aparentemente secundárias, foram fundamentais para a compreensão da vida pré-histórica e da geologia dos estratos em que os fósseis estavam preservados.
Apesar de sua importância científica, Mary Anning enfrentou barreiras intransponíveis impostas pelo século em que viveu. Era mulher, pobre e dissidente religiosa — três condições que a excluíam formalmente da vida científica institucionalizada da Grã-Bretanha vitoriana. Não podia se associar à Sociedade Geológica de Londres, que não admitia mulheres, e raramente recebia crédito público pelas descobertas que alimentavam os estudos de geólogos e naturalistas de prestígio. Durante toda a vida, enfrentou dificuldades financeiras, embora fosse consultada com frequência por especialistas de diversas partes do mundo sobre anatomia e técnicas de coleta de fósseis.
O reconhecimento velado que a comunidade científica lhe dedicava ficou registrado em um gesto simbólico: o geólogo Henry De la Beche, ao criar a obra Duria Antiquior — considerada a primeira grande pintura de paleoarte, uma reconstrução do ecossistema marinho jurássico —, baseou-se diretamente nos fósseis escavados por Mary. De la Beche vendeu cópias da pintura e repassou os recursos a ela como forma de apoio financeiro. Os fósseis descobertos por Mary Anning integram hoje os acervos do Museu de História Natural de Londres, reconhecidos como parte do patrimônio científico da humanidade.
O único artigo científico publicado sob seu nome em vida foi uma carta reproduzida no Journal of Natural History, em 1839, questionando afirmações do editor da publicação. Foi um gesto singular de uma mulher que acumulou conhecimento suficiente para desafiar autoridades científicas estabelecidas, mas que o sistema da época jamais reconheceu adequadamente.
Mary Anning faleceu em 9 de março de 1847, em Lyme Regis, cidade que nunca deixou. Tinha 47 anos. Décadas depois de sua morte, o reconhecimento tardio começou a tomar forma: sua história passou a ser contada em livros, exposições e documentários como exemplo de como o preconceito de gênero e classe pode silenciar talentos extraordinários. Mary Anning não apenas coletou ossos de criaturas extintas — ela ajudou a construir a compreensão moderna de que a Terra tem uma história profunda e dramática, habitada por seres que a ciência ainda mal começava a imaginar.

