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Hatshepsut

Grande esposa real, regente e faraó do Antigo Egito durante a XVIII Dinastia e a mãe adotiva de Moisés

4 min de leitura20/06/2026
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Em um mundo governado por homens e sustentado por tradições milenares que excluíam as mulheres do poder formal, Hatshepsut não apenas assumiu o trono do Antigo Egito como o fez com tal habilidade e determinação que seu reinado de aproximadamente vinte e dois anos é reconhecido como um dos mais prósperos da XVIII Dinastia. Nascida por volta de 1507 a.C. em Tebas e falecida cerca de 1458 a.C., ela percorreu um caminho singular: de princesa a grande esposa real, de regente a faraó, tornando-se uma das figuras mais estudadas e controversas da história egípcia.

Hatshepsut era filha mais velha do rei Tutemés I e da rainha Amósis. Quando seu pai morreu, ela tinha aproximadamente vinte e quatro anos e casou com seu meio-irmão Tutemés II, conforme o costume da realeza egípcia de manter as alianças dentro da própria família. O reinado de Tutemés II foi breve e deixou poucos vestígios históricos. Após sua morte, o enteado de Hatshepsut, Tutemés III — filho de uma esposa secundária — era ainda uma criança, incapaz de assumir as responsabilidades do trono. Hatshepsut, como grande esposa real do rei falecido, assumiu então o papel de regente.

O que começou como uma regência foi se transformando gradualmente em algo muito mais amplo. No sétimo ano do reinado de Tutemés III, Hatshepsut adotou o nome Maatkare e declarou-se soberana do Egito em pleno direito. Passou a usar todos os atributos faraônicos: títulos reais, cetros, barba postiça, tanga curta e cauda de touro, além de unificar as duas coroas simbólicas do Alto e do Baixo Egito. O calendário egípcio, que reiniciava a contagem a cada novo reinado, continuou sendo contado a partir da ascensão de Tutemés III — o que significa que a dupla governava simultaneamente, numa situação sem precedentes na história do país.

Para legitimar um poder que a tradição não previa, Hatshepsut recorreu à religião. Declarou publicamente ser filha do deus Amom-Rá, afirmando que o deus teria se apresentado à sua mãe na forma de Tutemés I para gerar uma herdeira destinada ao trono. Nos templos de Deir Elbari e de Amom-Rá, ela consolidou essa narrativa de paternidade divina perante as figuras mais influentes do Egito, obtendo o suporte do poderoso clero de Amom — o deus mais importante da época. Os sacerdotes, que a princípio resistiram à ideia de uma mulher como faraó, acabaram cedendo, seja por temor religioso, seja pelas generosas doações que a rainha direcionava à instituição.

O processo pelo qual Hatshepsut legitimou seu poder é chamado teogamia: a crença de que um deus se une a uma mulher humana para gerar um novo faraó. No caso dela, Amom teria consultado doze divindades antes de decidir sobre a geração de sua sucessora e escolhido Ahmés, mãe de Hatshepsut, como a mortal digna de carregar esse filho divino. Cenas representando esse mito podem ser vistas até hoje nas paredes de seu templo funerário em Deir Elbari, traduzindo em pedra a história que ela queria que o mundo acreditasse.

Hatshepsut não substituiu Tutemés III: ele continuou presente nos monumentos, aparecendo ao seu lado na quase totalidade das imagens produzidas na época. O calendário egípcio não foi alterado para apagar seu antecessor. Estudiosos como Maruéjol acreditam que ela estava, de fato, preparando o jovem faraó para assumir o trono sozinho no futuro. O historiador Baines e Málek observaram que, se Tutemés III tivesse querido se rebelar contra a tia, teria tido idade e recursos para tanto durante a maior parte do tempo de sua regência — e não o fez. Isso sugere que o arranjo, por mais incomum que fosse, era de alguma forma aceito por ambos os lados.

O reinado conjunto foi marcado por prosperidade econômica e estabilidade política. A atividade militar foi mínima, o que alguns interpretam como sinal de fraqueza e outros como prova de uma gestão pragmática voltada para o comércio e a construção. Hatshepsut era admirada pelo controle que exercia sobre as grandes decisões de Estado. Tutemés III, enquanto isso, cumpria funções rituais relacionadas ao culto às divindades, formando uma divisão de papéis que, na prática, funcionou por décadas.

O destino póstumo de Hatshepsut, no entanto, foi perturbador. Após sua morte, Tutemés III empreendeu um esforço sistemático para apagar seu nome da história. Inscrições foram removidas, estátuas destruídas, e seu nome substituído pelo de outros faraós em monumentos e registros. Muitos historiadores interpretam essa ação como vingança do governante que havia vivido à sombra de uma figura feminina que nunca deveria ter ocupado aquele lugar — ao menos segundo as convenções da época. Outros argumentam que a motivação seria mais dinástica do que pessoal.

A reabilitação de Hatshepsut pela história moderna veio séculos depois, impulsionada pela arqueologia. A redescoberta de seus templos, estátuas e inscrições permitiu reconstruir uma trajetória que havia sido deliberadamente enterrada. Hoje, ela é reconhecida como prova de que o Egito Antigo, apesar de suas hierarquias rígidas, carregava uma flexibilidade interna que permitia a mulheres alcançar posições de imenso poder quando as circunstâncias e a habilidade política se combinavam da forma certa. Hatshepsut foi essa combinação, rara e poderosa, que o tempo tentou apagar e a pedra recusou esquecer.

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