biografias

Júlio César

Ditador romano (100 – 44 a.C.)

7 min de leitura01/01/2024
Anúncio

No dia 15 de março de 44 antes de Cristo, enquanto se dirigia para o Senado Romano, Caio Júlio César foi interceptado no pórtico do Teatro de Pompeu por um grupo de senadores que o rodeou sob o pretexto de apresentar uma petição. O que se seguiu foram vinte e três punhaladas. Mas para compreender aquele momento e seu significado, é preciso recuar mais de cinco décadas, até o berço de um homem que transformou uma república em algo que, com o tempo, se tornaria um império.

César nasceu em 13 de julho de 100 antes de Cristo, em Roma, numa família da elite patrícia chamada gente Júlia, que afirmava descender da deusa Vênus através do troiano Eneias. Na prática, os Júlio-Césares eram nobres de prestígio histórico mas de influência política modesta na época do nascimento do futuro ditador. Seu pai, que governou a província da Ásia, morreu subitamente quando César tinha apenas dezesseis anos, tornando o adolescente chefe de família da noite para o dia.

A morte do pai coincidiu com uma época de guerra civil feroz entre duas facções: a popular, liderada por Caio Mário — tio de César pelo casamento —, e a conservadora, encabeçada pelo general Sula. Quando Mário e seu aliado Cina estavam no poder, César foi nomeado alto-sacerdote de Júpiter e casou-se com Cornélia, filha de Cina. Após a vitória final de Sula, essa ligação tornaria César um alvo: foi despojado de sua herança e do dote da esposa, e obrigado a fugir. Recusou-se a divorciar-se de Cornélia mesmo sob pressão, revelando desde cedo uma teimosia que seria marca de seu caráter.

Não se sentindo seguro em Roma com Sula no poder, alistou-se no exército e serviu na Ásia e na Cilícia, distinguindo-se o suficiente para receber a coroa cívica pelo cerco de Mitilene, uma das mais altas honrarias militares romanas. Com a morte de Sula em 78 antes de Cristo, retornou à capital e, sem recursos, alugou uma casa modesta num bairro operário chamado Subura. Tornou-se advogado, ficando conhecido por sua eloquência feroz e por processar governadores corruptos — uma forma eficaz de construir popularidade com o povo.

Um episódio da juventude revela muito sobre o temperamento de César. Durante uma viagem pelo mar Egeu, foi capturado por piratas cilícios que exigiram um resgate de vinte talentos de prata. César riu da quantia, considerando-a insultuosamente baixa para alguém de sua importância, e insistiu que aumentassem o pedido para cinquenta talentos. Durante os dias de cativeiro, tratou os piratas com uma arrogância descontraída, prometendo crucificá-los assim que fosse libertado. Quando o resgate chegou e ele foi solto, organizou uma frota, capturou os piratas e cumpriu a promessa à risca.

Nos anos seguintes, César escalou metódica e ambiciosamente a hierarquia política romana, ocupando cargos como questor, edil curul e pretor. Gastou fortunas que não tinha para financiar jogos públicos espetaculares, ganhando a simpatia das massas populares. Em 60 antes de Cristo, formou com Crasso e Pompeu o chamado Primeiro Triunvirato, uma aliança informal que passou a dominar a política romana. No ano seguinte, eleito cônsul, César fez aprovar uma reforma agrária que distribuiu terras aos veteranos e aos pobres, desafiando a resistência do Senado conservador.

O grande laboratório de César foi a Gália. Entre 58 e 50 antes de Cristo, comandou uma série de campanhas militares que expandiram os domínios romanos do Rio Reno até o Canal da Mancha, anexando o território equivalente à atual França, Bélgica e partes da Suíça e da Alemanha. Foram campanhas de brutalidade às vezes impressionante — estima-se que mais de um milhão de gauleses morreram e um número semelhante foi escravizado —, mas também de gênio militar que ele próprio documentou em seus comentários, escritos numa prosa latina direta e admirável. Tornou-se também o primeiro general romano a realizar incursões militares na Britânia, em 55 e 54 antes de Cristo, abrindo o caminho para a futura conquista da ilha.

A morte de Crasso em 53 antes de Cristo desfez o equilíbrio do Triunvirato. Pompeu, antes aliado, migrou para o campo conservador do Senado. Em 49 antes de Cristo, os senadores exigiram que César licenciasse seu exército e retornasse a Roma como simples cidadão — o que na prática significaria sua destruição política e provavelmente um processo por suas ações na Gália. César recusou e em janeiro cruzou o Rio Rubicão com suas legiões, na frase que ficou famosa por ser um ponto de não retorno: "a sorte está lançada". Iniciava-se uma guerra civil.

A guerra foi relativamente rápida. Pompeu fugia para o Oriente enquanto César controlava a Itália em semanas. A batalha decisiva ocorreu em Farsalos, na Grécia, em agosto de 48 antes de Cristo, onde as legiões veteranas de César derrotaram um exército numericamente maior comandado por Pompeu. O derrotado fugiu para o Egito, onde foi assassinado por ordem do jovem faraó Ptolomeu XIII, que esperava ganhar as boas graças do vencedor. Em vez disso, o presente macabro chocou César, que chorou ao ver a cabeça do antigo aliado e cunhado.

No Egito, César envolveu-se com Cleópatra VII, apoiando sua disputa pelo trono contra o irmão. Depois de consolidar o poder no Oriente e esmagar os últimos focos de resistência pompeiana no norte da África e na Hispânia, voltou a Roma como senhor inconteste da República. Entre 49 e 44 antes de Cristo, concentrou poderes sem precedentes: foi nomeado ditador perpétuo, acumulou o controle das finanças, das eleições e da política externa. Reformou o calendário, criando o Calendário Juliano de 365 dias com um dia extra a cada quatro anos — que permaneceu em uso por mais de um milênio e meio no Ocidente.

O assassinato nos Idos de Março foi articulado por cerca de sessenta senadores, liderados por Caio Cássio e Marco Júnio Bruto, este último um homem que César tratava quase como filho. Os conspiradores acreditavam estar salvando a República; na prática, desencadearam décadas de guerras civis que destruíram definitivamente o sistema republicano que queriam preservar. O sobrinho-neto de César, Otaviano, herdou o nome e o legado político, tornando-se Augusto, o primeiro imperador romano, em 27 antes de Cristo. O título de "César" tornou-se sinônimo de imperador em diversas línguas — do alemão Kaiser ao russo Czar —, testamento duradouro de um homem que, em menos de duas décadas de poder, redesenhou o mundo mediterrâneo.

Anúncio
Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium

Histórias Relacionadas