Entre 1930 e 1945, o Brasil viveu quinze anos de governo contínuo sob um único homem: Getúlio Dornelles Vargas. Esse período, chamado pela historiografia de Era Vargas, foi um dos mais transformadores da história do país — um tempo de rupturas, construção institucional, avanços sociais e autoritarismo, tudo entrelaçado numa figura política de rara complexidade. Vargas governou sob três configurações diferentes, adaptando-se a cada crise como um político instintivo que sabia quando avançar e quando recuar.
A Era Vargas começou com a Revolução de 1930, que encerrou a República Velha ao depor o presidente Washington Luís e impedir a posse de Júlio Prestes. Uma junta militar entregou o poder a Vargas em 3 de novembro daquele ano, reconhecendo-o como o líder civil do movimento revolucionário. Aos 47 anos, o gaúcho de São Borja chegava ao Palácio do Catete numa farda militar que não mais vestiria — símbolo de uma transição entre o soldado e o estadista que ele encarnaria nos anos seguintes.
A primeira fase, o Governo Provisório, durou de 1930 a 1934. Vargas governava por decreto, sem Congresso e sem Constituição. Os decretos seguiam uma fórmula solene: "O Chefe do Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil, considerando que:..." Era um poder concentrado, justificado pela necessidade de reorganizar um Estado que a crise econômica e a ruptura oligárquica haviam deixado em colapso. Interventores federais substituíram os governadores estaduais. O café, que dominara a política da República Velha, perdia seu monopólio sobre as decisões nacionais.
Essa fase também foi marcada pela Revolução Constitucionalista de 1932, quando São Paulo se levantou em armas exigindo o retorno ao governo constitucional. O conflito durou três meses e terminou com a derrota militar paulista, mas a pressão gerou resultado político: Vargas convocou uma Assembleia Constituinte. A Constituição de 1934 foi promulgada, o Congresso foi reconstituído e Vargas foi eleito presidente pela própria Assembleia, sob as disposições transitórias da nova Carta. Começava o Governo Constitucional, segunda fase da Era Vargas.
O período constitucional durou pouco. O contexto internacional dos anos 1930 era de ascensão de regimes autoritários na Europa, e o Brasil não estava imune a esse clima. Em 1935, a Intentona Comunista — um levante armado organizado pelo Partido Comunista com ligações a Moscou — foi sufocada e usada como pretexto para ampliar a repressão e concentrar poderes. Em novembro de 1937, com as eleições presidenciais previstas para o ano seguinte se aproximando, Vargas deu um golpe. Anunciou uma nova Constituição, fechou o Congresso e instaurou o Estado Novo, terceira e mais longa fase da Era Vargas.
O Estado Novo durou de 1937 a 1945. Era uma ditadura de caráter nacionalista, desenvolvimentista e corporativista, inspirada vagamente em modelos europeus, mas com características próprias do Brasil. A imprensa foi censurada, os partidos políticos foram extintos, os sindicatos ficaram sob controle do Estado e a polícia política reprimia opositores com brutalidade. O Departamento de Imprensa e Propaganda, conhecido como DIP, controlava a produção cultural e construía a imagem de Vargas como o "pai dos pobres" — líder bonachão e populista que se apresentava como protetor dos trabalhadores.
E nessa construção havia substância real. A legislação trabalhista aprovada sob Vargas foi revolucionária para os padrões brasileiros. A Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT, promulgada em 1943, reuniu num único código os direitos dos trabalhadores urbanos: jornada de oito horas, férias remuneradas, salário mínimo, previdência social. Eram conquistas que a República Velha jamais havia considerado, e que transformaram a relação entre Estado e trabalhadores no Brasil. Criou-se também a Petrobras e a CSN, Companhia Siderúrgica Nacional, bases da industrialização pesada. A Vale do Rio Doce, fundada em 1942, tornar-se-ia décadas depois uma das maiores mineradoras do mundo.
Com a aproximação da vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo tornou-se politicamente insustentável. Um Brasil que havia mandado soldados lutar contra o fascismo na Itália dificilmente poderia manter uma ditadura doméstica no pós-guerra. Pressões internas e externas se acumularam. Em outubro de 1945, Vargas foi deposto pelos próprios militares que o sustentavam. A Era Vargas havia terminado — pelo menos naquele ciclo.
Mas Vargas voltaria. Eleito por voto direto em 1950, retornou à presidência em 31 de janeiro de 1951. Enfrentou uma crise política crescente alimentada por opositores, pela imprensa ligada a Carlos Lacerda e por setores militares. Em agosto de 1954, sob pressão para renunciar, Getúlio Vargas encerrou sua trajetória da forma mais dramática possível: com um tiro no coração, em seu quarto no Palácio do Catete, na cidade do Rio de Janeiro. A carta que deixou, conhecida como "carta-testamento", acusou os inimigos do Brasil e anunciou que partiria "para a história". A comoção popular foi imensa.
O legado da Era Vargas permanece vivo e controverso. As instituições que criou — a CLT, a Petrobras, o sistema previdenciário, o projeto de industrialização nacional — moldaram o Brasil do século XX e continuam a existir, modificadas, no século XXI. A historiografia divide-se entre aqueles que o veem como o grande modernizador do país e aqueles que enfatizam o autoritarismo, a repressão e o populismo manipulador. Provavelmente, ambas as visões são parcialmente corretas, e é precisamente nessa tensão que a figura de Vargas permanece fascinante e inescapável para quem quiser entender o Brasil moderno.