O Exército do Povo do Vietnã é a força armada que nasceu de uma resistência anticolonial, cresceu em décadas de guerra devastadora e emergiu como o instrumento militar de um Estado unificado após um dos conflitos mais longos e mais comentados do século XX. Sua trajetória atravessa a luta contra o domínio japonês e francês, o confronto com a superpotência norte-americana e os desdobramentos regionais que moldaram a Indochina contemporânea.
A origem formal do Exército do Povo data de 22 de dezembro de 1944, quando, sob a liderança de Ho Chi Minh e Vo Nguyen Giap, foi constituída a Unidade de Propaganda Armada para a Libertação Nacional. A primeira formação era modesta por qualquer critério: trinta e um homens e três mulheres, armados com dois revólveres, dezessete fuzis, uma metralhadora leve e quatorze armas improvisadas de carregamento pela culatra. Parecia improvável que esse punhado de combatentes fosse a semente de uma força militar capaz de derrotar duas potências ocidentais ao longo das décadas seguintes. Os agentes da OSS norte-americana forneceram nesse período inicial munições, treinamento e apoio logístico, numa das ironias mais notáveis da Guerra Fria: os Estados Unidos ajudaram a construir o exército que mais tarde enfrentariam num dos conflitos mais custosos de sua história.
A estrutura que surgiu dessa origem humilde ficou conhecida no Ocidente como Viet Minh, embora essa denominação fosse imprecisa: o Viet Minh era na verdade o nome de todo o movimento de independência nacional, tanto em seu componente civil quanto militar, que resultou na proclamação da República Democrática do Vietnã em 1945. A guerra contra a ocupação francesa, travada entre 1945 e 1954, testou e forjou essa força emergente. Em 28 de maio de 1948, Vo Nguyen Giap tornou-se o primeiro general pleno do exército, e seu nome ficaria para sempre associado às maiores vitórias militares vietnamitas. A Batalha de Dien Bien Phu, em 1954, foi o clímax desse conflito: Giap cercou e destruiu uma força expedicionária francesa em posição aparentemente inexpugnável, pondo fim ao domínio colonial francês na Indochina e enviando uma mensagem que reverberou em colônias ao redor do mundo.
Nos anos 1960 e 1970, a força passou a ser conhecida no Ocidente predominantemente como Exército do Vietnã do Norte, ou NVA na sigla inglesa. Operava em coordenação com a Frente Nacional para a Libertação do Vietnã do Sul, popularmente chamada de Vietcong, que era composta essencialmente por milícias civis. Enquanto o Vietcong guerrilhava nas aldeias e selvas do sul, o Exército do Povo era uma força convencional, uniformizada, organizada em ramos terrestres, navais e aéreos, sob comando centralizado em Hanói. A guerra que se seguiu foi uma das mais prolongadas e destrutivas do século XX, com a participação direta dos Estados Unidos ao lado do governo do Vietnã do Sul. Após o acordo de paz firmado em Paris e a retirada norte-americana, o Exército do Povo encerrou o conflito com a tomada de Saigon em 30 de abril de 1975, unificando o país sob o governo de Hanói.
As missões não terminaram com a unificação. Em resposta às atrocidades cometidas pelo regime do Khmer Vermelho no Camboja — responsável pelo genocídio de aproximadamente três milhões de pessoas entre 1976 e 1979 — o Exército do Povo invadiu o país vizinho e depôs o ditador Pol Pot. A intervenção pôs fim ao terror cambojano, mas provocou uma resposta da China, que lançou uma ofensiva de retaliação conhecida como Guerra Sino-Vietnamita em 1979. O Exército do Povo lutou em dois fronts distintos em pouco tempo, demonstrando uma capacidade operacional notável mesmo após décadas de conflito ininterrupto.
Hoje o Exército do Povo do Vietnã conta com aproximadamente 450 mil soldados e é estruturado em forças terrestres, Marinha, Força Aérea, Força de Defesa de Fronteira e Guarda Costeira. O Comandante-em-Chefe nominal é o Presidente do Vietnã, mas o poder de fato é exercido pela Comissão Militar Central do Partido Comunista do Vietnã. Além das funções estritamente militares, a instituição atua em áreas econômicas e humanitárias, participando de atividades como agricultura, reflorestamento, telecomunicações e resposta a desastres naturais. Sua história é inseparável da própria história do Vietnã moderno: a força que começou com três dúzias de combatentes numa selva tornou-se o símbolo permanente da resistência e da determinação de um povo que, ao longo de séculos, enfrentou invasões e ocupações sem jamais abandonar a aspiração à soberania.


