O inverno europeu de 1814 para 1815 foi de alívio para as cortes do continente: Napoleão Bonaparte, o homem que havia reconfigurado o mapa da Europa por mais de uma década, fora deposto e exilado na diminuta ilha de Elba, no mar Mediterrâneo. Em Viena, diplomatas de dezenas de nações trabalhavam para redesenhar fronteiras e restaurar monarquias. O "furacão napoleônico" parecia finalmente contido. Durou pouco. Em março de 1815, Napoleão escapou de Elba, desembarcou no sul da França com um punhado de seguidores e marchou em direção a Paris. Os regimentos enviados para detê-lo foram se juntando a ele um a um. Em 20 de março, ele entrava na capital sem disparar um tiro, recebido em triunfo. O Congresso de Viena mal podia acreditar.
O retorno de Napoleão ao poder ficou conhecido como os Cem Dias — um interregno frágil em que ele tentou reconstituir o Grande Exército e negociar paz com as potências europeias, que não estavam dispostas a aceitar sua volta. A Sétima Coligação foi formada rapidamente, mobilizando exércitos da Grã-Bretanha, Prússia, Áustria, Rússia e outros estados. Dois grandes contingentes se concentraram perto da fronteira nordeste da França: 93 mil soldados sob o duque de Wellington, general britânico que havia derrotado as forças napoleônicas na Península Ibérica, e 117 mil prussianos sob o veterano marechal Gebhard Leberecht von Blücher. Mais ao leste, o exército austríaco de 210 mil e um exército russo de 150 mil aguardavam para avançar. Napoleão precisava agir antes que essas forças se unissem.
Em 15 de junho de 1815, com 73 mil homens, Napoleão invadiu a Bélgica. Seu plano era claro: atacar prussianos e britânicos separadamente, vencê-los em sequência antes que se reunissem, e então negociar da posição de vencedor. Em 16 de junho, na Batalha de Ligny, ele enfrentou pessoalmente Blücher. A luta durou o dia inteiro; no final da tarde, a Guarda Imperial francesa rompeu o centro prussiano. Os prussianos sofreram cerca de 22 mil baixas contra 11 mil francesas e recuaram, mas o velho Blücher conseguiu manter seu exército coeso, o que se revelaria crucial.
Para garantir que os prussianos não se juntassem aos britânicos na batalha seguinte, Napoleão destacou 30 mil homens sob o general Emmanuel de Grouchy com ordens de perseguir e fixar Blücher. Foi uma decisão que custaria tudo. Grouchy cumpriu as ordens ao pé da letra, mas Blücher fez algo inesperado: em vez de recuar para leste, em direção à Prússia, recuou para norte, mantendo a possibilidade de se juntar a Wellington. Enquanto isso, Wellington posicionou seu exército de 67 mil homens — 23 mil britânicos mais aliados belgas, neerlandeses e alemães — na escarpa de Mont-Saint-Jean, ao sul da cidade de Waterloo, apoiados por 160 canhões.
A manhã de 18 de junho de 1815 encontrou Napoleão em posição aparentemente favorável. Tinha 74 mil homens e 250 canhões. Wellington, conforme a avaliação francesa, estava sozinho — Grouchy mantinha Blücher ocupado longe. Mas Napoleão cometeu um erro que suas tropas pagariam com sangue: esperou até o meio-dia para iniciar o ataque, alegando que o terreno ensopado pela chuva do dia anterior precisava secar para a artilharia manobrar. Foram horas preciosas desperdiçadas.
Os ataques franceses ao longo do dia foram repetidamente repelidos pelas posições britânicas. O complexo de fazendas de Hougoumont, na ala direita britânica, sustentou assaltos intermináveis e nunca caiu. A fazenda de La Haye Sainte, no centro, caiu para os franceses no meio da tarde, abrindo uma brecha — mas Napoleão hesitou em explorá-la de imediato. Quando, no início da noite, ele finalmente lançou sua reserva mais preciosa, a Velha Guarda Imperial, os prussianos de Blücher já chegavam pelo flanco direito francês.
A chegada dos prussianos foi o ponto de inflexão. Wellington, que havia mantido suas linhas sob pressão intensa por horas, percebeu o momento e ordenou o contra-ataque geral. As tropas francesas, já exauridas e surpreendidas pela ameaça no flanco, entraram em colapso. A retirada converteu-se em debandada. A Velha Guarda, recusando a rendição, foi quase inteiramente dizimada. Wellington e Blücher se encontraram pessoalmente no campo de batalha à noite, próximo à fazenda de La Belle Alliance. O duque britânico descreveu a batalha como "a mais renhida a que assisti na minha vida".
Napoleão abdicou pela segunda e última vez em 22 de junho. Rendeu-se aos britânicos, esperando exílio confortável na Inglaterra ou nos Estados Unidos. Foi enviado para Santa Helena, um rochedo perdido no Atlântico Sul a mais de 1 800 quilômetros da costa africana, de onde não havia escapatória possível. Ali morreu em 1821, aos 51 anos. No local da batalha, na Bélgica, a 13 quilômetros de Bruxelas, ergue-se hoje o Monte do Leão, monumento construído com terra do próprio campo de batalha. Waterloo entrou para a linguagem como sinônimo de derrota definitiva e irreversível — o ponto final de uma era.