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José Bonaparte

Ex-rei da Espanha

7 min de leitura01/01/2024
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José Bonaparte nasceu em 7 de janeiro de 1768 na cidade de Corte, então capital da República da Córsega, com o nome de Giuseppe di Buonaparte. Era o filho mais velho de Carlo Buonaparte e Letizia Ramolino, e cresceu num território marcado por tensões políticas que viriam a moldar profundamente sua trajetória. No próprio ano de seu nascimento, a Córsega foi invadida pela França, que a incorporaria definitivamente ao seu território no ano seguinte. Esse contexto de mudança geopolítica deixaria marcas permanentes na família Buonaparte.

Seu pai, originalmente aliado do patriota corso Pasquale Paoli, adaptou-se ao novo cenário e passou a apoiar o domínio francês. José acompanhou essa transição e seguiu os estudos na França, onde se formou em Direito e abraçou a carreira de jurista e diplomata. Enquanto seu irmão mais novo Napoleão ascendia pelos quadros militares, José construía sua influência nos corredores políticos e nas missões diplomáticas. Antes mesmo da virada do século, já havia atuado como embaixador francês em Roma, acumulando experiência nas complexas negociações entre potências europeias.

Em 1799, José serviu no Conselho dos Quinhentos, posição que utilizou de maneira estratégica para apoiar o golpe de estado articulado por Napoleão, que pôs fim ao Diretório e abriu caminho para o Consulado. O apoio do irmão mais velho foi parte de um movimento coordenado que consolidou o poder napoleônico na França. Poucos meses depois, em 30 de setembro de 1800, José assinou em Mortefontaine, na região de Oise, um tratado de amizade e comércio entre a França e os Estados Unidos. Atuou como Ministro Plenipotenciário ao lado de Charles Pierre Claret de Fleurieu e Pierre Louis Roederer, num acordo que normalizava as relações entre as duas repúblicas após anos de tensão marítima.

Com Napoleão firmemente no poder e à frente da maior parte da Europa, os irmãos Bonaparte tornaram-se instrumentos centrais da política imperial de colocar figuras de confiança nos tronos conquistados. Em 1805, o contexto político mediterrâneo criou uma oportunidade inesperada. Fernando IV de Nápoles havia firmado acordo de neutralidade com Napoleão, mas rompeu o compromisso ao declarar apoio à Áustria durante a guerra que então se iniciava, chegando ao ponto de permitir o desembarque de forças anglo-russas em seu reino. A decisão mostrou-se desastrosa para Fernando.

Napoleão venceu a Batalha de Austerlitz em 5 de dezembro de 1805, em um dos confrontos mais brilhantes de sua carreira militar. A vitória foi tão esmagadora que, apenas vinte e dois dias depois, em 27 de dezembro, ele emitiu uma proclamação do Palácio de Schönbrunn declarando que Fernando havia perdido seu trono. A proclamação era ao mesmo tempo um aviso e uma promessa: uma expedição francesa marcharia sobre Nápoles para "aliviar o mais belo dos países do jugo dos homens mais traiçoeiros". Em 31 de dezembro, José recebeu ordens para assumir o comando nominal da campanha.

A expedição contra Nápoles avançou com quarenta mil homens cruzando a fronteira napolitana em 8 de fevereiro de 1806. O Marechal Masséna exercia o controle efetivo das operações militares, cabendo ao General St. Cyr uma posição secundária. Desentendimentos entre os dois militares levaram St. Cyr a abandonar o posto e partir para Paris sem autorização, provocando a ira de Napoleão, que ordenou seu retorno imediato. Apesar da turbulência interna entre os comandantes, a campanha avançou e Fernando foi expulso do trono continental.

Napoleão fez de José o rei de Nápoles em 1806, posto que ocupou até 1808. Durante esse período, José tentou implantar reformas administrativas inspiradas nos princípios da Revolução Francesa, abolindo privilégios feudais e modernizando a burocracia local. Sua administração foi recebida com resistência pela população, que o via como um rei estrangeiro imposto pela força das armas. Em 1808, Napoleão o transferiu para a Espanha, onde seria proclamado rei sob o nome de José I. O reinado espanhol foi ainda mais turbulento: a resistência popular alimentou a chamada Guerra Peninsular, um conflito que sangrou o exército francês e abriu uma ferida que nunca cicatrizou completamente.

O reinado na Espanha durou até 1813, quando a ofensiva aliada chefiada pelo Duque de Wellington e o avanço das forças espanholas tornaram insustentável a posição dos Bonaparte na península. José abdicou e retirou-se. Com a queda de Napoleão e a restauração das monarquias tradicionais europeias, José adotou o título de Conde de Survilliers e buscou refúgio longe da Europa, que lhe era hostil.

Emigrou para os Estados Unidos, onde se instalou numa propriedade próxima a Bordentown, em Nova Jérsia, com vista para o Rio Delaware, não muito distante de Filadélfia. Nessa nova vida, viveu com relativo conforto e privacidade, longe das intrigas e batalhas que definiram suas décadas de serviço ao projeto napoleônico. Faleceu em 28 de julho de 1844, sobrevivendo ao irmão por mais de duas décadas e encerrando a vida como uma figura singular: o homem que foi rei de dois países sem que nenhum deles o quisesse.

O legado de José Bonaparte é ambíguo. Como administrador, tentou introduzir reformas que em muitos casos tinham mérito, mas chegaram pelo cano das espingardas e nunca ganharam legitimidade popular. Como irmão de Napoleão, foi simultaneamente beneficiário e instrumento de um projeto imperial que transformou a Europa e depois desmoronou. Sua história é a de um homem inteligente e competente que viveu na sombra de um dos maiores gênios militares da história, carregando coroas que não pediu e governando povos que nunca aceitaram sua autoridade.

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