tragedias

Harold Eugene Edgerton

Um engenheiro estadunidense

5 min de leitura01/01/2024
Anúncio

Harold Eugene Edgerton passou a maior parte de sua vida fazendo uma coisa que parece simples mas que ninguém havia conseguido fazer com sua eficiência e sua beleza: parar o tempo. Não metaforicamente, mas de forma literal e visualmente deslumbrante — congelando em imagens estáticas eventos que acontecem rápido demais para que o olho humano possa sequer registrá-los. Uma bala atravessando uma maçã, uma gota de leite explodindo em coroa perfeita, um colibri em pleno voo, os músculos de um atleta em ação: todas essas imagens que hoje nos parecem familiares nasceram do trabalho daquele engenheiro nascido em Fremont, Nebraska, em 6 de abril de 1903.

Edgerton cresceu no Centro-Oeste americano e seguiu o caminho natural das ciências exatas, chegando ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, onde construiria toda a sua carreira. Foi como professor de engenharia elétrica naquela instituição, a partir de 1934, que desenvolveu e refinou aquilo que o tornaria famoso: o estroboscópio eletrônico de alta velocidade. O aparelho já existia como instrumento de laboratório quando Edgerton começou seu trabalho, mas era uma ferramenta obscura e pouco prática. Sua grande contribuição foi transformá-lo num dispositivo confiável, preciso e acessível, capaz de produzir flashes de luz com duração tão breve e frequência tão alta que fenômenos imperceptíveis ao olho nu tornavam-se visíveis e mensuráveis.

A técnica consistia em iluminar o objeto em movimento com pulsos de luz extremamente curtos e frequentes — o equipamento que Edgerton desenvolveu com o fotógrafo Gjon Mili a partir de 1937 era capaz de piscar até cento e vinte vezes por segundo. Ao fotografar com exposição longa e iluminar apenas com esses flashes estroboscópicos, era possível registrar numa única imagem múltiplas posições de um objeto em movimento, como se o tempo tivesse sido fatiado e cada fatia revelasse um instante preciso. O resultado eram fotografias que pareciam impossíveis e que, ao mesmo tempo, revelavam a geometria oculta nos movimentos mais cotidianos.

As imagens que Edgerton criou ao longo de décadas tornaram-se ícônicas. A Milk Drop Coronet, de 1935, mostrando uma gota de leite ao tocar uma superfície e formando uma perfeita coroa de respingos, é considerada uma das fotografias mais elegantes da história. Uma bala em pleno impacto com uma maçã, um taconazo de golfe captado frame a frame, beija-flores em pleno voo com as asas paradas no ar — cada imagem era uma revelação. Muitos desses trabalhos foram publicados na Life Magazine através de sua parceria com Gjon Mili, chegando a milhões de leitores americanos e contribuindo para uma educação visual coletiva sobre a física do movimento. Em 1940, seu curta-metragem estroboscópico Quicker'n a Wink ganhou um Oscar, comprovando que seu trabalho transcendia a fronteira entre ciência e arte.

O reconhecimento científico acompanhou o popular. A Royal Photographic Society premiou Edgerton com uma medalha de bronze em 1934. O Franklin Institute concedeu-lhe a Medalha Howard N. Potts em 1941 e a Medalha Albert A. Michelson em 1969. A Medalha Nacional de Ciências chegou em 1973. Em 1956, foi eleito membro da American Academy of Arts and Sciences. Os prêmios acumulados ao longo de décadas atestavam que ele era reconhecido simultaneamente como engenheiro, cientista e artista — uma combinação rara.

O lado empresarial de sua carreira foi igualmente notável. Em parceria com Kenneth J. Germeshausen e, mais tarde, Herbert Grier, fundou a empresa que inicialmente levava seus três nomes e depois se tornou EG&G, em 1947. A companhia tornou-se contratante principal da Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos, desenvolvendo equipamentos especializados para fotografia e registro de testes nucleares. Para essa finalidade, Edgerton e Charles Wykoff desenvolveram a câmera Rapatronic, capaz de capturar imagens nos primeiros microsegundos de uma detonação nuclear, quando a bola de fogo ainda mal havia começado a se formar. Era um uso perturbador da mesma tecnologia que havia capturado colibris e gotas de leite.

O trabalho com o explorador submarino Jacques Cousteau abriu uma terceira grande frente de inovação. Edgerton não apenas desenvolveu equipamentos de fotografia subaquática com flash eletrônico para as expedições de Cousteau, como também foi fundamental no desenvolvimento da tecnologia de sonar de varredura lateral, usada para mapear o fundo do mar em busca de destroços de navios. Com esse equipamento, participou da localização do Britannic, navio-irmão do Titanic, e esteve envolvido na descoberta do monitor da Guerra Civil Americana. A brincadeira com buscas do Monstro do Lago Ness com equipamentos de sonar misturava o rigor da engenharia com o humor que era traço característico de sua personalidade.

No MIT, onde era especialmente amado pelos estudantes por sua acessibilidade e generosidade intelectual, Edgerton ensinava que o segredo da boa educação era fazer o aluno aprender sem que percebesse. Morreu em Cambridge, Massachusetts, em 4 de janeiro de 1990, aos oitenta e seis anos, e foi sepultado no Mount Auburn Cemetery. Um dos dormitórios estudantis do MIT leva seu nome. O legado do homem que ganhou o apelido de Papa Flash não está apenas nas imagens que criou ou nos instrumentos que inventou, mas na ideia fundamental de que a ciência, quando aplicada com curiosidade genuína e sensibilidade estética, pode revelar uma beleza que estava ali o tempo todo, esperando apenas pela luz certa no momento certo.

Anúncio
Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium

Histórias Relacionadas