guerras

HMS Beagle

Brigue de 10 peças da classe Cherokee, utilizado na expedição de Charles Darwin

7 min de leitura01/01/2024
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Poucos navios na história deixaram uma marca tão profunda no pensamento humano quanto o HMS Beagle. Construído a um custo de 7.803 libras esterlinas no Estaleiro de Woolwich, no Rio Tâmisa, e lançado ao mar em 11 de maio de 1820, esse brigue-escuna de dez canhões da classe Cherokee da Marinha Real Britânica foi projetado como mais um entre os mais de cem navios dessa classe que serviriam à frota inglesa. Nada em suas dimensões modestas ou em seu lançamento discreto sugeria que aquele casco de madeira carregaria um dia o homem que transformaria para sempre a compreensão da origem das espécies.

O navio permaneceu inicialmente "em reserva" após sua construção, ancorado sem mastros ou cordame, aguardando uma destinação que tardou a chegar. Relatos posteriores creditam ao Beagle a distinção de ter sido levado pelo Rio Tâmisa durante as celebrações da coroação do rei Jorge IV, passando sob a antiga Ponte de Londres, tornando-se o primeiro navio de guerra equipado a navegar rio acima dessa estrutura. Quando finalmente recebeu uma missão, o Beagle havia sido adaptado de um simples navio de combate para um navio de levantamento hidrográfico, função que definiria toda a sua carreira e que tornaria seu nome imortal.

A primeira grande viagem do HMS Beagle, iniciada em 22 de maio de 1826 a partir de Plymouth, tinha como objetivo realizar um levantamento hidrográfico das costas da Patagônia e da Terra do Fogo, em parceria com o navio maior HMS Adventure. O capitão Pringle Stokes comandava o Beagle, enquanto o capitão Phillip Parker King dirigia o conjunto da expedição. As águas da Terra do Fogo estavam entre as mais perigosas do mundo, e o trabalho de levantamento, realizado em condições de neblina permanente e mares revoltos, exigia uma resistência física e psicológica extraordinária da tripulação. O ambiente desolado e a pressão constante do serviço acabaram por cobrar um preço trágico: em agosto de 1828, no Porto Famine, no Estreito de Magalhães, o capitão Stokes trancou-se em sua cabine por catorze dias e finalmente atirou em si mesmo. Após dias de agonia, morreu em 12 de agosto de 1828.

O almirante Sir Robert Otway, comandante da estação sul-americana, tomou a decisão de substituir o imediato interino pelo tenente Robert FitzRoy, seu ajudante de ordens, que assumiu o comando do Beagle ainda durante aquela primeira viagem. FitzRoy tinha apenas 23 anos, mas revelou-se um comandante de capacidade excepcional e um pesquisador de rigor meticuloso. Em um episódio revelador de sua personalidade determinada, FitzRoy tomou famílias de índios fueguinos como reféns após o roubo de um barco do navio. Ao fim da viagem, quatro desses nativos — dois homens, uma menina e um menino que recebeu o apelido de Jemmy Button —, foram levados para a Inglaterra quando o Beagle retornou ao porto em 14 de outubro de 1830. Um deles, o mais promissor do grupo, não sobreviveu ao contato com as doenças europeias, morrendo de varíola pouco após a chegada. Também durante essa primeira viagem foi identificado e nomeado em homenagem ao navio o Canal Beagle, passagem marítima que ficaria para sempre associada ao nome da embarcação.

A segunda viagem do HMS Beagle, que começou em 1831 e durou até 1836, é aquela que a história registrou como transformadora para a ciência. FitzRoy havia sido confirmado no comando da nova expedição, com o objetivo de continuar o levantamento da costa sul-americana e completar uma série de medições cronométricas para estabelecer meridianos precisos ao redor do globo. Antes de partir, contudo, FitzRoy tomou uma decisão que alteraria o rumo do pensamento científico ocidental: convidou um jovem naturalista para acompanhá-lo como companheiro de mesa e observador científico. Esse jovem se chamava Charles Darwin, tinha 22 anos e acabava de concluir seus estudos em Cambridge.

Para acomodar as novas funções do navio e melhorar suas condições de navegabilidade, o Beagle passou por uma reforma extensiva em Devonport antes de partir. O convés superior foi elevado, em cerca de oito polegadas na popa e doze na proa, o que reduziu a tendência da embarcação a embarcar água em mau tempo. Os navios da classe Cherokee tinham a reputação de serem difíceis de manobrar e propensos a afundar em condições adversas, e as modificações introduzidas por FitzRoy procuravam mitigar esses defeitos estruturais. A embarcação partiu de Plymouth em 27 de dezembro de 1831, acompanhada pelos tenentes John Clements Wickham e Bartholomew James Sulivan.

Enquanto a tripulação do Beagle realizava seu trabalho hidrográfico ao longo das costas da América do Sul, Darwin desembarcava em cada porto, subia montanhas, percorria planícies e recolhia espécimes de animais, plantas, fósseis e rochas com uma avidez obsessiva. Nos pampas argentinos, encontrou fósseis de animais extintos de proporções gigantescas que guardavam semelhanças perturbadoras com espécies vivas da região. Nas ilhas Galápagos, observou como pássaros e répteis de cada ilha apresentavam variações sistemáticas em relação aos de outras ilhas, variações que pareciam refletir adaptações aos recursos e condições específicos de cada ambiente. Essas observações, acumuladas ao longo de quase cinco anos de viagem, alimentaram as reflexões que Darwin desenvolveria por décadas após o retorno, culminando na publicação de "A Origem das Espécies" em 1859.

O diário de bordo que Darwin publicou após a viagem, mais conhecido como "A Viagem do Beagle", tornou-se um clássico da literatura científica e de aventura, lido por gerações de leitores não especializados. Darwin ganhou fama imediata com a obra, muito antes que sua teoria da evolução fosse formulada e publicada. A viagem em si, e o navio que a tornou possível, são assim inseparáveis da história da ciência moderna. Sem o HMS Beagle e sem a segunda viagem de levantamento que deu a Darwin cinco anos de observação no campo, a teoria da seleção natural poderia ter tardado décadas a surgir, ou surgido em outros termos.

Após a histórica segunda viagem, o Beagle realizou ainda uma terceira expedição de levantamento, desta vez nas costas da Austrália, entre 1837 e 1843, sob o comando do tenente John Clements Wickham e depois do tenente John Lort Stokes. A embarcação terminou seus anos de serviço ativo amarrada como navio fiscal no Rio Roach, em Essex, servindo como base para a vigilância aduaneira. Abandonada gradualmente, sua estrutura foi eventualmente desmantelada. O livro de registro manuscrito da primeira viagem, escrito pelo capitão FitzRoy, foi adquirido em leilão pela Marinha Argentina e preservado no Museo Naval de la Nación, em Tigre, na Província de Buenos Aires, como um testemunho material de uma história que moldou o pensamento humano.

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