Francisco de Lorena, conhecido pela história como Francisco, Duque de Guise, nasceu em 17 de fevereiro de 1519 na cidade de Bar-le-Duc, no ducado de Lorena, e morreu em 24 de fevereiro de 1563, vítima de um assassinato que chacoalharia a França inteira. Em pouco mais de quarenta anos de vida, esse homem acumulou glórias militares, poder político extraordinário e inimizades mortais que moldaram os primeiros capítulos das sangrentas Guerras de Religião francesas.
Filho de Cláudio de Lorena, que se tornaria Duque de Guise em 1527, e de Antonieta de Bourbon, Francisco cresceu em um ambiente de alta nobreza e ambição dinástica. Sua posição na corte era singular: primo de Henrique II de França, ele havia sido criado ao lado do futuro rei, o que lhe abria portas que permaneciam fechadas a outros nobres. Seus detratores, no entanto, jamais deixavam de ressaltar que ele era tecnicamente um príncipe estrangeiro, oriundo de Lorena, território que não compunha o reino da França. Essa tensão entre prestígio e origem nunca o abandonou completamente. Seus laços familiares eram igualmente relevantes: sua irmã Maria de Guise casara-se com Jaime V da Escócia, tornando-se mãe de Maria, Rainha da Escócia, e seu irmão mais novo, Carlos, seguiria carreira eclesiástica tornando-se Cardeal de Lorena.
A reputação guerreira de Francisco começou a se construir cedo e de maneira dramática. Em 1545, durante o segundo cerco de Boulogne, ele foi atingido por uma lança que penetrou pelas barras de seu capacete, perfurou ambas as faces e deixou aproximadamente seis centímetros do eixo alojado em sua cabeça. O cirurgião que o atendeu acreditava que a extração do ferro seria fatal de tão dolorosa, mas Francisco a suportou com uma serenidade que passou a ser descrita em termos quase lendários: era como se arrancassem apenas um fio de cabelo de sua cabeça. Ele manteve a cicatriz dessa ferida até o fim da vida, e ela se tornaria parte de sua identidade pública, um símbolo visível de coragem.
Em 1548, Francisco contraiu matrimônio magnífico com Ana d'Este, filha do duque de Ferrara, Hércules II d'Este, e da princesa francesa Renata, filha do rei Luís XII. A união consolidava sua posição entre as mais importantes famílias da nobreza europeia. Juntos teriam sete filhos, entre os quais Henrique I, que o sucederia como Duque de Guise; Carlos, que se tornaria Duque de Mayenne; e Luís II, que chegaria ao cardinalato como Arcebispo de Reims.
A carreira militar de Francisco atingiu novos patamares em 1551, quando recebeu o cargo de Camareiro-Mor da França. O ano de 1552 marcou sua projeção internacional: defendeu com extraordinária habilidade a cidade de Metz contra as forças do poderoso Carlos V, Sacro Imperador Romano, tornando a vitória uma das mais celebradas de sua época. Em 1554, as tropas imperiais voltaram a ser derrotadas na batalha de Renty. A trégua de Vaucelles, porém, reduziu temporariamente seu campo de atuação. Mais tarde, em 1557, liderou um exército para a Itália em apoio ao papa Paulo IV, mas foi convocado de volta à França quando Anne de Montmorency sofreu derrota na Batalha de St. Quentin frente às forças espanholas. Assumindo o comando como tenente-general do reino, Francisco realizou então o feito que garantiria sua lenda: em 7 de janeiro de 1558, capturou Calais dos ingleses. A cidade estava em mãos inglesas havia mais de dois séculos, e sua reconquista produziu um impacto propagandístico enorme para a França. Prosseguindo a campanha, ainda tomou Thionville e Arlon durante o verão, preparando-se para avançar sobre Luxemburgo quando a Paz de Cateau-Cambrésis colocou fim às hostilidades. Seu contemporâneo Brantôme o chamava de "o grande duque de Guise", e a alcunha se encaixava perfeitamente.
Com a adesão de sua sobrinha Maria, Rainha da Escócia, e do marido dela Francisco II de França ao trono em 10 de julho de 1559, a família Guise alcançou o apogeu de sua influência política. O Grão-Mestre da França, Montmorency, caiu em desgraça. Francisco e seu irmão Carlos, o Cardeal de Lorena, passaram a dominar o conselho real com autoridade quase monárquica. Conta-se que o duque chegava a assinar atos públicos apenas com seu nome de batismo, como faziam os soberanos.
Esse poder desproporcional gerou reação. Em 1560, um cavalheiro protestante de Périgord chamado La Renaudie, possivelmente instigado por Luís de Bourbon, príncipe de Condé, organizou a Conspiração de Amboise, que pretendia tomar os irmãos Guise. A trama foi descoberta, sufocada com violência e transformou o ambiente político em algo cada vez mais venenoso. Condé foi forçado a fugir da corte. O almirante Coligny, líder dos huguenotes, confrontou publicamente os Guise numa assembleia de notáveis em Fontainebleau em agosto de 1560, sem conseguir abalar sua posição, mas intensificando a hostilidade mútua que terminaria em sangue.
Francisco, Duque de Guise, foi assassinado em 24 de fevereiro de 1563, durante o cerco de Orléans, por um atirador que a historiografia associou, sem provas definitivas, ao campo protestante. O crime interrompeu a trajetória de um dos maiores comandantes militares de sua geração e acendeu ainda mais a fogueira das Guerras de Religião. Seu filho Henrique I herdaria não apenas o título, mas também as rancores e o papel de campeão do catolicismo radical na França.
