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Semana de Arte Moderna

Marco do modernismo no Brasil

7 min de leitura01/01/2024
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Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, foi um evento cultural que ocorreu no Theatro Municipal de São Paulo de 13 a 17 de fevereiro de 1922. Contou com exposição de pinturas, esculturas e maquetes arquitetônicas, além de conferências e concertos nas noites dos dias 13, 15 e 17. Foi financiada principalmente por membros da elite paulista que haviam enriquecido com a produção cafeeira.

Os participantes da Semana almejavam uma renovação cultural no Brasil por meio de novas técnicas na pintura, literatura, arquitetura, escultura e música. Influenciados pelas vanguardas europeias, defendiam a liberdade criativa e a experimentação, que eram limitadas pelas tendências artísticas da época, como as regras métricas do Parnasianismo, o método acadêmico nas artes visuais e a reprodução realística do mundo do Naturalismo. Além disso, propunham criar uma arte afinada com a realidade brasileira.

Na época de sua realização teve um impacto pequeno e bastante localizado, mas influenciou o início da chamada fase heroica do modernismo, e ideias trabalhadas de forma incipiente no evento foram aprofundadas ao longo da década de 1920, tendo como efeito a criação de grupos como a Antropofagia e o Verde-Amarelismo. Depois da morte de Mário de Andrade em 1945, iniciou-se um movimento de recuperação do seu legado, passando a ser então supervalorizada e apontada como o marco zero do modernismo nacional, e identificando São Paulo como o centro irradiador de todas as mudanças.

Essa visão passou a ser criticada recentemente por estudiosos da literatura, que ressaltam se tratar de um evento da elite para a elite e que desconsiderava personalidades ligadas à renovação anteriores à Semana de 22, tais como Benjamim Costallat, Agrippino Grieco, João do Rio, Pixinguinha, Donga e João da Baiana. A Semana ainda é considerada um momento importante, não perdeu sua qualidade como um dos principais marcos do modernismo brasileiro, mas não foi o único e nem o primeiro, e precisa ser avaliada contra um contexto mais amplo, complexo e nuançado do que aquele que foi consagrado na historiografia tradicional.

A expansão da produção cafeeira na região do oeste paulista tornou São Paulo o principal estado produtor de café a partir de 1889, quando ultrapassou o Rio de Janeiro. O crescimento econômico permitiu que os grande cafeicultores paulistas exercessem maior influência na política nacional. Com o objetivo de fazer o Governo Federal atender aos seus interesses, as oligarquias de São Paulo se aliaram às de Minas Gerais, estado com maior eleitorado do país até 1930, estabelecendo a política dos governadores e a política do café com leite, o que permitiu o revezamento dos mandatos presidenciais entre políticos paulistas e mineiros.

Com o lucro proveniente das exportações do café, a elite paulista fazia investimentos necessários aos negócios, como a criação de ferrovias, docas, bancos, sociedades comerciais e máquinas, o que contribuiu para o processo de industrialização da cidade, outra característica marcante da São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Além dos lucros do café, outro fator que contribuiu para a industrialização da cidade foi o aumento da imigração estrangeira. Enquanto a população nativa era analfabeta e acostumada ao trabalho escravo, que só foi abolido em 1889, os imigrantes frequentemente eram alfabetizado e eram dotados de habilidades técnicas e manuais que desenvolveram trabalhando em seus países de origem, característica que os tornou a mão de obra mais adequada para o trabalho nas indústrias paulistas.

As primeiras décadas do século XX na Europa foram marcadas pela criação de correntes de pensamentos sobre a arte que mudariam e moldariam o meio intelectual e artístico nas décadas seguintes. As vanguardas europeias foram movimentos que propunham formas inéditas de se fazer arte, propondo uma ruptura com temas e técnicas utilizadas anteriormente. O primeiro desses movimentos, o Futurismo, iniciou-se com a publicação do Manifesto Futurista em 1909, o que influenciou todos os outros movimentos posteriores, tais como o Expressionismo, o Cubismo, o Dadaísmo e o Surrealismo.

Em meados de 1880 surge no Brasil o Parnasianismo, uma escola literária que cujas principais características são descrições com pouco sentimentalismo, ao contrário do Romantismo, falta de interesse por questões políticas, poesias com dez sílabas por verso, purismo gramatical, rebuscamento da linguagem e o retorno aos clássicos. O Simbolismo foi outro movimento literário que coexistiu com o Parnasianismo, embora com menos adesão. Ainda que tenha incorporado algumas características do Parnasianismo, o Simbolismo se difere pela imprecisão dos significados, a falta de rigidez dos versos ao utilizar versos livres e a adoção de um vocabulário místico.

Até o fim da década de 1910, o Parnasianismo, o Simbolismo e o Penumbrismo se mantiveram no gosto médio do brasileiro, cuja manutenção também se dava pelo apoio da Academia Brasileira de Letras. Mas havia pessoas que tiveram contato com os movimentos de vanguarda europeias que encaravam a poesia parnasiana ou a pintura acadêmica como antiquadas. Quando voltou da Europa em 1912, Oswald de Andrade já tinha conhecido o Manifesto Futurista e os versos livres de Paul Fort; Manuel Bandeira teve contato com o poeta dadaísta Paul Éluard e voltou para o Brasil marcado pelo neossimbolismo; e Ronald Carvalho ajudou a fundar a revista portuguesa Orfeu, que divulgava poesias de Fernando Pessoa e Sá Carneiro.

A reação do meio intelectual às novidades trazidas futuros modernistas não foi acolhedora. Em 1917, a pintora Anita Malfatti voltou ao Brasil após um período de estudos nos Estados Unidos e promoveu uma exposição de suas pinturas em estilo expressionista. O Correio Paulistano, um jornal que futuramente apoiaria os modernistas, noticia a exposição ressaltando a inovação dos métodos clássicos e o fato de suas pinturas serem o que há de mais atual nos "meios culturais". No entanto, a resposta mais crítica foi publicada no dia 20 de dezembro do mesmo ano em O Estado de São Paulo. No artigo intitulado A Propósito da Exposição Malfatti, o prestigiado escritor Monteiro Lobato teceu duras críticas à pintora e às suas pretensões de ser "modernista", o que a afastava da arte tradicional. Oswald de Andrade e Menotti del Picchia a defenderam publicamente, enquanto Mário de Andrade demonstrou apoio comprando um quadro que gostou, O homem amarelo.

No biênio 1920-21, o grupo que posteriormente seria conhecido como modernista se tornou mais coeso. Apesar da diversidade de ideias, todos concordavam na necessidade de propor uma renovação cultural no país baseada na liberdade criativa do artista ou do escritor e na necessidade de se pensar uma arte autenticamente brasileira, o que significava pensar qual era a identidade brasileira. Parte dessa proposta tinha raízes na agitação nacional que ocorria no início da década de 1920 em razão da comemoração do Centenário da Independência em 1922. O sentimento nacionalista da época estava associado ao antilusitanismo derivado da presença portuguesa no comércio, indústria, imprensa e literatura. Por mais que não partilhassem das ideias antilusitanas, os fatores sociais e políticos também afetaram os modernistas na elaboração da crítica estética. Na literatura, a crítica modernista se pautava na ruptura com a forma tradicionais de expressão e no purismo da gramática, trazendo como alternativa a validação da forma falada da língua principalmente nas camadas populares da sociedade. Assim, com o propósito de diferenciar o português europeu do brasileiro, os modernistas acabaram por contribuir com a política antilusitana.

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