As Guerras Napoleônicas representam um dos períodos mais transformadores da história moderna, um ciclo de conflitos que redesenhou o mapa político da Europa e lançou as bases do mundo contemporâneo. Por mais de uma década, de aproximadamente 1803 a 1815, o Imperador Napoleão Bonaparte conduziu a França em uma série de guerras contra coalizões formadas pelas principais potências europeias, e as ondas que essas batalhas geraram continuaram a se propagar pelo mundo por décadas após o silêncio dos canhões.
A origem desses conflitos está diretamente ligada à Revolução Francesa, que começou em 1789. As notícias da revolução aterrorizaram as monarquias europeias, que viam na execução de Luís XVI e na proclamação da República um perigoso exemplo a ser contido. As Guerras Revolucionárias Francesas, que começaram em 1792, foram a resposta dessas monarquias. A Primeira Coalizão, formada pela Áustria, Prússia, Espanha e outros, foi derrotada em grande parte graças ao jovem general Napoleão Bonaparte, que conduziu uma série de campanhas relâmpago na Itália que chegaram a ameaçar Viena. A Segunda Coalizão, formada em 1798, enfrentou uma República Francesa enfraquecida internamente, mas Napoleão retornou do Egito, deu um golpe de Estado em novembro de 1799 e assumiu o controle como Primeiro Cônsul.
Sob a liderança de Napoleão, a França se reergueu rapidamente. Após a curta paz do Tratado de Amiens com a Grã-Bretanha em 1802, a guerra recomeçou em maio de 1803. Em 1804, Napoleão coroou-se Imperador em cerimônia suntuosa na Catedral de Notre-Dame, com o Papa Pio VII presente — mas foi o próprio Napoleão que colocou a coroa sobre sua cabeça, num gesto de soberania absoluta que se tornou icônico. O Grande Armée que ele construiu era uma máquina militar revolucionária: movido pela conscrição em massa, pela meritocracia no comando (diferente dos exércitos aristocráticos rivais) e por uma doutrina de manobra rápida que desconcertava os adversários.
Entre 1805 e 1807, Napoleão atingiu o apogeu de seu poder militar. Na Batalha de Austerlitz, em dezembro de 1805, derrotou de forma magistral os exércitos combinados da Áustria e da Rússia, numa batalha que ele próprio considerou sua obra-prima tática. Em 1806, destruiu a Prússia nas batalhas de Jena e Auerstedt. Em 1807, após derrotar os russos em Friedland, o Czar Alexandre I encontrou-se com Napoleão numa balsa no Rio Niemen e os dois imperadores dividiram a Europa na paz de Tilsit. O mapa do continente havia sido refeito: a maioria dos estados alemães se tornou o Principado Confederado do Reno sob influência francesa, a Polônia renasceu como o Grão-Ducado de Varsóvia, e os irmãos e marechais de Napoleão foram instalados como reis em reinos que iam da Espanha à Westfália.
O poderio francês começou a rachar com a Guerra Peninsular, iniciada em 1808. A tentativa de impor um domínio francês na Espanha e Portugal desencadeou uma resistência popular feroz — a guerrilha espanhola, que introduziu no vocabulário militar o próprio termo "guerrilha", pequena guerra. Apoiados pelo exército britânico sob o comando do Duque de Wellington, os espanhóis e portugueses sangrariam o exército napoleônico por anos, numa ferida que Napoleão chamou de sua "úlcera espanhola". Mais de 300 mil soldados franceses foram eventualmente absorvidos nesse conflito sem fim.
A decisão catastrófica veio em 1812: a invasão da Rússia. Com mais de 600 mil soldados, o Grande Armée atravessou a fronteira russa em junho daquele ano, esperando uma vitória rápida. Os russos, porém, recuaram sistematicamente, evitando batalhas decisivas e praticando a política de terra arrasada, destruindo recursos que pudessem abastecer o invasor. A Batalha de Borodino, em setembro, foi a batalha mais sangrenta das guerras, mas não resolveu o conflito. Napoleão entrou em Moscou para encontrar a cidade abandonada e em chamas. Esperando a rendição russa que nunca viria, permaneceu na cidade por semanas. Quando finalmente ordenou a retirada, o inverno russo já chegara. A retirada se transformou numa das mais terríveis catástrofes militares da história: o frio, a fome, os ataques dos cossacos e a exaustão dizimaram o exército. Dos mais de 600 mil que entraram na Rússia, estima-se que menos de 100 mil voltaram em condições de combate.
A derrota na Rússia quebrou o mito da invencibilidade napoleônica. A Sexta Coalizão, agora com a Rússia, a Prússia, a Áustria e a Grã-Bretanha unidos, enfrentou Napoleão com um exército renovado. Na Batalha de Lípsia, em outubro de 1813, conhecida como a Batalha das Nações, Napoleão foi derrotado de forma decisiva. As forças coligadas marcharam para Paris em março de 1814, e Napoleão abdicou, sendo exilado na ilha de Elba, ao largo da costa italiana.
Sua volta ao poder, os Cem Dias, foi um último ato dramático. Escapando de Elba em fevereiro de 1815, Napoleão marchou para Paris e recuperou o trono sem disparar um tiro, enquanto os soldados enviados para prendê-lo se juntavam um a um à sua causa. A Europa formou rapidamente a Sétima Coalizão. Em junho de 1815, na Batalha de Waterloo, no atual território belga, Napoleão foi definitivamente derrotado pelas forças britânicas de Wellington e pelos prussianos de Blücher. Desta vez, o exílio foi na remota ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, onde morreu em 1821.
O impacto das Guerras Napoleônicas na história do mundo foi imenso. O Congresso de Viena (1814-1815) redesenhou o mapa da Europa com base nas fronteiras pré-revolucionárias, mas não pôde apagar as sementes que Napoleão havia espalhado: ideias de soberania popular, igualdade perante a lei e identidade nacional que alimentariam as revoluções de 1830 e 1848, e os processos de unificação da Itália e da Alemanha no final do século XIX. O enfraquecimento do Império Espanhol, abalado pela ocupação francesa da metrópole, abriu caminho para as independências das nações latino-americanas. E a Grã-Bretanha, que havia financiado e resistido às guerras com mais eficácia do que qualquer outra potência, emergiu como a maior potência mundial, inaugurando a era da Pax Britannica.
