No dia 29 de julho de 1846, às seis horas e vinte e cinco minutos da manhã, nasceu no Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, a menina que passaria à história como a Redentora. Batizada como Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, a princesa era filha do imperador Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina das Duas Sicílias. Seus padrinhos foram o rei Fernando II de Portugal e sua avó materna. Os nomes Micaela, Gabriela e Rafaela seguiam a tradição de homenagear os três arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael — um sinal, talvez involuntário, do peso espiritual que a família real carregava em cada cerimônia.
Isabel não nasceu herdeira. Quando veio ao mundo, tinha um irmão mais velho, Dom Afonso Pedro, o herdeiro aparente. A morte desse irmão em 1847, com apenas dois anos, fez de Isabel a princesa que mais provavelmente assumiria o trono. Mas um outro irmão, Dom Pedro Afonso, nasceu em 1848, e por alguns anos Isabel voltou a ser a segunda na linha. A morte também desse menino em 1850 fixou definitivamente o destino da princesa: tornou-se Princesa Imperial, título reservado ao primeiro na sucessão. Ela tinha quatro anos quando o Brasil começou a pousar sobre seus ombros o peso de uma coroa que talvez nunca chegasse.
O impacto da perda dos filhos homens sobre Pedro II foi profundo e duradouro. O imperador escreveu à época da morte do segundo filho: "Este tem sido o golpe mais fatal que eu poderia receber". Sete anos depois, ao compreender que não teria mais herdeiros do sexo masculino, anotou em carta que a educação das princesas deveria prepará-las para "dirigir o governo constitucional de um império como o Brasil". Era uma concessão intelectual, mas não um convencimento pleno. Para o historiador Roderick J. Barman, Pedro II "não conseguia conceber mulheres, suas filhas inclusas, tendo qualquer papel no governo". A sociedade imperial, dominada por homens e ainda profundamente conservadora, via com ceticismo a ideia de uma mulher no trono.
A educação de Isabel começou em 1854, quando foi ensinada a ler e escrever por um professor que era republicano confesso — escolha que, no Brasil monárquico da época, não deixava de ser curiosa. As tradições da corte exigiam que o herdeiro dominasse um conjunto amplo de conhecimentos, e Isabel recebeu instrução sólida em línguas, história, música e matemática. Com o tempo, revelou-se também uma pintora talentosa e uma pianista de refinado gosto. Seu forte catolicismo, que a acompanharia até a morte, foi desenvolvido em paralelo com a formação intelectual, tornando-se uma dimensão central de sua personalidade.
Em 1864, Isabel casou-se com o príncipe francês Gastão de Orléans, Conde d'Eu, membro de uma das famílias reais mais importantes da Europa. O casamento foi feliz e duradouro. O casal teve quatro filhos: Luíza Vitória, Pedro de Alcântara, Luiz e Antonio. A chegada do genro estrangeiro, porém, foi vista com desconfiança por setores da elite brasileira, que temiam uma influência européia excessiva nos destinos do país. O Conde d'Eu participaria ativamente da Guerra do Paraguai como comandante militar — o que lhe granjeou respeito em alguns círculos e inimizades em outros.
Ao longo do reinado de Pedro II, Isabel exerceu a regência do Império em três ocasiões, quando o pai viajou ao exterior por razões de saúde ou diplomáticas. As duas primeiras regências transcorreram sem grandes turbulências. A terceira, porém, seria a mais decisiva de todas. Em 1888, com Pedro II na Europa em tratamento, Isabel governou o Brasil num momento em que o abolicionismo atingia seu ponto de ebulição. A pressão das ruas, o crescimento do movimento negro e a ação de abolicionistas como José do Patrocínio e Joaquim Nabuco tornavam insustentável qualquer adiamento.
Em 13 de maio de 1888, Isabel assinou a Lei Áurea — um texto de apenas dois artigos que declarava extinta a escravidão no Brasil sem qualquer condição ou indenização aos proprietários de escravos. Foi o ato mais significativo de seu governo e, possivelmente, um dos mais importantes de toda a história brasileira. O Brasil era, naquele momento, o último país independente do Ocidente a abolir oficialmente a escravidão. A comemoração nas ruas foi intensa e espontânea. Isabel ganhou o título de Redentora.
Mas o custo político foi enorme. Os grandes fazendeiros, especialmente os do Oeste paulista, que dependiam do trabalho escravo para as lavouras de café, sentiram-se traídos pelo trono. Sem receber indenização, retiraram seu apoio à monarquia e passaram a financiar o movimento republicano. Em pouco mais de um ano, a obra que Isabel considerava seu maior legado havia minado as bases do regime que ela representava.
A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, surpreendeu a família imperial em Petrópolis. Pedro II decidiu não resistir pela força. Isabel e sua família foram exilados, embarcando rumo à Europa em novembro de 1889. Após a morte de Pedro II em Paris, em 1891, Isabel tornou-se, para os monarquistas brasileiros, a pretendente legítima ao extinto trono do Brasil — posição que ocuparia simbolicamente até sua morte.
Isabel passou os últimos trinta anos de vida na França, na propriedade do Château d'Eu, na Normandia. Manteve relações com a comunidade monarquista brasileira no exílio, mas sem nunca aderir a projetos de restauração que envolvessem conflito armado. Faleceu em 14 de novembro de 1921, no mesmo château que lhe dera o nome de residência por décadas. A Redentora morreu distante do país que libertara, num exílio que durou quase o mesmo tempo que a escravidão levara para ser abolida depois das primeiras leis emancipatórias. Seu legado, porém, permanece indissolúvel à memória brasileira: nenhuma assinatura na história do país teve consequências mais profundas para a condição humana de milhões de pessoas.