A Revolução Iraniana de 1979 foi um dos eventos mais surpreendentes e transformadores da segunda metade do século XX. Em poucos meses, ela derrubou uma das monarquias mais poderosas do Oriente Médio, expulsou um aliado estratégico dos Estados Unidos e instalou no poder um sistema de governo radicalmente novo: uma república islâmica teocrática liderada por clérigos. A velocidade e profundidade da transformação deixaram atônitos analistas, governos e observadores em todo o mundo, que simplesmente não haviam previsto que um regime apoiado pelo Ocidente e dotado de um dos maiores orçamentos militares da região pudesse desabar tão rapidamente.
O xá Mohammad Reza Pahlavi havia chegado ao poder em 1941 e, com uma breve interrupção em 1953, governara o Irã ininterruptamente desde então. Sua volta definitiva ao trono naquele ano foi viabilizada por uma operação da CIA que derrubou o governo democraticamente eleito de Mohammad Mosaddeq, episódio que marcou profundamente a memória política iraniana e alimentou ressentimentos anti-americanos por décadas. Com o apoio dos Estados Unidos e do bloco ocidental, o xá construiu um Estado autoritário sofisticado, sustentado pela polícia secreta SAVAK, que empregava censura, prisão, tortura e assassinato para eliminar qualquer oposição.
As reformas conhecidas como Revolução Branca, implementadas a partir de 1963, buscavam modernizar o Irã à imagem do Ocidente. Foram abolidos privilégios feudais, terras foram redistribuídas, mulheres obtiveram o direito de voto e um programa ambicioso de industrialização foi lançado. A economia cresceu consideravelmente entre 1963 e 1967, impulsionada pelo petróleo. Mas os frutos do crescimento foram distribuídos de forma profundamente desigual: apenas a elite rica e os intermediários de empresas ocidentais se beneficiavam das extravagâncias do regime. As classes médias e pobres urbanas, e especialmente a população rural, ficaram para trás, ressentidas e progressivamente mais receptivas ao discurso dos opositores religiosos.
O clero xiita, liderado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, articulou uma crítica ao regime que mesclava elementos religiosos, sociais e políticos de forma poderosa. Em 1963, estudantes islâmicos foram atacados violentamente quando protestavam, e Khomeini foi preso e enviado ao exílio em 1964. Mesmo do exílio, primeiro no Iraque e depois na França, ele manteve sua influência sobre amplos setores da sociedade iraniana por meio de fitas cassete com sermões que circulavam clandestinamente pelo país. A Ulema, a comunidade de estudiosos islâmicos, combinava sua oposição à brutalidade do governo com um profundo compromisso com a causa dos pobres, tornando-se o núcleo organizador da resistência popular.
Em 1975, diante da crescente oposição de líderes religiosos e de pequenos empresários, o regime do xá decidiu intensificar o controle sobre a sociedade iraniana. O calendário islâmico lunar foi banido do uso público e substituído por um calendário solar que exaltava as civilizações pré-islâmicas persas. Publicações islâmicas e marxistas sofreram censura ainda mais rígida. Essas medidas, longe de conter a oposição, aprofundaram o ressentimento de setores conservadores e religiosos da população.
As manifestações recomeçaram em outubro de 1977 e foram crescendo em intensidade. O incêndio do Cinema Rex em agosto de 1978, atribuído pela oposição às forças do regime, tornou-se o estopim que acelerou a revolução. Entre agosto e dezembro de 1978, greves e manifestações paralisaram o país de forma crescente. O xá tentou concessões tardias, mas perdeu o controle dos eventos. Em 16 de janeiro de 1979, Mohammad Reza Pahlavi deixou o Irã para o exílio, tornando-se o último monarca da linhagem Pahlavi e encerrando dois mil e quinhentos anos de monarquia persa. Shapour Bakhtiar assumiu como primeiro-ministro com apoio de parte da oposição secular, mas seu governo durou apenas semanas.
O aiatolá Khomeini retornou ao Irã em 1 de fevereiro de 1979, após quinze anos de exílio, sendo recebido por multidões de milhões de pessoas nas ruas de Teerã. A resposta popular a seu retorno evidenciou a profundidade de seu enraizamento na sociedade iraniana. Em 1 de abril de 1979, um referendo nacional estabeleceu formalmente a República Islâmica do Irã, e em dezembro do mesmo ano uma nova Constituição teocrática foi aprovada, consagrando Khomeini como líder supremo do país, posição que ele ocuparia até sua morte em 1989.
A revolução iraniana é considerada incomum pelos historiadores por diversas razões. Diferentemente da maioria das grandes revoluções, ela não foi precedida por derrota militar, crise financeira aguda, rebelião camponesa ou dissidência dentro das forças armadas. Ocorreu num país que vivia relativa prosperidade material. Produziu mudanças profundas em velocidade extraordinária. E substituiu uma monarquia autoritária pró-ocidental por uma teocracia anti-ocidental, invertendo completamente o alinhamento geopolítico do país. O resultado foi um Estado que expulsou dezenas de milhares de iranianos ao exílio e transformou o Irã em um dos principais antagonistas dos Estados Unidos no cenário global.
As consequências da Revolução Iraniana reverberaram por décadas. A crise dos reféns americanos, que durou 444 dias a partir de novembro de 1979, rompeu definitivamente as relações entre Teerã e Washington. A Guerra Irã-Iraque, que se seguiu entre 1980 e 1988, custou centenas de milhares de vidas. O modelo da república islâmica inspirou movimentos em todo o mundo muçulmano. E a rivalidade entre o Irã xiita e as monarquias sunitas do Golfo Pérsico tornou-se uma das linhas de fratura mais importantes da geopolítica regional, cujos ecos chegam com nitidez até os dias atuais.
