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Guerra de Canudos

Conflitos ocorridos na Bahia entre 1896 e 1897

8 min de leitura01/01/2024
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A guerra de Canudos ou campanha de Canudos foi um conflito armado ocorrido no final do século XIX entre, por um lado, as tropas regulares do estado da Bahia primeiro, e da república do Brasil depois, e por outro lado, um grupo de cerca de 30 000 colonos estabelecidos em comunidade autônoma num povoado fundado por eles no nordeste da Bahia, perto da antiga fazenda de Canudos, e rebatizado de Belo Monte.

O fundador da referida comunidade, Antônio Conselheiro, profeta milénarista ambulante, pregava uma moral de abstinência e considerava a recém-proclamada república como criação do Diabo. Após um quarto de século de errância e pregação nos sertões do Nordeste brasileiro, durante os quais adquiriu grande prestígio e fez muitos adeptos, entrou em rebelião aberta e violenta contra as autoridades republicanas, sendo então obrigado a sedentarizar-se num lugar dos mais remotos, arrastando consigo seus discípulos. A nova colônia, composta de habitações de fortuna, conheceu uma rápida expansão e logo contou com várias dezenas de milhares de habitantes. Espécie de teocracia, organizada em torno de ritos singulares e, em certa medida, segundo o princípio coletivista, a comunidade vivia do seu próprio trabalho — cultivando a fértil planície circundante, vendendo peles de cabra, ou cedendo sua força de trabalho às fazendas vizinhas —, mas também de donativos oferecidos pela população sertaneja, admiradora do profeta. Longe de funcionar numa redoma, a colônia permitia as idas e vindas e não se furtava a manter relações comerciais e outras com os povoados e vilarejos circunvizinhos. Ali se encontravam todas as componentes sociais e antropológicas da população do sertão (com certa sobrerrepresentação de negros, incluindo muitos escravos libertos e antigos negros marons) e todas as classes etárias, incluindo jovens brancos oriundos de famílias respeitadas do litoral.

As suspeitas de conspiração monarquista que recaíam sobre Canudos, e a ameaça que a comunidade fazia pairar sobre a perenidade do sistema sociopolítico-econômico local devido, em particular, ao êxodo massivo de mão de obra para fora das grandes propriedades agrícolas da região (muito mais do que a suposta nuisance que representavam os jagunços, elementos armados da comunidade, acusados injustamente de roubo de gado e depredações), levaram o poder político a intervir militarmente. O fato de não terem bastado menos de quatro expedições para aniquilar os Canudenses explica-se por um conjunto de erros táticos e estratégicos cometidos repetidamente pelas forças regulares: desconhecimento do terreno, subestimação do adversário, estrutura de comando rígida, organização militar e material bélico concebidos para uma batalha campal clássica e, portanto, totalmente inadaptados, e sobretudo logística de abastecimento falha senão inexistente. Do lado oposto, os ágeis jagunços, perfeitamente aclimatados à caatinga — vegetação arbustiva árida, de condições climáticas extremas —, praticavam uma desgastante guerra de assédio, feita de emboscadas e ataques-surpresa, furtando-se sem cessar, e sabendo tirar proveito com flexibilidade de sua vasta rede de trincheiras-abrigos. Em particular, a 3ª expedição, lançada em fevereiro de 1897, foi catastrófica: se os dois corpos expedicionários anteriores tiveram de recuar antes de alcançar Canudos, esta 3ª expedição arriscou uma ofensiva contra o povoado, durante a qual as formações de combate, diluídas e desorganizadas no dédalo das vielas, tiveram de enfrentar uma áspera guerrilha urbana e foram massacradas. Na debandada que se seguiu, o exército abandonou aos jagunços um rico butim de armas automáticas modernas e munição em abundância. A 4ª expedição, por fim, que mobilizou perto de 10 000 homens, acabou, após um penoso cerco de vários meses e depois de bombardear o povoado com artilharia pesada, por se apoderar do povoado, a despeito de uma resistência feroz que ocasionou grandes perdas do lado governamental. Os Canudenses, dos quais praticamente nenhum consentiu em se render, foram quase todos mortos, seja em combate, seja por execuções sumárias, e seu povoado totalmente aniquilado.

Se Canudos, sobretudo após o fracasso da segunda expedição, foi abusivamente interpretado como pilar de uma ampla conspiração monarquista beneficiando de apoios no estrangeiro, foi subsequentemente uma outra versão, defendida pelas elites brasileiras eurotropas e positivistas do litoral, e pouco mais exata que a anterior, que prevaleceu: a de um grupo de camponeses atrasados e supersticiosos, acabrunhados por um pesado atavismo racial e cultural, que um iluminado desviante, fanático e intratável conseguiu enganar e arrastar consigo para uma experiência irracional e extrema. Pesquisas históricas ulteriores, no entanto, puseram em causa essa visão tendenciosa e demonstraram que, mesmo que as motivações religiosas tenham sido importantes, a partida para Canudos pode ter representado para pessoas traumatizadas pelas privações, pelos transtornos políticos recentes, e pelas vicissitudes da seca, das rixas de clã e da precariedade económica, uma decisão racional e pragmática, da qual esperavam que lhes trouxesse segurança e estabilidade num perímetro seguro e regulado, mediante a observância de preceitos religiosos e morais estritos; aliás, Conselheiro não se afastou da ortodoxia católica e manteve em geral boas relações com o clero local.

Esse violento episódio da história brasileira, que vitimou entre 15 000 e 30 000 pessoas, e foi subsequentemente diversamente interpretado, seria a matéria de várias criações literárias, das quais se destacam Os Sertões, um dos livros fundamentais da literatura brasileira, de Euclides da Cunha, e A Guerra do Fim do Mundo, romance de sucesso de Mario Vargas Llosa.

Entre 1888 e 1889, o Brasil atravessou um período de transformação revolucionária e de comoções sociais, econômicas e políticas as mais profundas de sua história desde o descobrimento pelos portugueses no ano de 1500. Em 13 de maio de 1888, a escravidão foi abolida pelo imperador reinante Dom Pedro II, por meio de uma lei assinada por sua filha, a princesa Isabel. Mais de cinco milhões de negros, que de um dia para o outro se viram sem trabalho, abandonaram as propriedades agrícolas para engrossar as fileiras dos extremamente pobres nas cidades e no campo. Dezenas de milhares de fazendeiros foram arruinados e, por um tempo, a atividade agrícola quase parou, especialmente nas culturas de mão de obra intensiva, como café, algodão, tabaco e cana-de-açúcar, que constituíam os pilares da economia brasileira naquela época.

Por outro lado, em 15 de novembro de 1889, o imperador foi deposto por um golpe de Estado militar e a república foi proclamada, adicionando um excesso de instabilidade e dissensão em um país já em ebulição política e social. O papel do imperador como árbitro entre as elites dirigentes, as quais tinham grosso modo a mesma visão da vida econômica e social e só se opunham em alguns assuntos específicos, satisfazia a maioria dos membros das classes superiores. O advento da república não modificou essa atitude e, como as querelas entre as diferentes facções e entre militares e civis não diminuíam de intensidade, alguns chegaram a pensar audaciosamente que o Brasil deveria restaurar a casa de Bragança. Logo, a jovem república teve que enfrentar uma série de rebeliões: a chamada Revolta da Armada, envolvendo algumas unidades da marinha (1893-1894); depois, quase simultaneamente, no Rio Grande do Sul, a denominada Revolução Federalista (1893-1895), que desembocou em uma sangrenta guerra civil; finalmente, alguns anos mais tarde, a sedição de Canudos. (É interessante notar que o coronel Antônio Moreira César, a quem seria confiado o comando da — desastrosa — terceira expedição a Canudos, já havia participado, com sucesso, da repressão das duas primeiras insurreições.) Visto que o novo regime republicano tinha dificuldade para se consolidar, e visto o temor de que a agitação monarquista pudesse ser prejudicial aos esforços de São Paulo para obter empréstimos do exterior, o exército decidiu assumir o papel de defensor da unidade nacional e dirigiu o país de forma ditatorial de 1889 a 1894. Assim, o governador de São Paulo, Manuel Campos Sales, resolveu em outubro de 1896 esmagar o partido monarquista do Estado de São Paulo; a polícia invadiu domicílios particulares para interromper reuniões monarquistas pacíficas e recebeu ordem de impedir ajuntamentos públicos. Eduardo Prado, líder do partido monarquista em São Paulo, era o principal alvo.

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