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Guerra de Canudos

Conflitos ocorridos na Bahia entre 1896 e 1897

8 min de leitura01/01/2024
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No sertão nordestino, onde o sol calcina a caatinga e a seca molda homens e destinos com a mesma implacabilidade, existiu entre 1893 e 1897 uma comunidade que desafiou o poder republicano brasileiro com uma tenacidade que ainda hoje surpreende os historiadores. O Arraial de Belo Monte, fundado por Antônio Conselheiro na fazenda abandonada de Canudos, no interior da Bahia, tornou-se o palco de um dos mais sangrentos conflitos da história brasileira, e a narrativa da sua destruição foi eternizada por Euclides da Cunha em Os Sertões, um dos livros fundamentais da literatura brasileira.

O contexto em que Canudos nasceu era de transformação vertiginosa e profundo trauma social. Em 1888, a abolição da escravatura libertou mais de cinco milhões de pessoas que, de um dia para o outro, se viram sem trabalho, sem terra e sem qualquer estrutura de amparo social. No ano seguinte, o golpe militar de novembro de 1889 derrubou a monarquia e proclamou a república, alterando de forma radical a relação entre Igreja e Estado, acabando com o padroado que garantia a integração do clero ao poder civil, e impondo novidades como o casamento civil e o registro civil de nascimentos e mortes que confundiam e alarmavam os sertanejos mais religiosos.

Foi nesse cenário de desorientação que Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, ganhou seu imenso prestígio. Peregrino milénarista que há mais de um quarto de século vagava pelos sertões do Nordeste, pregando a penitência, liderando mutirões para construir e reformar igrejas e cemitérios, distribuindo palavras de conforto aos pobres e de condenação às elites republicanas, Conselheiro acumulou seguidores de todas as camadas sociais do interior. Para os sertanejos traumatizados pelas secas, pelas dívidas, pelas guerras de clãs e pela instabilidade política, sua mensagem de comunidade, disciplina e fé representava uma alternativa concreta à miséria do cotidiano.

Por volta de 1893, Conselheiro se fixou com seus seguidores no lugarejo de Canudos, que rebatizou de Belo Monte. A comunidade cresceu com uma rapidez espantosa, chegando a abrigar entre 15.000 e 30.000 pessoas — o segundo maior aglomerado urbano da Bahia à época. Ali viviam agricultores, artesãos, ex-escravizados, negros fugidos de fazendas, indígenas, jovens das famílias respeitadas do litoral. A comunidade cultivava a planície fértil ao redor, criava cabras, vendia artesanato e admitia a livre circulação de pessoas, não sendo um reduto fechado como os adversários pintavam.

O poder político e econômico da região enxergou em Canudos uma ameaça existencial. Os grandes proprietários de terra perdiam mão de obra para o arraial; os republicanos viam no desprezo de Conselheiro pelo novo regime uma provocação aberta; alguns chegaram a atribuir ao movimento uma conspiração monarquista, fantasia paranóica que ganhou vida própria na imprensa da época. Em 1896, após um conflito com comerciantes de uma cidade vizinha por causa de madeira encomendada, as autoridades baianas enviaram uma expedição policial para dissolver a comunidade. Os sertanejos a rechaçaram com facilidade.

O que se seguiu foram quatro expedições militares, cada uma mais numerosa e melhor armada do que a anterior, e cada uma revelando com crescente humilhação a incompetência das forças republicanas diante de um adversário que conhecia o terreno como ninguém. A primeira expedição, em novembro de 1896, foi derrotada. A segunda, em janeiro de 1897, também recuou. A terceira, lançada em fevereiro de 1897 com mais de 1.000 homens, foi a mais catastrófica: avançou até Canudos, penetrou nas vielas do arraial e foi destroçada numa guerrilha urbana feroz. Os soldados que sobreviveram fugiram abandonando artilharia, munição e equipamentos que passaram a armar os sertanejos.

Só a quarta expedição, com quase 10.000 homens, artilharia pesada e suprimento adequado, conseguiu derrotar Canudos após um cerco de meses. O arraial foi sistematicamente bombardeado, casa por casa destruída. Conselheiro morreu antes da derrota final, provavelmente de disenteria, mas seus seguidores continuaram resistindo até os últimos defensores. Praticamente nenhum sertanejo se rendeu. Homens, mulheres e crianças foram mortos em combate ou executados sumariamente. O arraial foi completamente destruído, e o saldo de mortos estimado ficou entre 15.000 e 30.000 pessoas.

Euclides da Cunha, que cobriu a campanha como correspondente de jornal, ficou tão abalado com o que viu que passou anos transformando suas notas em Os Sertões, publicado em 1902. O livro foi uma obra pioneira na tentativa de compreender o sertão brasileiro, o homem nordestino e as contradições de um Estado que mandava destruir seus próprios cidadãos. Mario Vargas Llosa, décadas depois, usaria os eventos de Canudos como matéria-prima para A Guerra do Fim do Mundo, levando a tragédia sertaneja para o público internacional. O legado de Canudos é o de uma ferida que o Brasil demorou muito para reconhecer como autoinfligida.

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