Quando o sol nasceu em 25 de junho de 1950, tanques soviéticos T-34 cruzavam o paralelo 38 em direção ao sul da península coreana. Era o início de uma guerra que deixaria mais de 3 milhões de mortos, destruiria cidades inteiras e congelaria uma divisão que, mais de sete décadas depois, ainda não foi resolvida por nenhum tratado de paz formal. Para os sul-coreanos, foi a "Guerra Coreana". Para o norte, a "Guerra de Libertação da Pátria". Para o resto do mundo, ficou conhecida como a Guerra da Coreia — e, por muito tempo, como a "guerra esquecida", eclipsada na memória coletiva ocidental pela Segunda Guerra Mundial que a precedeu e pelo Vietnã que a seguiu.
A divisão da Coreia era resultado direto das contradições da vitória aliada em 1945. O país havia sido colônia japonesa desde 1910, sob um domínio que se tornara cada vez mais brutal: em 1937 o governador Jirō Minami proibiu o uso e o ensino da língua coreana, a literatura nacional foi suprimida, nomes japoneses foram impostos obrigatoriamente a partir de 1939, e 2,6 milhões de coreanos foram mobilizados como força de trabalho forçada para o esforço de guerra japonês. Cerca de 25% dos mortos nas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki eram coreanos. Quando o Japão capitulou, a Coreia foi libertada — mas imediatamente dividida.
Em agosto de 1945, as tropas soviéticas ocuparam o norte da península até o paralelo 38, como resultado de acordos feitos entre Moscou e Washington. Tropas norte-americanas chegaram logo depois para ocupar o sul. O que deveria ser uma divisão temporária para fins de administração pós-guerra cristalizou-se em dois Estados separados: no norte, uma república popular sob Kim Il-sung, instalado pelos soviéticos; no sul, uma república apoiada pelos americanos, governada por Syngman Rhee. Ambos os líderes reivindicavam representar toda a Coreia, nenhum aceitava a fronteira como permanente, e os choques armados menores ao longo do paralelo 38 eram frequentes nos anos que antecederam a guerra aberta.
A invasão de 25 de junho de 1950 foi avassaladora. As forças norte-coreanas, equipadas com blindados soviéticos e treinadas por instrutores chineses veteranos da guerra civil que havia terminado no ano anterior, varreram as defesas sul-coreanas. Em três dias, Seul havia caído. Em dois meses, o exército sul-coreano e o pequeno contingente americano que havia tentado ajudá-lo foram empurrados para um bolso no extremo sul da península, o chamado Perímetro de Pusan. Parecia questão de dias até a queda definitiva.
O Conselho de Segurança da ONU, com a União Soviética ausente por estar boicotando o organismo em protesto pela não admissão da China comunista, aprovou a Resolução 83 em 27 de junho, condenando a invasão e autorizando força militar para restaurar a paz. Cerca de 21 países contribuíram com tropas, mas 88% dos soldados eram americanos, sob comando do general Douglas MacArthur. Em setembro de 1950, MacArthur lançou um desembarque anfíbio audacioso em Inchon, no coração da Coreia do Norte, cortando as linhas de suprimento do exército invasor. A manobra foi um sucesso estratégico espetacular: em semanas, as forças da ONU não apenas haviam retomado Seul, mas avançavam rapidamente em direção ao norte, rumo ao rio Yalu, fronteira com a China.
Foi essa aproximação que trouxe Pequim ao conflito. Em outubro de 1950, centenas de milhares de soldados do Exército de Voluntários do Povo Chinês cruzaram o rio Yalu e lançaram ataques maciços que apanharam as forças da ONU em desvantagem. MacArthur, que havia garantido que os chineses não interviriam, viu seu exército recuar em condições de frio extremo e assédio constante. Seul trocou de mãos quatro vezes durante o conflito. A guerra havia atingido um impasse que nenhum lado parecia capaz de quebrar.
Os dois últimos anos do conflito foram uma guerra de atrito ao longo de uma linha que oscilava em torno do paralelo 38. No ar, os combates eram intensos e historicamente significativos: foi a primeira guerra na história em que aviões a jato se enfrentaram em combate. Os americanos pilotavam o F-86 Sabre, os norte-coreanos e chineses contavam com o MiG-15 soviético, pilotado frequentemente por aviadores soviéticos que operavam em segredo. Na região conhecida como "Alameda dos MiGs", próximo ao rio Yalu, dúzias de aeronaves foram perdidas por ambos os lados em batalhas aéreas que estabeleceram doutrina para décadas. No solo, as negociações de armistício começaram em julho de 1951 mas arrastaram-se por dois anos, travadas em questões como a devolução de prisioneiros de guerra.
O armistício foi finalmente assinado em 27 de julho de 1953, estabelecendo a Zona Desmilitarizada — uma faixa de 4 quilômetros de largura ao longo do paralelo 38 que permanece, até hoje, uma das fronteiras mais militarizadas do planeta. Prisioneiros foram trocados, mas nenhum tratado de paz formal foi assinado. Tecnicamente, a guerra nunca terminou. As duas Coreias permanecem em estado de armistício, não de paz.
O legado da guerra foi extraordinariamente assimétrico. A Coreia do Sul, devastada, reconstruiu-se ao longo das décadas seguintes até se tornar uma das economias mais dinâmicas do mundo — o chamado "milagre do Han". A Coreia do Norte se fechou numa das ditaduras mais herméticas da história moderna, desenvolvendo arsenal nuclear e mantendo sua população num estado de isolamento sem paralelo. Em abril de 2018, os líderes das duas Coreias se encontraram na Zona Desmilitarizada e expressaram vontade de formalizar a paz — mas o tratado ainda não veio. A "guerra esquecida" deixou uma ferida que o tempo, por si só, não fecha.
